Como Hungaroring expôs abismo entre Russell e Kubica

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George Russell completou a primeira fase de sua temporada de estreia na F1 com uma sensação agridoce. Por um lado, o novato inglês amarga rendimentos limitados ao fundo do pelotão graças à falta de competitividade de seu conjunto na Williams, o que praticamente impossibilita qualquer sonho mais ambicioso. Por outro, ainda assim conseguiu se destacar com sua performance individual, especialmente se for comparado ao parceiro, Robert Kubica, em demonstrações de velocidade pura.

No GP da Hungria, Russell completou o placar perfeito de 12 a 0 contra Kubica em classificações, sendo, ao lado de Sergio Pérez na Racing Point, o único piloto invicto no quesito em 2019. Mais do que isso, a tomada de tempos em Hungaroring expôs uma diferença discrepante, com o inglês, cria da Mercedes, sendo nada menos do que 1s2 mais veloz que o colega e quase obtendo a façanha de avançar ao Q2 com o pior carro do grid.

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A vantagem de Russell sobre Kubica nos instantes finais do Q1 foi visível durante toda a extensão da volta de Hungaroring – e lembrando que o polonês não pode usar como justificativa para a diferença de desempenho a falta de atividade recente no local, já que ele realizou ali testes em 2017 (com a Renault e uma Williams antiga) e em 2018.

Como que Russell foi tão mais veloz em Hungaroring? E como isso pode evidenciar a disparidade de desempenho entre os parceiros que tem sido frequente em classificações em 2019? Vamos analisar tudo, a começar por uma leitura mais detalhada das voltas de ambos no Q1 húngaro.

O raio-x das voltas na Hungria

Minutos finais do Q1 em Budapeste. Ambos os pilotos abrem a volta de acelerador cheio e DRS ativado na reta em Hungaroring. O carro de Kubica atinge velocidade final levemente mais alta: 317 km/h, contra 314 km/h do parceiro inglês.

Russell freia relativamente tarde para a Curva 1, um pouco antes da placa dos 100 metros. Ele reduz da oitava para terceira marcha e adota uma tomada fechada a ponto de beliscar a zebra interna. Kubica freia mais cedo, a aproximadamente 125 metros da curva. Após reduzir para a terceira marcha, ele adota uma trajetória mais larga e não chega a se aproximar da zebra do lado de dentro. Na tangência, o polonês não é tão rápido quanto Russell, indo a 89 km/h, diante de 95 km/h do colega.

Na saída do trecho, os pilotos chegam à segunda zona de DRS a caminho da Curva 2. Russell freia praticamente na placa dos 50 metros e consegue apontar firme em direção à trajetória, carregando boa velocidade de entrada. Kubica novamente freia alguns metros mais cedo e ainda assim não se encontra na tangência: seu carro escorrega, de modo que o piloto precisa fazer correções com o volante (o que acentua ainda mais a forma peculiar com que utiliza sua mão direita, que serve somente como apoio). Novamente Russell é mais rápido no setor: 125 km/h, contra 120 km/h de Kubica.

Dali até o fim do primeiro setor há apenas um trecho em reta, incluindo a Curva 3, feita totalmente de pé cravado. Na conclusão da primeira parcial, Russell já tem quase 0s2 de vantagem para o colega de equipe.

No início do segundo trecho da pista há a Curva 4, que acaba apresentando uma das maiores vantagens entre os parceiros da Williams durante a volta. Russell freia perto dos 50 metros, reduz rapidamente da sétima para a sexta marcha e toma a tangência de forma decidida, mais uma vez beliscando precisamente a zebra interna.

Kubica até aparenta frear ligeiramente mais tarde, mas isso impede uma tangência tão agressiva. Isso resulta em uma diferença considerável da velocidade de ambos no trecho: 241 km/h para Russell, 231 km/h para Kubica.

Russell volta a frear mais tarde do que o parceiro na aproximação da Curva 5 e mais uma vez tem uma entrada de curva mais agressiva, com uma guinada mais brusca no volante. Kubica adota uma abordagem mais gradativa e suave, sem movimentos tão firmes. Mais uma vez Russell é mais rápido: 152 km/h para o inglês, contra 146 km/h do polonês.

Os dois exploram a zebra externa de forma parecida, a ponto de beliscar a “salsicha” que impede que os pilotos extrapolem a área de escape. No ponto seguinte, Russell mostra precisão no contorno da chicane das curvas 6 e 7: reduz de sexta para terceira, pega as duas zebras de dentro e percorre de forma cirúrgica a área externa na saída do trecho. Kubica aparenta não carregar a mesma velocidade, além de ter de fazer mais correções com o volante. De novo ali a vantagem é de Russell: 111 km/h, diante de 107 km/h de Kubica.

Russell tem a mesma precisão nas curvas 8 e 9, que são praticamente como um “S” de velocidade mais alta. O inglês contorna a primeira tomada mais cedo e carrega mais embalo, de modo que consegue se aproximar da Curva 9 com uma trajetória mais aberta, dando apenas um leve toque no freio, e novamente ser mais veloz de forma confortável: Russell é praticamente 10 km/h mais rápido que Kubica nas duas pernas.

Há um ponto de pé cravado mais uma vez na Curva 10, e a Curva 11 vê outra vez Russell tangenciando mais cedo, beliscando mais a zebra interna, ao passo que Kubica parece mais conservador – de novo o polonês é mais progressivo ao volante. Russell chega a 235 km/h no ápice da curva, enquanto que Kubica contorna a 226 km/h.

O excesso de fluidez do setor, com uma curva sendo sucedida por outra em um espaço curto, traz dividendos à agressividade e precisão de Russell. A diferença ao fim do segundo trecho é gritante: 0s761 em favor do inglês, que já está 0s960 mais veloz na volta como um todo.

Na abertura do último setor da pista, na Curva 12, Kubica freia antes da placa dos 100 metros, sendo que Russell consegue fazê-lo confortavelmente mais tarde. Mesmo assim, a trajetória de ambos no trecho é praticamente idêntica: a diferença é que Russell mais uma vez é mais firme na entrada, o que o permite ser 3 km/h mais rápido que o colega: 112 km/h a 109 km/h em favor do inglês.

Chegamos à penúltima curva. Mais uma vez Russell contorna a curva mais cedo e adota uma tomada mais fechada, enquanto que Kubica é mais regular e aberto. Comparando, a trajetória do inglês se assemelha mais a um “V”, enquanto que Kubica vai mais próximo e um “U”. Isso faz com que o polonês seja mais rápido no apex (97 km/h a 95 km/h em favor do polonês), mas Russell leva vantagem na entrada e na saída.

A tomada mais agressiva se apresenta mais uma vez na curva final. Russell mergulha mais forte, mas precisa fazer correções, enquanto que Kubica parece mais com o controle da situação – mas visivelmente sem carregar a mesma velocidade do parceiro. Nova vantagem de Russell em termos de velocidade: 138 km/h a 134 km/h.

Os dois adotam saídas semelhantes, acionam o DRS e cruzam a linha de chegada. Russell completa o setor com mais 0s3 de vantagem sobre Kubica. O tempo do inglês é de 1min17s031, apenas 0s053 insuficiente para lhe dar uma vaga no Q2. O polonês, com 1min18s324, amargou o último lugar, a 0s7 do penúltimo.

Ao analisar a volta como um todo, a vantagem de Russell se apresenta em praticamente todos os pontos. Uma das poucas exceções é a Curva 13, sendo que, ali, o inglês foi mais lento no meio da curva, mas o traçado mais agudo lhe proporcionou uma maior velocidade de entrada e saída. Mas, no restante, o novato foi mais rápido, e com certa folga.

O significado do feito

A realidade pouco competitiva da Williams pode fazer com que muitos se esqueçam momentaneamente do potencial de George Russell. Rápido e talentoso, o jovem de 21 anos tem uma carreira extremamente condecorada na base, com títulos em certames do porte de GP3 e F2, além de outros momentos de brilho que ganharam um pouco menos de atenção – por exemplo, chegou a bater o recorde extraoficial justamente de Hungaroring em 2018, durante um teste com a Mercedes.

No entanto, por mais que sua velocidade por si só não seja novidade, o que chama a atenção é a forma com que o novato consegue se impor diante de Kubica. A vantagem elástica apresentada na Hungria não foi algo único: na Austrália e na Espanha, por exemplo, a diferença entre os parceiros esteve acima daquilo que é comumente visto na F1 (vantagens de 1s7 e 1s1, respectivamente).

Em todas as pistas em que Russell sobrou, há o perfil de curvas de raio mais longo, nas quais o inglês se destaca por ter uma abordagem mais agressiva na tangência – carregando maior velocidade de entrada, beliscando a zebra interna e explorando a pista na saída. A abordagem, aliás, também trouxe benefícios em curvas de diferentes características.

Isso pode ser visto em alguns pontos das voltas mais rápidas de ambos de Melbourne e Barcelona, em que a trajetória em “V” de Russell trouxe mais dividendos em relação ao traçado em “U” de Kubica.

Já em pistas de curvas com ângulos mais agudos (ou seja, curvas mais fechadas, grampos e etc), a diferença entre os parceiros foi apertada, como aconteceu no Bahrein – quando apenas 0s040 separou os parceiros.

Coincidência ou tendência? Existe um perfil de pistas em que o estilo de Russell se impõe com mais autoridade em relação a Kubica? Há uma diferença de adaptação aos pneus Pirelli, assim como aconteceu com o próprio polonês na difícil temporada de 2007 durante a adoção dos Bridgestone? Ou simplesmente é uma questão pontual de conforto com o carro? Apenas os pilotos e os engenheiros da Williams sabem a resposta.

Russell é fenômeno, Kubica está mal ou as duas coisas? (Williams)

A situação como um todo da Williams dificulta a criação de referências. Analisando de fora, fica difícil diferenciar até que ponto Kubica deixa a desejar, até que ponto Russell é um fenômeno que tira tudo de um carro limitado, ou até que ponto é um pouco dos dois. Diante do cenário incomum que forma a dupla da Williams (um grande talento em ascensão versus um piloto com uma limitação física e que estava afastado da categoria há oito anos), ambas as hipóteses são perfeitamente plausíveis.

O momento do time também não colabora nesse sentido. Relegados à lanterna, Russell e Kubica precisam se conformar em lutar por migalhas, sendo que nem sempre os resultados finais condizem com o rendimento apresentado. Por exemplo, Russell desperdiçou uma preciosa oportunidade de conquistar um bom resultado no GP da Alemanha ao não conseguir convencer a Williams a colocar pneus de seco no fim da prova. Assim, quem acabou pontuando foi Kubica, agora à frente de Russell no campeonato.

Mesmo assim, à sua maneira, Russell dá todos os passos necessários para se destacar neste início de carreira na F1, assim como aconteceu em casos como o de Fernando Alonso na Minardi, em 2001. Mesmo que 2019 não traga os frutos esperados, o jovem inglês está se mostrando pronto para avançar ao estágio seguinte na próxima temporada e, quem sabe, deixar ainda mais claro até onde poderá chegar.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.