Como uma contratação da Ferrari gerou mal-estar com as equipes e a FIA

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Laurent Mekies. Pode ser que você nunca tenha ouvido falar desse nome antes, mas sua contratação pela Ferrari gerou um mal-estar entre as equipes e colocou a FIA em uma saia justa pouco antes do início da temporada de 2018 da F1.

Mekies, francês de 40 anos, está envolvido com a F1 desde o começo da década de 2000, quando trabalhou na extinta Arrows. Pouco depois se transferiu à Minardi e permaneceu no período de transição para a Toro Rosso, ocupando o cargo de engenheiro-chefe.

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No fim de 2014, deixou a equipe satélite da Red Bull para se juntar à FIA. Na entidade regulamentadora do esporte, o francês primeiramente assumiu o posto de diretor de segurança, sendo responsável por liderar pesquisas/desenvolvimento e homologações dentro e fora da pista.

Com a aposentadoria do veterano Herbie Blash, no fim de 2016, Mekies também acumulou a função de vice-diretor de provas da F1, como uma espécie de braço direito de Charlie Whiting. Mekies, então, também passou a ser encarregado de, entre outras funções, coordenar as provas de F1 e F2 durante as primeiras voltas, período em que Whiting deixa a Torre de Controle para coordenar a largada do pitwall.

Mekies era braço direito de Whiting na FIA
Mekies era braço direito de Whiting na FIA

Além disso, Mekies foi visto como líder no processo de implementação do halo, algo que gerou muito debate ao longo do ano passado e no início de 2018.

Mas agora tudo já ficou para trás. De forma súbita, a Ferrari anunciou a chegada do francês em 2018. Não foi revelado publicamente qual será sua função – só se sabe que ele reportará diretamente a Mattia Binotto, diretor técnico da Scuderia de Maranello, a partir do dia 20 de setembro.

Ocorre que esta contratação tem um perfil ligeiramente incomum do que normalmente acontece, já que se trata de um membro de destaque da FIA – entidade que tem acesso aberto a todas as equipes – para se juntar a uma escuderia específica.

O precedente de Budkowski

A contratação de Mekies pela Ferrari ganha outro teor devido ao ocorrido apenas seis meses antes no paddock da F1. Em setembro de 2017, Marcin Budkowski, chefe do departamento técnico da FIA, deixou a entidade para assinar com a Renault, onde assumirá o posto de diretor executivo.

Ex-chefe técnico da FIA agora é funcionário da Renault
Ex-chefe técnico da FIA agora é funcionário da Renault

A movimentação de bastidores deixou as equipes enfurecidas. Afinal, Budkowski tinha acesso livre às informações técnicas de todas as equipes e das fabricantes de motor da F1. Caso um time quisesse implementar uma inovação, ela normalmente passaria pela aprovação de Budkowski para verificar sua legalidade antes da produção das peças em si. Em resumo, o polonês tinha ciência dos segredos guardados a sete chaves na F1.

De forma repentina isso mudou. Budkowski deixou a FIA, teria de cumprir três meses obrigatórios de quarentena para, então, chegar à Renault a partir de 1º de janeiro.

Evidentemente, as equipes não gostaram nem um pouco. Mercedes, Ferrari, Red Bull, Williams, McLaren e Force India formalizaram queixas para FIA e Liberty Media (detentora dos direitos comerciais) questionando o fato, especialmente por se tratar de um período tão curto de quarentena. O argumento era de que houve uma quebra de confiança clara, já que uma figura com informações privilegiadas de todas as equipes estaria a serviço da Renault tão pouco tempo depois.

Diante da pressão, a Renault concordou em dobrar esse tempo, adiando a chegada de Budkowski em mais três meses – sua estreia no novo emprego será, então, em 1º de abril.

O problema é que a FIA fica de mãos amarradas no meio disso tudo. Todos os funcionários da entidade respeitam contratos sob a lei trabalhista da Suíça, que determina que um período de quarentena não deve ser maior do que três meses. É algo que está acima dos regulamentos esportivos.

Jean Todt, presidente da FIA, sugeriu que as equipes estabelecessem um acordo de cavalheiros para estender esse prazo, já que, de fato, três meses realmente é um período curto para o modelo de gestão da F1.

SAIA JUSTA PARA EQUIPES E A FIA

Boullier mostrou sua irritação com atitude da Ferrari (McLaren)
Boullier mostrou sua irritação com atitude da Ferrari (McLaren)

Foi justamente isso que fez com que a chegada de Mekies à Ferrari incomodasse. De acordo com Éric Boullier, diretor esportivo da McLaren, as mesmas equipes que se revoltaram com a contratação de Budkowski concordaram que um ex-funcionário da FIA deveria passar por 12 meses de quarentena antes de se juntar a um time específico. Mekies se juntará a Ferrari em apenas seis meses.

“Estamos muito infelizes com a FIA por ter perdido outro funcionário chave a uma equipe de corridas. (…) A Ferrari quebrou o acordo de cavalheiros e a FIA não se impôs”, reclamou Boullier ao Motorsport

É importante ponderar que o cargo de Mekies não dava o mesmo tipo de acesso aos detalhes técnicos como tinha Budkowski, por exemplo. Porém, o que chama a atenção é o fato de que um acordo estabelecido por todas as equipes tenha sido descumprido tão pouco tempo depois – o que já causou um desconforto entre várias equipes nas internas.

Para a FIA, a novidade também não foi nada boa. Praticamente em um semestre, a entidade perdeu dois funcionários importantes, tidos como potenciais sucessores de Whiting e Jo Bauer (delegado técnico na F1).

No caso de Mekies, o timing não podia ser pior. Sua saída obriga a FIA a ter pressa para encontrar um substituto para auxiliar Whiting na direção de prova do GP da Austrália. As opções são escassas: a Federação tem dificuldades para encontrar, tão em cima da hora, alguém que tenha qualificações, experiência e disponibilidade para estar presente em Melbourne.

Herbie Blash, antigo parceiro de Whiting, pode pintar como uma alternativa temporária para as outras provas. Contudo, na data do GP da Austrália, o veterano tem compromissos em seu cargo com a Yamaha no Mundial de Superbikes. Situação delicada.

Há quem defenda que a F1 sempre foi um tanque de tubarões e que coisas como “acordo de cavalheiros” não possui muito valor prático – nessa breve história é possível detectar atitudes no limite ético de Renault, Ferrari e dos próprios funcionários da FIA. Tudo isso não é novidade na F1, e até por isso o ponto dessa história é outro.

Para a Ferrari, isso acontece em um momento conturbado politicamente, em meio a ameaças de saída da F1 por desavenças com o rumo técnico da categoria, a queda de braço nos bastidores por assuntos financeiros com o Liberty Media e a própria FIA questionando o direito a veto ostentado pelo time de Maranello há décadas. A chegada de Mekies à Ferrari é mais um episódio que pode repercutir no noticiário e ter desdobramento nos bastidores, por isso vale ficar de olho.

 

Quem chega forte para a temporada da F1 em 2018? | Debate Motor #108

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.