Crescimento do RallyCross revigora o lado mais insano do automobilismo

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Para quem gosta de ver carros correndo próximos, andando de lado, batendo porta e até se empurrando na pista, precisa abrir o olho para o crescimento do RallyCross.

A modalidade já existe há muitos anos, pelo menos desde o final dos anos 60, mas nunca esteve tão forte e tão atraente como hoje. E não seria nenhum pecado afirmar que provavelmente, dentro do automobilismo, seja a categoria com a maior garantia de espetáculo para o público.

Isso acontece muito pela sua própria origem. O RallyCross nasceu da cabeça de um produtor de TV como um quadro do programa Mundo do Esporte na emissora inglesa ITV. Ou seja, é uma competição que começou com o foco 100% no entretenimento do público.

O grande barato dos últimos anos é a evolução do nível das máquinas e pilotos e o maior envolvimento de montadoras e patrocinadoras importantes, que estão colocando o esporte em um novo status.

A primeira prova da história aconteceu em 4 de fevereiro de 1967, no Circuito de Lydden, com concorrentes convidados pela ITV. A vitória ficou com Vic Elford, piloto com passagem pela F1 e com algum destaque no rali, onde foi campeão europeu e chegou a vencer uma edição da tradicional prova de Monte Carlo, em 68, além de ter conduzido a Porsche ao seu primeiro triunfo geral nas 24 Horas de Daytona, do mesmo ano.

RallyCross Lydden 1967
Prova de RallyCross em Lydden, Inglaterra, no final dos anos 60

O estilo de corrida chamou a atenção dos telespectadores, o que incentivou a ITV a promover um campeonato televisionado dentro de seu programa, com seis etapas. Não demorou para a modalidade se espalhar pelo restante da Europa e ganhar seus fãs, principalmente na Holanda, também impulsionada por canais de televisão. A categoria seguiu fortalecendo seu público durante as décadas, lentamente, até um grande bum nos anos 2000, quando a coisa começou a ficar séria de verdade.

Em 2009, o formato chegou aos Estados Unidos, com um foco no público mais jovem. No ano seguinte, fez parte dos X Games, famosa competição conhecida como uma espécie de “Olimpíada dos Esportes Radicais”. Com a popularidade cada vez maior, nasceu em 2011 o Global RallyCross, hoje um dos campeonatos mais importantes do mundo, e que além dos X Games, realiza etapas em parceria com a Nascar e a Indy. Em 2013, ele chegou a ter uma prova em Foz do Iguaçu, dentro dos X Games realizados na cidade.

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Com todo este crescimento, a FIA percebeu que não poderia ficar de fora. Ela já sancionava desde 75 o Campeonato Europeu, conhecido como Euro RX. Ela investiu em uma parceria ainda mais forte com os organizadores e aos poucos foi amadurecendo a ideia de um Mundial. O projeto saiu do papel em 2014 e teve como primeiro campeão Petter Solberg, norueguês que tem no currículo o título de 2003 do WRC.

Loeb, Ekstrom e Bakkerud se degladiam em Lydden
Loeb, Ekstrom e Bakkerud se degladiam em Lydden

Desde então, a competição só cresceu. E se você gastar um pouco do seu tempo para prestar atenção nela, é quase impossível não se interessar. É como se fosse uma prova de rali de velocidade, com toda sua beleza do estilo de pilotagem e imagens plásticas dos carros, só que em um circuito fechado e com todos os carros juntos em uma prova sprint de poucos minutos. A vibração nas arquibancadas lembra muitas vezes um estádio de futebol.

Os carros são incríveis de se ver. No torneio da FIA, existem quatro subdivisões: Supercar, Super1600, Touring Car e RX Lites. Na principal, os motores possuem, em geral, cerca de 600 cavalos, chegando aos 8.000 RPM, e câmbio manual de 5 marchas. Controle de tração e qualquer outro dispositivo de auxílio de pilotagem são proibidos.

Algumas etapas são realizadas em autódromos que recebem até mesmo a F1, como Hockenheim e Barcelona, utilizando parte do traçado de asfalto e outra de terra na parte interna.

Loeb e Solberg em uma disputa corpo-a-corpo no RallyCross
Loeb e Solberg em uma disputa corpo-a-corpo no RallyCross

No formato da prova, os pilotos disputam baterias de quatro voltas com cinco carros em cada, sendo que cada um participa de pelo menos quatro provas. Uma pontuação classifica os 12 melhores para as semifinais, em que duas baterias são disputadas, com seis concorrentes em cada. Os seis melhores vão para a pista uma final que define o campeão da etapa.

Os circuitos são feitos de um misto com trechos de asfalto e outros de terra, sendo que existe um caminho mais longo em que todos devem passar pelo menos uma vez a cada bateria, conhecido como “joker”. Isso faz com que os pilotos joguem com a estratégia do momento de fazer esta volta mais longa.  Na versão americana, no Global RX, este trecho é mais curto e em todos os circuitos existe um salto de 21 metros.

RallyCross já atrai diversas marcas para seus campeonatos
RallyCross já atrai diversas marcas para seus campeonatos

O apelo com o público já chamou atenção não só de patrocinadores, mas também de pilotos importantes e montadoras. O Mundial da FIA conta alguns nomes famosos como o eneacampeão do WRC Sébastien Loeb, Petter Solberg, Ken Block, o bicampeão do DTM Mattias Ekstrom, entre outros. Nos EUA, Scott Speed e Sebastian Saavedra estão entre os mais conhecidos do público brasileiro, além de equipes como a Ganassi e a Andretti. Nelsinho Piquet também já participou de provas da modalidade.

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Audi, Peugeot, Volkswagen, Ford, Seat, Subaru, Chevrolet, Honda e Hyundai já competem com equipes oficiais ou com algum suporte a times privados entre as duas competições.

As corridas são insanas, com pegas até mesmo violentos, lembrando filmes de corridas clandestinas e pegas do início do automobilismo. Por isso tudo, fica a dica: se você ainda não acompanha, comece a seguir as redes sociais destes campeonatos (especialmente o Youtube), que você não vai se arrepender de entrar neste mundo louco do RallyCross.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.