Contestado, Ralf Schumacher foi muito mais que o caçula de Michael

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Na última terça-feira, 30 de junho, Ralf Schumacher soprou velinhas e entrou para o time dos “quarentões”. O alemão está afastado do noticiário desde 2012, quando se aposentou do automobilismo após passagem para lá de apagada pelo DTM. Se o 40º aniversário foi motivo para trazer seu nome de volta à tona, também vem à cabeça a seguinte pergunta: afinal, qual foi o legado deixado por Ralf Schumacher na F1?

O hoje ex-piloto teve a dura missão de seguir a mesma carreira de seu genial irmão mais velho, o maior recordista da história da F1. Isso porque, naturalmente, as comparações são inevitáveis, o que cria desde já um parâmetro ingrato. Ralf é uma figura bastante questionada pelos fãs de automobilismo, que colocam em dúvida não só seus feitos dentro da pista, mas também sua personalidade nada simpática e de poucos amigos.

Ralf viveu por muito tempo à sombra de Michael (Divulgação)
Ralf viveu por muito tempo à sombra de Michael (Divulgação)

Em 1997, o alemão entrou na F1 de maneira bastante promissora, carregando em seu currículo uma vitória no prestigioso GP de Macau de F3 e o título da F-Nippon. A porta de entrada era a equipe Jordan, que havia revelado poucos anos antes o próprio Michael Schumacher e que contava com um pacote sólido com o motor Peugeot.

Logo de cara, Ralf mostrava comportamento que se tornaria tendência em praticamente toda sua carreira na F1. Ele alternava desempenhos de saltar os olhos, como na Bélgica, em 1998, quando poderia ter vencido, com alguns erros infantis, a exemplo da batida com seu companheiro de equipe, Giancarlo Fisichella, em sua terceira corrida na categoria.

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Mesmo assim, o “pequeno Schumi” conseguiu dar um passo à frente em sua carreira ao assinar, para a temporada de 1999, com a tradicional equipe Williams. O time inglês buscava um acordo com a BMW, e nada mais apropriado do que a contratação de um piloto alemão. Isso frustrou gente como Rubens Barrichello, que ficou sem entender após perder a tão almejada vaga e soltou uma das frases mais clássicas de seu repertório.

“Não sei por que a Williams escolheu o Ralf. Nem mais bonito que eu ele é”, disse o brasileiro

Na esquadra de Frank Williams, Ralf teve à disposição o melhor equipamento de sua carreira, especialmente a partir do momento em que a parceria com a BMW começava a gerar frutos. Em um dia inspirado, o piloto era capaz de fazer frente ao seu irmão mais velho, que dominava a categoria com a Ferrari, além de ofuscar completamente seu companheiro de equipe, o badalado Juan Pablo Montoya. O que faltava a Ralf era consistência, algo que, aliás, foi o grande calcanhar de Aquiles de sua carreira.

Ralf mostrou velocidade na Jordan, mas pecou pela inconsistência
Ralf mostrou velocidade na Jordan, mas pecou pela inconsistência

Se Ralf, apesar de suas qualidades, possuía limitações que o impediam de lutar por um título, ele também teve um outro problema que claramente afetou sua competitividade. O alemão sofreu três acidentes de grandes proporções que interromperam a melhor fase de sua carreira e acabaram por encurtar seu auge.

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Em 2003, durante um teste em Monza, Schumacher bateu a 240 km/h após falha na suspensão de seu carro, capotou várias vezes e teve de ser hospitalizado. Menos de um ano depois, devido a um pneu furado, “beijou” o muro de Indianápolis, fraturou duas vértebras e sofreu uma concussão, o que o deixou de molho por seis etapas. Por fim, em 2005, também no mítico autódromo americano, voltou a bater no trecho em oval e teve de ser afastado da prova que entraria para a história como o maior vexame da F1.

Acidente em Indy foi um divisor de águas em sua carreira
Acidente em Indy foi um divisor de águas em sua carreira

A esta altura, Ralf já havia rompido com a Williams e se mandado para a Toyota, em mudança que acabou se mostrando mais errada para o time japonês do que para o piloto. Mesmo assim, o destino do Schumacher mais jovem já estava selado, pois se tratava de um piloto caro, porém longe de sua melhor forma. Não surpreendentemente, a parceria com a Toyota gerou poucos frutos e acabou sendo desfeita depois de três anos discretos, ao fim de 2007.

Ele ainda tentou, de forma desesperada, prosseguir na F1 em 2008, mas uma atuação deprimente em um teste com a Force India em Jerez de la Frontera colocou uma pá de cal em suas chances.

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Assim, o piloto concluiu sua passagem pela F1 após 11 temporadas, 180 corridas e seis vitórias. Apesar de o título não ter vindo (ou nem ter chegado perto disso), Ralf soube tirar proveito de maneira digna das oportunidades que teve, além de dificultar a vida de parceiros de equipe que possuem reputação muito maior que a sua – Alessandro Zanardi, Jenson Button, Juan Pablo Montoya e Jarno Trulli que o digam.

Ralf Schumacher deixou poucas saudades na memória dos fãs, até mesmo em relação a pilotos que tiveram muito menos sucesso que ele na F1. Mas o alemão, ainda assim, teve sua marca própria na categoria, fugindo da sombra de seu irmão mais velho e se destacando por seus próprios feitos. Sejam eles bons ou ruins.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.