Coulthard: o piloto que vencia quando ninguém esperava

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Vice-campeão mundial em 2001, David Coulthard nunca foi um modelo de regularidade. Quando sob pressão, o escocês, que correu na F1 entre 1994 e 2008, parecia travar, limitando-se a atuações burocráticas e sem inspiração. Este é um problema, aliás, que também muitas vezes foi atribuído a contemporâneos seus como Ralf Schumacher, Rubens Barrichello e Heinz-Harald Frentzen.

No caso de Coulthard, de qualquer forma, a situação era mais flagrante – e curiosa. Porque tão grande quanto sua capacidade de esmorecer o público era também a de surpreendê-lo. Sabe-se lá por qual justificativa – e, por achismo, talvez pela falta de pressão nessas situações –, o britânico de Twynholm se caracterizou por ser um piloto de brilharecos em GPs sem importância.

Corrida de abertura, corrida com título quase que já definido… Geralmente lá estava Coulthard dando um show de pilotagem, marcando pole e hat trick.

Coulthard com o troféu do GP de Portugal (Divulgação)
Coulthard com o troféu do GP de Portugal (Divulgação)

Claro: houve momentos, sim, em que o escocês ensaiou uma campanha pelo título e o caso mais evidente é o do campeonato de 2001, quando na primeira parte da temporada ele duelou com Michael Schumacher pela tábua de pontuação. Mas em geral Coulthard era esse homem dos momentos aleatórios, um piloto que se destacava por sambar nas portas do acaso.

E foi assim que veio, exatamente 20 anos atrás, no GP de Portugal, sua primeira vitória na F1. Correndo pela Williams, muito se esperava do jovem escocês em sua primeira temporada completa no esporte. Mas, já nos fins de 1995, a impressão era que as expectativas colocadas sob David tinham sido exageradas.

Ao longo do campeonato, Coulthard se transformara de jovem promessa a escudeiro de Damon Hill. Para se ter uma ideia do domínio de Hill, após 12 de 17 provas, o escore no campeonato era de 51 pontos contra 29 do novato – quase o dobro de tentos do escocês.

O futuro vice-campeão de 2001 ainda conseguia manter um equilíbrio na qualificação, tendo largado três vezes consecutivas à frente do rival no primeiro terço do ano, mas com o passar do tempo, problemas mecânicos no FW17 e um erro de pilotagem em Mônaco o fizeram perder território para Hill.

No dia 24 de setembro de 1995, porém, os papéis se inverteram no Estoril. Já na classificação, como na etapa anterior, em Monza, Coulthard superou o companheiro na tabela de tempos. Hill foi um décimo mais rápido na sexta-feira, mas no dia seguinte o escocês anotou 1min20s537 contra 1min20s905 do colega, garantindo a pole. A bordo de uma Benetton B195 com problemas na suspensão, Schumacher cravou o terceiro tempo, seguido de Gerhard Berger, da Ferrari, e Frentzen, com a Sauber.

O domingo começou atribulado. Logo no início do percurso, um acidente violento entre Ukyo Katayama, da Tyrrell, e Luca Badoer, da Minardi, impediu a primeira largada (veja no vídeo abaixo).

Na nova partida, quase 30 minutos depois, Coulthard tomou a ponta, enquanto Hill e Schumi, roda a roda, saíram na disputa pela vice-liderança. O alemão, no desespero para desfazer o prejuízo na classificação, foi o vitorioso.

A ordem no pelotão da frente seguiu a mesma até a primeira janela de paradas. Mas veio então o incidente fundamental da prova: Schumacher gastou 7s4 para realizar sua parada, enquanto Hill perdeu 16s1 no pitlane. Isso obrigou que o inglês mudasse seu padrão de três para dois pitstops na tentativa de recuperar o terreno em relação a Benetton.

Coulthard com Schumacher e Hill no pódio no Estoril (Divulgação)
Coulthard com Schumacher e Hill no pódio no Estoril (Divulgação)

Havia um risco: Damon podia ficar à frente de Michael após a terceira parada do alemão, mas ao mesmo tempo teria que resistir ao ataque da Benetton com os pneus mais gastos. Quanto mais ele conseguisse segurar o rival, mais fácil seria a tarefa porque aos poucos os pneus do B195 começariam a deteriorar.

A alternativa funcionou perfeitamente. Hill surgiu à frente de Schumi após a parada final e Coulthard, já bem à frente dos dois, provavelmente teria que dar passagem ao britânico se a Williams pedisse.

Mas àquela altura o Benetton já rendia mais que o FW17. E na volta 62, na variante, uma curva bastante fechada, Schumacher passou a Williams. Os dois quase se tocaram, mas o inglês deu espaço para o rival e indiretamente garantiu a primeira vitória de Coulthard na F1. Hill teria que se contentar com o terceiro posto.

Coulthard terminou a temporada de 1995 em terceiro no Mundial de Pilotos, 20 pontos atrás de Hill. Ele ainda obteve dois pódios em Nurburgring e Aida antes de anunciar sua transferência para a McLaren, no ano seguinte.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.