Como Hamilton está se tornando o personagem mais importante da história da F1

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De tempos em tempos, surgem alguns atletas que transcendem o esporte. Muhammad Ali, Tommie Smith, Kathrine Switzer, Sócrates, Megan Rapinoe e por aí vai. Na F1, finalmente pode estar surgindo uma liderança com Lewis Hamilton.

Claro que a categoria, assim como em outras modalidades, possui nomes que se tornaram símbolos pop como Ayrton Senna. Isso aconteceu também no basquete com Michael Jordan, no futebol com Pelé e a lista segue.

Existem casos e mais casos pelo mundo de instituições de caridade e enormes doações para filantropia feitas por nomes importantes do esporte. Mas nem todos conseguiram realmente se tornar símbolo de uma causa, o que muitas vezes é o que atenta a sociedade para as necessidades de mudança.

O que torna o exemplo de Hamilton ainda mais especial é o fato de ele ser de um esporte extremamente elitista, dominado historicamente por brancos e omisso quanto a qualquer problema da sociedade que esteja fora dos portões de seus autódromos. A F1 já ignorou o apartheid, primavera árabe, correu em países que estão sob ditadura e aceitou contratos comeciais com estados e empresas ligadas a negócios escusos e até mesmo publicamente corruptos. E nunca ninguém deu muita bola. O inglês vem sendo agora o primeiro personagem de mais alcance (dizer que ele é o primeiro e único talvez seja certo exagero e até injustiça com alguns casos locais e específicos) a apontar para feridas da sociedade e como o automobilismo deve se posicionar.

Hamilton há algum tempo tem se levantado e falado sobre questões ambientais, mesmo sendo ídolo de um esporte visto como poluidor. E ele não esconde isso, tentando, inclusive, cobrar um trabalho e evolução mais firme e sério da F1 e seus envolvidos sobre o problema. Ele também adotou uma dieta e a causa vegana para denunciar maus tratos animais pela indústria alimentícia.

Nas últimas semanas, ele também passou a se posicionar de maneira bastante dura em relação a problemas raciais, que voltaram a estampar as manchetes de todo o mundo após o assassinato de George Floyd por um policial branco. Foi uma postagem de Hamilton nas redes sociais que colocou fogo no automobilismo e na indústria automotiva para que pilotos e empresas ligadas ao esporte passassem a se posicionar sobre o que estava acontecendo.

“Eu vejo todos vocês que estão em silêncio, alguns de vocês que são grandes estrelas e que ainda estão em silêncio no meio da injustiça. Nenhum sinal de alguém da minha indústria, que claro que é um esporte predominante branco. Sou uma das poucas pessoas de cor e ainda estou sozinho. Achava que agora vocês já vissem o motivo disso acontecer e dissessem algo sobre, mas vocês não conseguem ficar conosco. Eu sei quem vocês são e eu vejo vocês. Não pode existir paz até que nossos ditos líderes façam uma mudança. Não é apenas na América, também na GB, Espanha, Itália e em todo lugar. A maneira como minorias são tratadas precisa mudar, como você educa as pessoas em seu país sobre igualdade, racismo, divisão de classes e que somos todos iguais. Não nascemos com racismo e ódio em nossos corações. Isso nos é ensinado por aqueles que nos olham de cima”, declarou.

Imediatamente uma série de declarações de pilotos  da F1 vieram a público. A equipe Mercedes, que representa uma das maiores marcas do setor automotivo no mundo, deu razão a Hamilton e também se posicionou. Mas ele não parou e seguiu com suas publicações incentivando os protestos contra racismo que tomaram as ruas dos Estados Unidos e Europa.

Em uma das últimas publicações, ele apoiou a derrubada de uma estátua de Edward Colston, em Bristol, na Inglaterra, que homenageava o mercador que fez fortuna com tráfego de escravos.

“Edward Colston era um monstro que comprava, vendia e comercializava africanos, seres humanos, e os forçava a escravidão até a morte. Ninguém que fez isso deveria ser homenageado. Foi/é terrorismo hoje e antes. Ele nunca deveria ter uma estátua. Tenho orgulho dos ativistas e organizadores de Bristol, no Reino Unido, que derrubaram isso. Coloquem todos para baixo. Em toda parte. Eu apoio isso.”

Não é simples usar sua imagem para causas sociais. Diversos atletas na história que tentaram liderar movimentos do tipo acabaram perdendo patrocínios e até passaram a ser boicotados e tiveram suas carreiras prejudicadas. Um exemplo emblemático deste problema é de Colin Kaepernick. Durante uma partida de 2016, o jogador da NFL fez um protesto ao se ajoelhar durante o hino americano em protesto.

“Não vou me levantar para mostrar orgulho por uma bandeira de um país que oprime pessoas negras e de cor. Para mim, isso é maior do que futebol e seria egoísmo da minha parte olhar para o outro lado. Existem corpos nas ruas e pessoas sendo pagas fugindo com assassinato”, declarou na época.

A partir daquele momento, a carreira de Kaepernick, que já vinha em recuperação de uma série de lesões e problemas físicos, começou a afundar de vez. Ele perdeu patrocínios e depois de um tempo até mesmo sua vaga na liga de futebol americano.

Histórico de Hamilton

Hamilton nem sempre teve posicionamentos tão fortes quanto a causas ambientais e sociais. Como primeiro negro a realmente competir na F1, muito se esperou dele sobre isso, mas no começo, o assunto não era muito comentado.

É preciso entender, no entanto, o contexto a que o inglês estava inserido. Quando chegou à F1, ele era um jovem de 22 anos, em uma das principais equipes da categoria, a McLaren. A pressão sobre ele desde o início foi gigante. Tanto que ele disputou o título já em sua primeira temporada e o conquistou na segunda.

A McLaren, sob liderança de Ron Dennis, também não era exatamente um ambiente que dava abertura para posicionamentos firmes sobre qualquer assunto. O time e seu principal dirigente da época não gostavam de polêmicas e mantinham uma política interna bastante rígida sobre estas questões. Quem não se adaptava, perdia o espaço.

Lewis Hamilton e Fernando Alonso travaram disputa tensa na McLaren em 2007
Lewis Hamilton e Fernando Alonso travaram disputa tensa na McLaren em 2007

E Hamilton teve que enfrentar problemas de racismo já na F1. Em 2008, pessoas brancas foram nas arquibancadas do circuito de Barcelona com máscaras pretas e camisetas com a frase “Família Hamilton” durante a pré-temporada da F1 . O piloto ainda era vaiado e xingado com palavras extremamente racistas. O mesmo aconteceu durante o GP da Espanha de 2009. O ocorrido teve resposta tímida e praticamente inexistente da categoria e do paddock.

É importante contextualizar que o “blackface” é algo bastante ofensivo à comunidade negra. Ele vem de uma tradição de teatros e programas de TV no final do século XIX e começo do XX em que atores brancos (os negros não eram permitidos no palco) se pintavam de preto para fazerem comédia ridicularizando hábitos, forma de falar e comportamentos em geral que eram atribuídos pelos brancos aos negros. Ou seja, uma das maiores expressões do preconceito racista.

Paralelamente, Hamilton enfrentou um período difícil após seu título de 2008. Ele continuou vencendo corridas, mas passou longe de qualquer chance de vencer um novo campeonato. O momento deixou o inglês abalado. Ele começou a dar declarações polêmicas sem necessidade, cometer erros na pista, brigou com o pai (que até então também era seu empresário) e até se meteu com Cientologia, uma controversa linha religiosa. Ou seja, a cabeça dele não estava no melhor dos lugares.

Só que aos poucos ele se reencontrou. Ao final de 2012, Hamilton deixou a McLaren e foi para a Mercedes em um movimento que já mostrava uma transformação do piloto. Mais maduro, ele fez uma opção ousada ao trocar uma equipe com que conseguia vencer corridas, apesar de não ganhar mais campeonatos, por uma organização que ainda engatinhava e que pouco participava do pelotão da frente.

A transferência chocou o mundo da F1. Dois anos depois, quando ele conquistou o título, a decisão se mostrou acertada. Hamilton claramente começou a se mostrar mais confiante em todos os pontos de sua vida, seja dentro como fora das pistas. Reatou o relacionamento com o pai, passou a ter um discurso público mais coeso e menos problemático.

Novas conquistas vieram e Hamilton seguiu com sua transformação, com toda a liberdade e apoio que a Mercedes também lhe deu. E assim, ele passou a se engajar em causas ambientais e a cobrar a F1 um trabalho para diminuir não só sua emissão de poluentes dos carros, mas de todo o evento em si.

“Vejo que tem muito o que podemos fazer. Quando vamos para as corridas, tem tanto material como garrafas, caixas… Poderíamos não ter mais plástico, por exemplo. E garantir que quando vamos aos lugares, deixemos um rastro limpo, também com reciclagem. Acho que a F1 tem feito bastante com seus motores [híbridos]. Usamos um terço do combustível que usávamos na época dos motores V8. E espero que eles continuem nesta direção.”, declarou o inglês na semana do GP do Brasil de 2019, quando questionado pelo Projeto Motor sobre o assunto.

O piloto também já vinha levantando a bandeira do veganismo, ainda mais polêmica, mas focada principalmente na questão dos maus tratos contra animais. Ele chegou a publicar em sua conta no Instagram um vídeo do abate de uma vaca de forma brutal, com pancadas na cabeça, cobrando a sociedade para se posicionar contra este tipo de prática.

Racismo

Como primeiro piloto negro da F1 e ao caminho de ser o nome de mais sucesso dentro da categoria, faltando pouco para igualar e superar os recordes de títulos e vitórias de Michael Schumacher, Hamilton passou a se expor de forma mais firme e confiante sobre o tema apenas nos últimos anos.

Quando questionado sobre o fato de não existirem mais pilotos negros no automobilismo, mesmo com o seu sucesso, ele sempre apontou o dedo para questões de custo do esporte a motor e situação social da maior parte das famílias negras do mundo.

“Acho que sempre foi um problema. O que eu gosto é que vejo famílias de diferentes estilos de vida, etnias e origens vindo até mim e dizendo: ‘meu filho quer ser um piloto’. Isso é ótimo, mas existe um problema. A cada ano fica mais caro. Hoje eu não seria capaz de correr na F1. Nós, como uma família de trabalhadores, não teríamos qualquer chance de chegar na F1 com o dinheiro que tínhamos. Sinto que o esporte está indo na direção errada”, disse o multicampeão na coletiva pré-GP do Brasil de 2019.

Depois da morte de George Floyd e a explosão das manifestações de movimentos antirracismo pelo mundo, principalmente nos Estados Unidos e Europa, ele passou a se colocar de forma mais aberta e forte sobre o tema, mostrando, mais uma vez, que com a maior confiança e maturidade, ele vem se sentindo mais à vontade para mostrar ao mundo o que pensa.

“Esta última semana foi muito escura. Eu falhei em manter minhas emoções. Eu tenho sentido muita raiva, tristeza e descrença no que meus olhos estão vendo. Estou completamente tomado pela raiva ao flagrante desrespeito pela vida de nossas pessoas. A injustiça que estamos vendo que nossos irmãos e irmãs enfrentam por todo o mundo sempre e sempre é horrível, e PRECISA acabar.”

“Muitas pessoas parecem surpresas, mas para nós, infelizmente, não é algo surpreendente. Aqueles que são negros, marrons, ou entre eles, veem todo dia e não deveriam sentir que nasceram com culpa, que não pertencem ou temem por suas vidas serem baseadas a cor de sua pele. Will Smith disse melhor, racismo não está ficando pior, está sendo filmado. Apenas agora que o mundo está bem equipado com câmeras que este problema está vindo à luz de forma tão grande.”

“Apenas quando acontecem tumultos e gritos por justiça que os poderes cedem e fazem algo, mas aí já é tarde e o que foi feito não é suficiente. Teve que milhares de pessoas reclamassem e prédios pegassem fogo para que autoridades reagissem e decidissem prender Derek Chauvin por assassinato, o que é triste.”

“Infelizmente, os Estados Unidos não é o único lugar onde o racismo existe e continua a falhar como humanos quando não consegue se levantar por seu direito. Por favor, não fique sentado em silêncio, seja qual for a cor de sua pele.”

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This past week has been so dark. I have failed to keep hold of my emotions. I have felt so much anger, sadness and disbelief in what my eyes have seen. I am completely overcome with rage at the sight of such blatant disregard for the lives of our people. The injustice that we are seeing our brothers and sisters face all over the world time and time again is disgusting, and MUST stop. So many people seem surprised, but to us unfortunately, it is not surprising. Those of us who are black, brown or in between, see it everyday and should not have to feel as though we were born guilty, don’t belong, or fear for our lives based on the colour of our skin. Will Smith said it best, racism is not getting worse, it’s being filmed. Only now that the world is so well equipped with cameras has this issue been able to come to light in such a big way. It is only when there are riots and screams for justice that the powers that be cave in and do something, but by then it is far too late and not enough has been done. It took hundreds of thousands of peoples complaints and buildings to burn before officials reacted and decided to arrest Derek Chauvin for murder, and that is sad. Unfortunately, America is not the only place where racism lives and we continue to fail as humans when we cannot stand up for what is right. Please do not sit in silence, no matter the colour of your skin. Black Lives Matter. #blackouttuesday ✊🏽

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Desta forma, Hamilton vai se tornando líder dentro de um esporte que por toda a sua história viveu dentro de certa homogeneidade elitista branca para apontar o dedo para problemas reais da sociedade. Ele usa sua imagem e força de relações públicas para chamar a atenção de um público que muito provavelmente não tem muito contato com temas deste tipo.

Afinal, não estamos falando de um esporte como futebol ou atletismo, em que os talentos surgem de qualquer lugar, principalmente das áreas mais pobres do planeta, em pessoas que têm de vencer dentro do esporte para conseguirem mudar o seu destino e dos que estão ao seu entorno.

É uma oportunidade de ouro para que o automobilismo também se humanize. Que olhe inclusive para a classe operária que o suporta nas funções mais braçais e que mostre ao mundo que pode contribuir com sua evolução através da educação técnica, desenvolvimento tecnológico e com ídolos como Lewis Hamilton que se posicionam.


 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.