Conheça as exigências que uma pista precisa cumprir para sediar um GP de F1

9

A oitava etapa da temporada de 2016 viu a estreia de mais um novo circuito na F1: Baku, no Azerbaijão. O traçado urbano, de 20 curvas e 6 km de extensão, não debutou na categoria com uma prova das mais atrativas, o que fez com que surgissem diversos tipos de críticas por parte do público.

Talvez ainda seja cedo para traçar conclusões definitivas a respeito da pista. Por ter sido somente a primeira prova no local e se tratar de um circuito desconhecido, equipes, pilotos e até mesmo a fornecedora de pneus Pirelli tiveram uma abordagem conservadora. Então, quem sabe, a corrida de 2017 poderá ter outra cara. Mesmo assim, a recepção negativa às novas pistas da F1 é algo frequente, já que muitos consideram que os novos traçados não apresentam os mesmos desafios de antigamente.

ENTREVISTAS, MATÉRIAS E DEBATES: siga nosso canal no YouTube

O Projeto Motor já esmiuçou o assunto com detalhes em uma edição passada do Debate Motor. Os traçados da F1 atual, especialmente os lançados mais recentemente, possuem pouca originalidade e identidade própria. Mas, independentemente disso, é importante destacar que cada pista que pretende ingressar no Mundial deve seguir inúmeras normas para obter as devidas licenças.

A FIA distribui no total sete tipos de licenças para as pistas de todo o mundo que pretendem receber competições internacionais, sendo que cada tipo representa o porte de categoria que o traçado suporta:

Licença de Grau 1: corridas de F1;
Licença de Grau 1T: testes de F1;
Licença de Grau 2: GP2, Indy, WEC, Super Fórmula, Fórmula V8 3.5, Fórmula E;
Licença de Grau 3: GT, DTM, V8 SuperCars, Nascar;
Licença de Grau 4: F3, F4 e monopostos/carros de turismo de até 2000cc;
Licença de Grau 5: carros de energia alternativa;
Licença de Grau 6: competições de rali

Algarve já recebeu testes da F1, mas não poderia receber um GP
Algarve já recebeu testes da F1, mas não poderia receber um GP

Como pode-se imaginar, a licença de Grau 1 é bastante restrita, e são poucos os traçados do mundo que a possuem. Além das pistas que recebem/receberam a F1 na última década, há outros sete circuitos que foram agraciados com tal classificação: Buriram (Tailândia), Dubai (Emirados Árabes), Estoril (Portugal), Losail (Qatar), Moscou (Rússia), Mugello (Itália) e Paul Ricard (França).

Já pistas como Adria (Itália), Algarve (Portugal), Aragão (Espanha), Barber (EUA), Jerez (Espanha), Monteblanco (Espanha), Navarra (Espanha), Nogaro (França), Valência (Espanha) e Vallelunga (Itália) são 1T, limitando-se somente a potenciais testes da principal categoria automobilística.

Portanto, aqueles que querem ver na F1 pistas como Brands Hatch, Zandvoort, Laguna Seca ou Kyalami, saibam que não será tão simples.

Como é a obtenção da licença?

Trata-se de um processo bastante burocrático e minucioso. Primeiramente, o circuito aplicante deve enviar um extenso dossiê à entidade local (no caso do Brasil, a CBA), para que o projeto seja pré-aprovado e encaminhado à FIA. O dossiê deve incluir: planta detalhada do circuito, com informações sobre barreiras de proteção, alambrados, vias de acesso, instalações como boxes e sala de controle, além de outra planta específica com o desenho da área do paddock e do centro médico.

Comissão da FIA realiza inspeções para liberação das pistas
Comissão da FIA realiza inspeções para liberação das pistas

Em seguida, a Comissão de Circuitos da FIA realiza a inspeção preliminar in loco, onde já faz observações a respeito das instalações. Uma nova visita é realizada antes da liberação final da licença, que é dada, via de regra, somente quando as obras da pista já estão totalmente concluídas. A licença dada é válida por determinado período, que, quando expirado, precisa de renovação.

Vale destacar que a licença é válida somente ao traçado, e não ao autódromo como um todo. Por exemplo, a pista de Abu Dhabi de 5,554 km que recebe a F1 possui licença Grau 1, mas as demais variações do traçado possuem Grau 2. Além disso, modificações de maior impacto nas instalações podem exigir uma nova inspeção por parte da FIA.

E quais são as exigências da FIA?

Naturalmente, as exigências para receber provas ou testes de F1 são altíssimas. A FIA fornece uma série de recomendações técnicas que as pistas devem seguir, embora não sejam necessariamente regras – há exceções como Mônaco, que recebeu a graduação máxima da FIA mesmo sem obedecer vários requisitos.

Fique ligado no Projeto Motor e siga nosso Twitter

Como não são todas as pistas que possuem as regalias pelo peso histórico de Monte Carlo, a FIA aconselha que os novos traçados sigam as seguintes normas para a obtenção da licença de Grau 1:

– A extensão da pista não deve ser menor que 3,5 km e maior que 7 km;

Cenas como essa não são mais possíveis na F1
Cenas como essa não são mais possíveis na F1

– As retas não devem ser maiores que 2 km;

– A largura média da pista deve ser de 12 m; caso a largura aumente ou diminua ao longo da pista, deve ser algo gradativo, reduzindo no máximo 1 m de largura a cada 20 m de comprimento;

– A reta de largada deve ter pelo menos 15 m de largura, e essa largura deve ser mantida até a primeira curva; a distância entre o grid de largada e a primeira curva deve ser de, no mínimo, 250 m;

– A mudança de elevação da pista deve ser condizente ao que suporta um carro de F1 (lembra daquelas “rampas” das pistas antigas, quando o carro decolava? Esquece); de preferência, deve-se evitar mudanças de altura em trechos de freadas em alta velocidade. Na linha de chegada, a diferença de altura entre o ponto mais alto e mais baixo não deve passar de 20%.

Segurança também é prioridade

É claro que não para por aí. A FIA, obcecada pela segurança dos autódromos, também pede alto dos circuitos neste quesito. As medidas dependem de diferentes aspectos, como topografia, velocidade esperada para a pista, linha adotada pelos carros no traçado e possíveis construções que existem nos arredores.

Hulkenberg
FIA é exigente quanto às barreiras de proteção

Quando se trata de uma curva de mais velocidade e potencialmente um ponto mais perigoso, é preciso combinar a construção das barreiras de proteção com a própria área de escape, que às vezes precisa ter material antiderrapante mais abrasivo para segurar a velocidade dos carros. Sua duração precisa ter de 30 a 100 metros, dependendo da velocidade que se espera para o setor.

Por fim, o circuito que pretende ingressar na F1 também deve apresentar instalações condizentes com que se espera de uma prova do Mundial, que recebe milhares de jornalistas e demais funcionários de todo o planeta. O autódromo precisa ter fácil acesso e suportar o grande fluxo de pessoas durante o fim de semana de prova, além contar paddock, centro médico, sala de imprensa, centro de direção de prova e boxes de primeira linha.

São muitos os pré-requisitos que, seguidos à risca, podem até interferir na dinâmica das competições e comprometer o tão comentado “espírito” das pistas. Mas isso é tema para um outro artigo. O fato é que a FIA cada vez aumenta mais seu rigor para os autódromos, de modo que a obtenção da licença máxima é quase tão custosa quanto a conquista de um título mundial para um piloto.

Debate Motor #33 analisa: os carros de F1 ficaram complexos demais?

 Comunicar Erro

Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Gustavo Segamarchi

    Gosto muito quando vocês saem das matérias históricas e embarcam nas matérias mais técnicas.

    Putz, que show essa matéria explicando as exigências da FIA para um circuito.

    Que pena que NUNCA MAIS veremos os carros de F1 darem aquele pequeno salto, como está na foto acima.

    Eu não sabia que a ausência desses pequenos saltos saíram da F1 por regra, eu pensava ser uma coisa que tinham deixado de lado.

    Parabéns por essa matéria, Projeto Motor.

  • Elizandro Rarvor

    FÓRMULA E precisa de grau 2????

    Aquele negócio toma cacete de F3, onde há perigo naquilo?

    Só se eles estão vislumbrando carros da F.E que irão atingir o patamar de desempenho de uma GP2 ou Indy.

  • Andre Luis Coli

    Então Estoril e Paul Ricard estão habilitadas a receber GPs? Bem que poderiam retornar a etapa de Portugal, na França é mais difícil já que o governo francês cortou o subsídio.

    • MPeters

      Mas Paul Ricard é do Bernie.

      • Andre Luis Coli

        Não sabia disso, mas o Bernie não gosta de meter a mão no Bolso, então não deve rolar corrida de F1 lá tão cedo.

  • Guilherme Gomes Zucco

    “há exceções como Mônaco, que recebeu a graduação máxima da FIA mesmo sem obedecer vários requisitos.”

    Monza tem tanto peso histórico, e quase dançou … se n cumprir o regulamento é só cagar dinheiro que eles liberam, simples.

    • Gabriel Pena Catabriga

      Fato, falou e disse, e o tio Bernie fica naquele terrorismo, só para ganhar mais dinheiro dos proprietários dos circuitos. Todo ano é a mesma ameaça com Interlagos e Monza. Com Nurburgring e Hockeinhein foi a mesma coisa.

  • Marcos Vinícius

    O Problema da F1 é esse excesso de regras, daqui alguns anos essa categoria Poderá ser chamada de F- Arábia, F- Oriente Médio, pq só os magnatas do petróleo conseguiram cumprir essa quantidade absurda de exigências da F1 e FIA.

    • castilho17

      acho que esse tipo de exigencia nem é o que fará o campeonato virar F-Arabia…

      o que vai causar isso se chama Bernie Ecclestone, ele que cobra cada vez mais para inscrever os GPs no campeonato e os petrodolares são extremamente interessantes para o bolso do velhinho.. enquanto as questões comerciais da F1 forem a prioridade em relação as questões esportivas, o rumo vai ser esse..

      Não estou dizendo que a F1 deve ser um esporte puro e nada de comercial, isso seria insustentavel, a questão toda é que deve se buscar um equilibro que favoreça a competição esportiva agora e valorize a historia da F1..