Como foi a boa estreia de Alonso e a vitória da Mini no Dakar 2020

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Fernando Alonso conseguiu mesmo, pelo menos aparentemente, se libertar da bolha da F1 para se aventurar nos mais diversos desafios do automobilismo. Desde que fez sua última prova no Mundial de monopostos, em 25 de novembro de 2018, ele competiu na IMSA (24 Horas de Daytona), WEC (incluindo 24 Horas de Le Mans), fez uma tentativa frustrada de se classificar para as 500 Milhas de Indianápolis e, na abertura de 2020, participou do Rally Dakar.

A incursão no Dakar provavelmente era um dos passos mais difíceis que o espanhol poderia dar. Não que as outras competições fossem fáceis (o resultado na Indy que o diga) ou não tivesse suas particularidades, mas é óbvio que a mudança das competições de pista para um rali off road requer uma adaptação que não se consegue do dia para a noite. O bicampeão mundial fez isso em alguns meses, com a participação em um rali no Marrocos para ganhar experiência.

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A estreia especificamente em 2020 tinha outro complicador. Foi a primeira vez que a competição foi realizada na Ásia, no deserto da Arábia Saudita, que fechou contrato para receber a competição até 2024, depois de 10 anos do rali sendo realizado na América do Sul. Por mais que outros eventos do tipo fossem acontecessem no local, era a primeira vez que pilotos e equipes enfrentaram o percurso nas condições e no nível de competição tão alto do Dakar. Por isso, a quantidade de informações era menor para ele acessar.

Fernando Alonso chegou a perder seu parabrisa em um dos estágios do Dakar 2020
Fernando Alonso chegou a perder seu parabrisa em um dos estágios do Dakar 2020 (Foto: A.S.O/DPPI/E.Vargiolu)

Claro que o fato de correr pela equipe oficial da Toyota, que se mostrou uma das mais fortes deste ano, ajudou. Alonso teve o apoio de técnicos e alguns dos melhores pilotos e navegadores do mundo em sua preparação de meses para chegar à prova em condições de no mínimo não fazer feio. E realmente ele não fez.

Ao lado do navegador Marc Coma, espanhol que venceu cinco vezes o Dakar nas motos, ele terminou na 13ª posição geral dos carros, melhor estreante da edição 2020 com sobras. A dupla teve problemas em dois dos 12 estágios: no segundo, ele passou por um buraco que causou problemas na suspensão. No 10º, eles sofreram uma capotagem.

Nos outros dez, os espanhóis terminaram entre os dez mais rápidos do dia em oito oportunidades. Em três, ficaram entre os cinco, sendo que no oitavo estágio, a dupla conseguiu o segundo melhor resultado. Nada mal.

“Eu não só cumpri como ultrapassei todos os meus objetivos pessoais que tinha antes do Dakar. No Marrocos, me senti confortável, mas fiquei 15 minutos atrás dos líderes em estágios de 250 km. Não sabia se no Dakar eu ficaria meia hora atrás dos principais especialistas, e ficando próximo deles em alguns dias como este, mesmo à frente deles, não estava em nenhuma das minhas metas”, chegou a declarar Alonso após a oitava especial, segundo o site inglês Autosport.

No final, com os dois acidentes que lhe custaram juntos mais de três horas parado, Alonso terminou o Dakar a 4h42min47 do vencedor, seus compatriotas Carlos Sainz e Lucas Cruz, da Mini. Seus companheiros de equipe de Toyota, Nassar Al-Attiyah e Matthieu Baumel, terminaram na segunda posição apenas 6min21 atrás dos campeões, após uma bela briga entre os carros da marca inglesa e os da Toyota.

Alonso volta ao Dakar?

Ao encerrar o Dakar em alta e recebendo elogios de todos os lados, Alonso, como era de se esperar, deixou em aberto a possibilidade de retornar à prova, dizendo ainda que em uma segunda participação acredita que pode pensar em vencer o rali.

Fernando Alonso com sua Toyota Hilux Dakar no deserto da Arábia Saudita (Foto: A.S.O./DPPI/F.Gooden)

O tricampeão Nasser Al-Attiyah, que participou da preparação do espanhol, lembrou, no entanto, que nem sempre a evolução é tão simples como parece. “Você precisa também respeitar a corrida. Quando eu vim para o Dakar, eu já tinha muita experiência [em rali]. Depois de seis, sete anos, eu venci. Carlos [Sainz] é um grande piloto do WRC. Ele veio e ficou sete, oito anos. Sebastien Loeb veio. Ele é um dos melhores pilotos, e não venceu. Leva tempo. Precisamos respeitar essa corrida, pois ela realmente não é fácil”, aconselhou.

Diversos ex-F1 já participaram do Dakar, como Alonso fez. A maioria não teve grandes resultados, mas dois, Jacky Ickx e Jean-Louis Schlesser conseguiram vitórias nos carros. O primeiro participou no total de 14 edições enquanto o segundo, de 19. Patrick Tambay também conseguiu destaque, terminando duas vezes na terceira posição, em nove investidas.

A própria incursão de Alonso na Indy mostra que automobilismo não é simples e pouco previsível. Depois de uma ótima participação em 2017, em que chegou a liderar a prova por diversas voltas, ele nem conseguiu se classificar em 19. De qualquer forma, difícil imaginar que ele não tenha chance, caso queira, de retornar ao deserto, ainda mais se a Toyota mantiver um programa competitivo.

E os vencedores…

A lenda espanhola dos ralis, Carlos Sainz, pai do piloto da McLaren na F1 que leva seu nome, Carlos Sainz Jr, chegou em 2020 ao seu terceiro triunfo no Dakar, todos com montadoras diferentes. O piloto de 57 anos, que competiu com o navegador Lucas Cruz, já tinha vencido a competição pela Volkswagen, em 2010, e Peugeot, em 18. A nova vitória veio pela Mini.

O triunfo foi importante para a marca inglesa, que não conquistava um título no Dakar desde 2015, quando encerrou uma sequência de quatro triunfos. O modelo Mini John Cooper Works Buggy tinha estreado em 18, com um quinto lugar na primeira tentativa e o vice em 2019.

Carlos Sainz em seu Mini-BMW Buggy, no Dakar de 2020. Espanhol venceu pela terceira vez o rali
Carlos Sainz em seu Mini-BMW Buggy, no Dakar de 2020. Espanhol venceu pela terceira vez o rali (Foto: A.S.O/C.Lopez)

O carro utiliza um motor BMW turbo de 3 litros, movido a diesel, que gera potência de 350 cavalos, e a velocidade máxima de 190 km/h. Seu torque, a 2.250 RPM, é de aproximadamente 770 Nm. Diferente do que se imaginaria, o Mini Buggy é tração traseira. A opção abre mão de um pouco de tração, mas o regulamento abre espaço em compensação para utilização de pneus mais largos, altura maior em relação ao solo e restritor de ar 1mm maior. O chassi é feito com partes em fibra de carbono e outras em kevlar, com peso (sem combustível) de 1.675 kg.

O Dakar de 2020 acabou marcado pela briga da Mini com a Toyota, vencedora de 2019. Os japoneses andaram com seu modelo Hilux Dakar 4×4, que utiliza um V8 de 5 litros aspirado, com potência de 385 cavalos e torque de 620 Nm.

Na classificação final, as duas marcas ficaram bem misturas entre os primeiros colocados, com Al-Attiyah, da Toyota, bem próximo do Mini de Sainz. A vantagem do Buggy da Mini com tração traseira ficou latente, no entanto, ao vermos que eles venceram oito dos 12 estágios, o que pode fazer com que a Toyota tenha que rever seu projeto para 2021 ou exigir alguma mudança no regulamento para um equilíbrio maior.

Os brasileiros do Dakar

Como era de se esperar, a mudança do Dakar da América do Sul para a Arábia Saudita fez o número de participantes brasileiros cair na prova por conta dos custos. O país foi representado pela dupla Reinaldo Varela e Gustavo Gugelmin, campeões em 18 da categoria UTV, que terminou na nona posição na modalidade.

A participação ficou bastante marcada por um momento de dificuldade, quando a caixa de direção do Can-Am da dupla quebrou ainda no primeiro estágio e eles tiveram que improvisar com chaves de fenda e de boca para conseguirem conduzir seu veículo até o final da especial.

“Nós chegamos aqui embalados pelos resultados nos dois anos anteriores, com o título de 2018 e o bicampeonato escapando da gente no final da prova de 2019 devido a uma quebra. Mas este ano tivemos muitas dificuldades e problemas, que nos tiraram a chance de brigar pela ponta. Mostramos que seríamos competitivos e lutaríamos pela vitória na geral vencendo duas especiais. Acho que somando tudo, fomos até que muito bem”, explicou Varela.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.