Conversamos com Nicolas Todt, o braço direito de Felipe Massa na F1

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Durante praticamente toda sua carreira na F1, Felipe Massa contou com o apoio de um fiel aliado: seu empresário Nicolas Todt. Juntos, os dois passaram por momentos de todos os tipos, que vão desde um quase improvável título mundial, um acidente grave e maus bocados com uma performance irregular na pista.

Por isso, no papel de braço direito de Massa, o francês é capaz de dar uma perspectiva única sobre o turbilhão de emoções que envolvem o piloto na reta final de 2016. O brasileiro se despede da F1 em Abu Dhabi, sem antes receber as devidas homenagens da categoria e dos fãs de todas as partes do mundo.

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Durante as atividades do GP do Brasil, o Projeto Motor conversou com Todt e ouviu as impressões de quem viveu de perto todas as fases da carreira de Massa. O empresário celebrou e se orgulhou da ascensão de seu cliente e amigo durante suas 11 vitórias e um vice-campeonato mundial. Sentiu o “baque” durante os momentos de dificuldade, mas precisou deixar o sentimento de lado e adotar uma visão pragmática a fim de encontrar as melhores soluções para a carreira do brasileiro.

Gentil e atencioso, o francês de 39 anos deixou claro logo no início de nossa conversa sua admiração pela trajetória de Massa na F1. “Ele é um grande nome, um dos ícones de sua geração. Será uma perda para o esporte, mas é a vida. A vida é feita de ciclos, e seu ciclo está chegando ao fim. De certa forma, me sinto triste. É o fim de um capítulo, mas a vida segue. Continuarei a trabalhar com Felipe e estou muito feliz e orgulhoso de ter trabalhado com ele e, mais que tudo, de ter mantido uma relação de família com ele. Ele é uma grande pessoa, um grande ser humano”, elogiou.

O começo da parceria

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Os caminhos de Massa e Todt se cruzaram no começo da passagem do brasileiro pela F1. O jovem piloto já tinha contrato de longa duração com a Ferrari, graças às investidas de Jean Todt, pai de Nicolas e então diretor esportivo em Maranello. No entanto, o ano de 2003 representou uma espécie de “reciclagem” para o brasileiro, já que, depois de um ano turbulento na Sauber, assumiu a função de reserva da Ferrari a fim de refinar sua pilotagem.

Insatisfeito com seu antigo empresário, Massa fechou acordo para passar a ter sua carreira gerenciada pelo iniciante francês. A sintonia foi imediata. “Sim, nós nos conhecemos em 2003. Estamos trabalhando juntos há 13 anos. Passamos por ótimos momentos e outros momentos um pouco mais difíceis, mas sempre estivemos fortemente conectados.”

Massa voltou ao grid da F1 em 2004, novamente pela Sauber. No ano seguinte, com o anúncio da saída de Rubens Barrichello da Ferrari, abriu-se uma oportunidade única para assumir o cockpit ao lado de Michael Schumacher.

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Protegido pela Scuderia de Maranello, Massa foi efetivado à vaga quase que de maneira imediata. Muitos consideraram que se tratou de uma situação arriscada, já que a Ferrari tinha Schumacher, cobiçava abertamente Kimi Raikkonen e, por isso, assinou com o brasileiro por apenas um ano. Além disso, a Sauber (que viraria equipe oficial da BMW em 2006) colocou na mesa de Massa uma proposta de renovação por três temporadas.

Arriscado ou não, Todt não tem dúvidas de que foi o passo lógico a se tomar. “Não tivemos muito o que pensar, porque a Ferrari tinha a opção contratual por trazê-lo. Mas, analisando agora, foi a decisão correta. Quando temos uma oportunidade na Ferrari, é difícil dizer não, mesmo que seja por um ano. Naquela época, era o melhor carro do mundo, ou pelo menos estava entre os dois melhores carros. Mesmo se a Ferrari não renovasse com ele, era uma possibilidade de mostrar suas habilidades no topo do esporte. E ele fez isso muito bem. Foi uma ótima temporada: ele cometeu alguns erros, mas fez pole positions e venceu corridas ao lado de um piloto fantástico como Schumacher. Se não tivéssemos assinado, aí sim haveria arrependimento”, refletiu.

Do estrelato à queda

Felipe Massa recebe a bandeirada ao final do GP do Brasil ainda sem saber se era ou não o campeão de 2008
Felipe Massa recebe a bandeirada ao final do GP do Brasil ainda sem saber se era ou não o campeão de 2008

A parceria com a Ferrari rendeu frutos em seus primeiros anos. Schumacher saiu de cena e viu Massa ganhar espaço no time contra Raikkonen, a ponto de ofuscar o finlandês (contratado a peso de ouro) e lutar ponto a ponto pelo título de 2008 contra Lewis Hamilton. O desfecho daquele campeonato entrou para a história da F1. Massa, em casa, celebrou com lágrimas nos olhos sua vitória mais amarga.

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A ascensão do brasileiro sofreu outro golpe duro em 2009, com o fatídico acidente da “molada” no treino classificatório do GP da Hungria. Este, ao lado da perda do título, foi o momento mais difícil que Todt viveu ao lado do piloto.

“A forma com a qual ele agiu quando perdeu o campeonato em 2008, aqui no Brasil… É difícil ver outro piloto ter um comportamento daquele. Mas perder o campeonato do jeito que foi representou um dos momentos mais duros. Seu acidente foi outro, porque, nos primeiros dias, não sabíamos se ele iria voltar, muito menos como ele estaria se voltasse”, lembrou.

Situação começou a ficar complicada para Massa em 2010
Situação começou a ficar complicada para Massa em 2010

Apesar de todas as preocupações com seu estado de saúde, Massa se recuperou de suas lesões de forma notável. Porém, seu desempenho na pista nunca mais foi o mesmo, o que pode ter explicações técnicas e psicológicas.

Ofuscado por Fernando Alonso, Massa chegou ao fundo do poço. O brasileiro não lembrava em nada o piloto combativo que chegou perto de conquistar o título anos anteriores. Isso o fez receber uma enxurrada de críticas que afetaram ainda mais seu rendimento na pista.

“Com certeza ele perdeu muita confiança. Ser um atleta de ponta não diz respeito a apenas ser muito bom no que faz, mas também a ter confiança, em pensar que é a pessoa que faz a diferença. É sentir que você tem a equipe te apoiando. A equipe sempre o apoiou, mesmo que houvesse claramente vantagens, apoio e confiança maiores ao seu companheiro de equipe. Então, com certeza, isso é difícil de administrar”, comenta o empresário.

O ressurgimento e o fim do ciclo

Massa pódio

Anos mais tarde, Massa revelou que pensou em se aposentar com sua saída da Ferrari. Todt, então, precisou deixar o abatimento de lado e pensar em soluções para reerguer a carreira do brasileiro, que, com apenas 32 anos de idade, ainda tinha muita “lenha para queimar”. Foi quando uma nova oportunidade surgiu.

“Os últimos anos na Ferrari foram decepcionantes, mas precisamos seguir em frente e aceitar a situação. Precisamos lutar duro. As coisas aconteceram na hora certa, especialmente devido à oportunidade de se juntar à Williams. E eles tinham um bom carro. Quando ele assinou com a Williams, eles estavam muito para trás. E, do nada, eles foram ao top 3. Felipe marcou pódios, uma pole position”, lembra Todt

Mas, como o próprio Todt mencionou no início de nosso papo, todo ciclo chega ao fim. Novamente com performances apagadas e com um mercado de pilotos cada vez mais afunilado, Massa tomou uma decisão racional: deixou seu desejo por competir de lado para sair da F1 em alta.

É justamente neste clima que Massa deixa a F1. Em Interlagos, o brasileiro protagonizou uma das cenas mais emocionantes da categoria em décadas, quando foi aplaudido por equipes rivais após seu abandono da corrida. Para Todt, isso é reflexo daquelas que considera as principais qualidades do piloto.

“O que se destaca nele é aquilo que as pessoas podem ver de fora. Ele tem enormes qualidades como ser humano – humilde, generoso, trabalhador, tem um coração enorme, inteligente, confiável… Ele tem muitas qualidades”, numerou.

Mas trata-se de apenas o término de um capítulo, e não o fim do livro como um todo. Massa continuará nas pistas, embora os planos ainda não estejam claros.

“Felipe parece motivado para continuar correndo, ele é um cara apaixonado, ainda muito jovem. Definitivamente estamos trabalhando em opções diferentes para o futuro, mas é muito provável que ele volte a correr em breve. E ele vai correr enquanto se sentir motivado e gostar do que faz. Isso pode durar por dois anos, cinco anos, tudo depende se ele gostará de sua nova categoria. Se ele gostar e se sentir tão rápido quanto antes… Se ele perder isso, é melhor fazer outra coisa.”

Será uma nova fase na carreira de Massa, na qual poderá voltar às origens e guiar pelo puro prazer de guiar, sem as pressões excessivas que se vê na F1. Gente para apoiar – seja nos bons ou nos maus momentos – certamente não vai faltar.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.