Como um espião antinazista quase se tornou o primeiro campeão da F1

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Quando os heróis da pré-F1 são relembrados, o nome de Jean-Pierre Wimille geralmente não é o primeiro a ser mencionado. O motivo disso é simples: o auge do francês ocorreu nos anos imediatos à 2ª Guerra Mundial, um período em que o esporte europeu ainda se recuperava da catástrofe bélica que cobriu o continente na primeira parte da década de 40. Por consequência, Wimille nunca ganhou a oportunidade de disputar uma prova oficial de F1.

Mas o primeiro título do recém-formado Mundial de Automobilismo – ainda não havia a designação “campeonato de F1”, uma honra instituída apenas no início dos anos 80 – provavelmente estaria em suas mãos. Jean-Pierre era o piloto nº 1 da Alfa Romeo e, em 1948, vencera dois dos cinco Grandes Èpreuves no calendário: o GP da França, em Reims, e o GP da Itália, em Turim. Sua hegemonia apenas seria interrompida por um inexplicável acidentes em Buenos Aires, no ano seguinte, que acabou lhe tirando a vida.

Wimille após vencer o GP do Marne em 1936 (Divulgação)
Wimille após vencer o GP do Marne em 1936 (Divulgação)

O início no automobilismo

Nascido em 26 de fevereiro de 1908, em Paris, Wimille começou a carreira como jornalista, escrevendo artigos automotivos para o jornal “Petit Parisien”. Sua principal inspiração para entrar no automobilismo veio do compatriota Robert Benoist, ídolo da Delage e um dos maiores ases do circuito europeu nos anos 20.

Ao contrário dos pilotos da época, Wimille não era rico. Seu pai, contudo, também jornalista, juntara bons contatos na indústria automotiva ao longo da carreira e foi com esse trunfo que o futuro ás da Alfa obteve a ajuda financeira de Ernest Friedrich, concessionário da Bugatti na Riviera francesa, a participar de seus primeiras corridas. Aconteceu então a estreia num Grande Èpreuve em 1930, na França, com um Bugatti Tipo 37. O jovem piloto não completou o percurso.

Após bons resultados, Wimille foi contratado pelo time oficial de Molsheim em 1933. Para seu azar, contudo, no ano seguinte as fábricas do Terceiro Reich, Mercedes-Benz e Auto Union, ingressaram no circuito de GPs. A notícia foi um desastre para os franceses: nos anos seguintes, não apenas foram trucidados pelos alemães como também pela Alfa Romeo. A vergonha foi tamanha que, no fim da década de 30, a Bugatti decidiu se concentrar apenas nas corridas de carros-esporte.

Wimillle (dir.) ao lado de Pierre Veyron nas 24 Horas de Le Mans (Divulgação)
Wimillle (dir.) ao lado de Pierre Veyron nas 24 Horas de Le Mans (Divulgação)

Mas se sua carreira nos monopostos foi para o limbo, Wimille não pôde reclamar da mudança para as provas de longa duração. Em 1937, ele venceu as 24 Horas de Le Mans ao lado do ídolo Benoist a bordo de um Type 57G com motor inline-8 de 3,3 litros. Dois anos depois, repetiu a dose, desta vez com Pierre Veyron. Neste ínterim, e recebeu um convite para se juntar à Auto Union; proposta prontamente recusada por causa de diferenças políticas.

De ás do endurance a membro da Resistência Francesa

A eclosão da 2ª Guerra Mundial na Europa foi um desastre para Wimille. Quando Hitler invadiu a Polônia, em setembro de 1939, o francês do nada se viu num campo de batalha, trabalhando para a aeronáutica da 3ª República.

Paris caiu em julho de 40 e, por recomendação de Benoist, Jean-Pierre se juntou, ao lado da esposa Christiane de la Fressange, à Executiva de Operações Especiais (SOE, na sigla em inglês) na capital francesa. Criada pelo primeiro-ministro britânico Winston Churchill naquele ano, a SOE conduzia ações de espionagem e sabotagem e encorajava movimentos de resistência no território ocupado pelo Terceiro Reich.

Wimille e Benoist após a vitória nas 24 Horas de Le Mans, em 1937 (Divulgação)
Wimille e Benoist após a vitória nas 24 Horas de Le Mans, em 1937 (Divulgação)

A operação mais famosa da qual Wimille participou foi o ataque e a sabotagem de armamentos no porto de Nantes no Dia D, em 6 junho de 1944. Por causa dessa manobra, boa parte da reação germânica contra a invasão dos Aliados nas regiões próximas à Normandia – como é o caso de Nantes, localizada no litoral noroeste da França – foi ralentada e o ataque, como todos nós sabemos, foi um sucesso.

A vida de Wimille, porém, estava em jogo. Duas semanas depois, Benoist foi preso em Paris e transferido para um campo de concentração em Buchenwald.

Na sequência, o resto da rede de espiões foi preso numa casa em Sermaine, nos arredores da capital. Wimille escapou e pulou num córrego atrás da casa, onde ficou escondido numa moita até os perseguidores alemães irem embora. Christine foi apreendida, mas teve sorte: na iminência da deportação, avistou um de seus parentes trabalhando como oficial da Cruz Vermelha no pátio da prisão de Fresnes. Ela entrou no veículo da instituição, pôs um casaco e distribuiu sanduíches aos transeuntes até que todos os presos abandonassem o local.

O retorno às pistas

Após a liberação de Paris, Wimille se juntou à Força Aérea Francesa novamente e, pouco antes do fim da guerra, participou de várias missões na Alemanha. O parisiense ainda estava a serviço do exército quando alinhou seu velho Bugatti Type 50B no primeiro Grande Eprèuve do pós-guerra, em Bois de Boulogne, em 9 de setembro de 1945. Ele venceu o páreo.

No ano seguinte, já livre das tarefas no exército, recomeçou sua campanha nos monopostos a bordo de um Alfa Romeo independente. Ele venceu novamente em Bois de Boulogne (veja no vídeo abaixo) e depois em Perpignan e Dijon. Nas provas principais, fechou o GP das Nações em terceiro e o GP da Itália em segundo, deixando Achille Varzi passar no final por ordens de equipe. Seu nome, porém, já estava de volta ao mainstream do automobilismo e, no fim da temporada, estava selado um contrato com a escuderia oficial da Alfa.

O domínio do francês nos Grandes Eprèuves nos anos seguintes foi quase semelhante ao imposto pelo argentino Juan Manuel Fangio no início da década de 50. Em 1947, Wimille venceu os GPs da Suíça e da Bélgica e só não venceu na Itália porque foi preterido de forma controversa porque a Alfa Romeo queria que um piloto da casa ganhasse. Ainda assim, terminou o ano como o piloto com maior número de vitórias em corridas internacionais.

A hegemonia continuou no ano seguinte. Já como nº 1 indisputável na Alfa, após a morte de Varzi no início da temporada, confirmou a pole position em três dos cinco Grande Eprèuves e triunfou nos GPs de França, Itália, Turim e Monza. Teria vencido também o GP da Suíça se não fosse por um gesto de bom grado ao companheiro Carlo-Felice Trossi, que sofria de um tumor no cérebro e a quem foi dada a chance de vencer a corrida. Apesar disso, àquela altura, já não havia mais dúvidas de que Jean-Pierre era o melhor volante da Europa. Se um Mundial de F1 existisse naquela época, ele teria sido o campeão.

Wimille no GP de Turim (Divulgação)
Wimille no GP de Turim, em 1948 (Divulgação)

O fim trágico e o legado

Mesmo em alta, Wimille, em razão do tempo perdido na guerra, continuava desesperado para participar de qualquer corrida. Foi com essa ideia que o ás parisiense rumou à Argentina em janeiro de 1949 para atuar no GP de Buenos Aires, no parque de Palermo.

Nos treinos livres, porém, o francês sofreu um forte acidente cujo motivo até hoje é desconhecido. Alguns afirmam que ele tentou desviar o Simca Gordini de espectadores que se aproximaram da pista para vê-lo; outros dizem que foi cegado pela luz solar.

De qualquer forma, o carro colidiu com um dos fardos de palha na borda do asfalto. O fardo, que originalmente fora instalado como barreira de segurança, atuou como uma rampa de lançamento e o veículo foi arremessado em direção a uma pequena árvore. No fim da cena, o carro não ficou muito danificado, mas o piloto sofrera graves ferimentos na cabeça, além do tórax esmagado. Antes da ambulância chegar ao hospital, o francês já havia falecido.

O mundo do automobilismo entrou em choque. Como nos episódios no futuro com Jim Clark e Ayrton Senna, muitos demoraram a compreender o que havia acontecido, já que Jean-Pierre não era propenso a acidentes. O próprio Enzo Ferrari comentou, anos depois:

“Wimille, sem dúvida, foi, ao lado de Maurice Trintignant e Jean Behra, um dos maiores pilotos a representar a França [na F1]. Ele poderia ter feito muito mais.”

Morto em 28 de janeiro de 1949, Wimille foi sepultado em Buenos Aires. Seu nome continua ligado à Bugatti, que lhe prestou homenagem, dois anos atrás, com uma versão especial do modelo Veyron.

Curiosamente, no funeral do piloto francês, também estavam os três primeiros campeões da história da F1: Nino Farina, Juan Manuel Fangio e Alberto Ascari. Talvez uma simbólica condolência ao piloto que provavelmente seria o primeiro a levar o troféu da maior categoria de automobilismo da história se uma inexplicável tragédia não interrompesse prematuramente sua vida.

O Bugatti Veyron Grand Sport Vitesse Jean-Pierre Wimille, batizado em homenagem ao piloto francês (Divulgação)
O Bugatti Veyron Grand Sport Vitesse Jean-Pierre Wimille, batizado em homenagem ao piloto francês (Divulgação)

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Edson Schultz

    Belo texto

    • Lucas Berredo

      Valeu, mestre!