Coragem ou insanidade? Transferências chocantes que a F1 já viu – Parte 2

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Como mostramos na primeira parte deste artigo, alguns campeões tiveram dificuldades quando deixaram posições mais confortáveis para aceitar desafios em equipes com piores condições.

Emerson Fittipaldi abriu mão da posição de piloto de ponta ao mergulhar na aventura familiar da Copersucar, e, depois disso, conquistou apenas dois pódios em cinco anos. Já Niki Lauda, grande destaque da Ferrari, ficou em segundo plano ao ir para a Brabham em 1978.

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Eles não foram os únicos campeões que aceitaram o desafio. Portanto, nesta segunda parte, traremos mais três casos, e com um consolo: nem toda aventura em projetos incipientes terminam em fracasso. Dois campeões, inclusive, souberam apostar de forma certeira e colheram grandes frutos com a escolha.

VILLENEUVE DEIXA A WILLIAMS E VAI PARA A BAR (1999)

Jacques Villeneuve teve uma das carreiras mais meteóricas da F1 na década de 90. O canadense estreou na categoria já anotando a pole position, no GP da Austrália de 1996, e registrou quatro vitórias em sua campanha de estreia. No ano seguinte, levou a melhor em uma batalha histórica contra Schumacher para levar o título.

A partir de 1998, porém, as coisas começaram a desandar. A Renault havia deixado a F1 e, consequentemente, desfeito a parceria oficial com a Williams. Já a McLaren acertou a mão no projeto e roubou do time de Frank Williams o posto de protagonista do grid.

Desiludido, Jacques tomou uma decisão ousada ao trocar uma equipe campeã mundial por uma iniciante. Em julho de 1998, o piloto anunciou que se transferiria à BAR, liderada por seu empresário de longa data, Craig Pollock, e que assumiria as operações da moribunda Tyrrell.

Villeneuve não marcou pontos em 99
Villeneuve não marcou pontos em 99

O projeto até parecia bem estruturado: havia a grana da British American Tobacco, com as marcas Lucky Strike e 555, além da contribuição de gente experiente como Adrian Reynard. Um acordo de fornecimento com a Honda também estava no horizonte, mas só a partir da temporada de 2000.

Mas, como era possível imaginar, tratava-se de um projeto de longo prazo, já que a BAR assumiu uma Tyrrell em frangalhos. Villeneuve até teve alguns desempenhos de destaque em 99, como as boas posições no grid em Ímola (5º) e Barcelona (6º), mas, em meio a várias falhas mecânicas, terminou o ano zerado – assim como seu companheiro de equipe, Ricardo Zonta.

As coisas progrediram gradativamente nas temporadas seguintes, com os primeiros pontos em 2000 e pódios em 2001. Entretanto, o projeto não progrediu como Villeneuve esperava, e um grande golpe para suas intenções veio com a saída de Pollock da chefia e a chegada de David Richards.

Villeneuve perdeu sua influência de dentro e, para piorar, passou a ser ofuscado dentro da pista por um jovem Jenson Button em 2003. A situação chegou ao ponto do campeão mundial deixar o time antes mesmo da temporada terminar, o que foi um fim melancólico a um projeto corajoso.

No caso de Villeneuve, a ousadia foi não só em aceitar o desafio da BAR, mas seguir insistindo nele. Anos mais tarde, o próprio revelou que recebeu ofertas da McLaren antes da temporada de 99 e da Renault logo no início de sua jornada de retorno como equipe de fábrica. Tudo foi recusado. Coisas da F1…

SCHUMACHER DEIXA A BENETTON E VAI PARA A FERRARI (1996)

OK, convenhamos que a ida de qualquer piloto a uma equipe do porte da Ferrari dificilmente será tida como uma grande loucura – especialmente vindo da Benetton, que teve um reinado curto na F1. Mas, ainda assim, a escolha de Michael Schumacher teve seu grau de ousadia pelo contexto da época.

A Benetton era uma equipe que vinha em ascensão, e, apesar da concorrência forte da Williams, conseguiu dar um salto de qualidade ao conquistar o título de construtores de 95, quando passou a usar os poderosos motores Renault.

Schumacher

Já a Ferrari vivia uma crise que parecia difícil de ser solucionada: o time não conquistava um título de pilotos desde 79, sendo que vários nomes, desde o consagrado Alain Prost ao promissor Jean Alesi, passaram por Maranello sem conseguir cumprir a missão.

Àquela altura, pouco depois da morte de Ayrton Senna, Schumacher parecia ser o único piloto realmente capaz de juntar todos os ingredientes para um piloto completo e altamente competitivo. Por isso, o próprio dizia que não lhe faltavam opções, e incluía também McLaren e Williams em suas possibilidades.

Mas o destino tinha cor vermelha. Naquela época, a Ferrari passava por um processo de reestruturação interna, liderado por Jean Todt e que posteriormente contaria com gente do calibre de Ross Brawn e Rory Byrne. Schumacher foi peça importantíssima nessa engrenagem, o que rendeu três importantes vitórias logo na temporada de estreia.

A situação progrediu, passou por seus tropeços, mas acabou por render a Schumacher um império sem precedentes na F1, que até hoje fica marcada como uma das maiores parcerias entre piloto e equipe da história da categoria.

HAMILTON DEIXA A MCLAREN E VAI PARA A MERCEDES (2013)

Analisando com os olhos de hoje, parece estranho acreditar que trocar a McLaren pela Mercedes foi considerada uma decisão ousada. Mas foi, e muito.

Lewis Hamilton teve toda sua carreira na base e seu início na F1 conduzidos pela McLaren, time com o qual havia assinado longo contrato ainda em sua infância. A bordo das máquinas prateadas de Woking, impressionou como novato em 2007, conquistou um título em 2008 e se manteve como protagonista nas temporadas seguintes.

Hamilton

Em 2012, mais uma vez parecia que Hamilton teria uma temporada forte. Entretanto, em uma temporada de dinâmica bastante incomum, a McLaren não conseguiu despontar graças a uma série de erros e problemas mecânicos.

Hamilton parecia de saco cheio com tudo – lembra da vez em que ele publicou a telemetria de seu carro após uma pole de Jenson Button em Spa? Já eram alguns indícios de que o piloto que mal tinha autoridade para tomar suas próprias decisões profissionais queria caminhar com as próprias pernas.

Nisso, surgiu a Mercedes. Sob a tutela de Ross Brawn, a equipe tentava se estabelecer como equipe própria e havia oscilado absurdamente durante a temporada de 2012 – chegou a marcar poles, ganhar corrida, mas, em outras ocasiões, sequer sobrevivia ao Q2.

A questão é que a Mercedes já pensava lá na frente. O time se preparava para a transição já anunciada aos motores V6 turbo híbridos e queria, de todo jeito, reforçar ainda mais seu corpo técnico.

Hamilton, então juntou a fome com a vontade de comer. Disposto a deixar a McLaren e iniciar um novo projeto, a Mercedes apareceu em boa hora e se mostrou a casa adequada para seu próximo passo. Na época, muita gente ficou sem entender a decisão, enquanto que o próprio Hamilton se mostrava convicto do passo que havia dado. Sabemos quem teve razão no fim dessa história.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.