Crescimento, eventos e polêmicas do automobilismo virtual na pandemia

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O automobilismo virtual, assim como os eSports no geral, já cresciam muito nos últimos anos. Ligas, transmissões e interesse do público geral vinham borbulhando e aumentando o interesse também das categorias, equipes e pilotos do mundo real.

A FIA e até a F1 já vinham organizando seus campeonatos virtuais. O brasileiro Igor Fraga, campeão de uma dessas competições, impulsionou sua carreira nas corridas reais e hoje compete na F3 muito por causa desses bons resultados, como ele mesmo nos contou em entrevista ao Projeto Motor.

Com a pandemia do Covid-19 e a paralisação de todos os esportes, incluindo o automobilismo, os eSports se tornaram uma alternativa para as competições continuarem de alguma forma suas atividades, mesmo que no mundo virtual. Assim, se encontrou uma maneira de exposição das marcas tanto das categorias, equipe e pilotos, mas também de patrocinadores, além de preencher grades de programação de canais do Youtube e até da TV.

Por outro lado, também vieram as polêmicas esportivas e mesmo de comportamento. O piloto da Nascar Kyle Larson perdeu seu emprego na equipe Chip Ganassi na competição real por ter disparado um xingamento racista durante transmissão de um desses eventos de automobilismo virtual.

Outro caso que esquentou a discussão recentemente foi o de Daniel Abt, piloto da Audi na Fórmula E, que burlou o sistema para colocar um piloto profissional de automobilismo virtual para controlar seu carro durante uma prova da competição. Ele recebeu uma multa de 10 mil euros e ainda foi suspenso da equipe da marca alemã.

Pagenaud tira Norris da corrida da Indy virtual a três voltas do final
Pagenaud tira Norris da corrida da Indy virtual a três voltas do final (Imagem: Reprodução)

Na Indy, o piloto da F1 Lando Norris, que competia como convidado, fez uma manobra arriscada e questionável que acabou prejudicando Simon Pagenaud. O francês precisou ir aos boxes para reparar o carro e perdeu a chance de vitória. Só que no retorno à pista, o atual campeão da Indy real avisou que iria tirar o inglês da corrida e fez uma manobra proposital que causou um acidente do representante da McLaren.

No final da prova, Santino Ferrucci, disputando a vitória nos metros finais com Oliver Askew, tocou o carro do adversário para tentar ganhar a posição. Os dois bateram e a vitória ficou com Scott McLaughlin.

Muitas das justificativas dos pilotos é que os eventos de automobilismo virtual não passam de um “videogame” e são para entreter o público, por isso, não podem ser considerados tão sérios. Após a polêmica de Abt na Fórmula E, o piloto Antonio Felix da Costa, que também corre na categoria de carros elétricos, chegou a dizer que não pretende mais participar de corridas virtuais.

Afinal, o automobilismo virtual deveria ser levado mais a sério pelos pilotos reais? A pandemia está fazendo bem ou mal para a imagem dos eSports? Debatemos as questões com Rodrigo Steigmann, diretor geral do F1 Brasil Clube, uma das maiores ligas de automobilismo virtual do Brasil e do mundo, com mais de 300 pilotos ativos e 10 campeonatos em plataformas de Stock Car, Indy, GT, entre outras.

Confira a entrevista completa em nosso IGTV ou leia os principais trechos nos tópicos abaixo.

O impacto da pandemia para o automobilismo virtual

“O impacto está sendo muito positivo para a gente. Tem muita gente querendo correr, se interessando, porque entrou muito mais na mídia. O automobilismo virtual ser o único esporte virtual que você realmente está simulando alguma coisa na real, porque você está controlando uma máquina igual, não é como no futebol que você está controlando o jogador com a vista de cima nem um jogo de tiro de estratégia, que não é algo da realidade. Isso tem sido muito falado até por diretores de marketing da McLaren, da F1 e de outras empresas que têm destacado que estão vendo um crescimento muito grande da atividade.”

“Antes disso, vinha sendo um crescimento um pouco mais lento. Acho natural porque o automobilismo já é um esporte de nicho e dentro dos eSports também é de nicho no virtual. Porque você precisa de um equipamento em casa, uma máquina mais potente, volante, pedal, que você só utiliza para corrida. O teclado, mouse e o joystick você pode utilizar para todos os jogos possíveis. E o smartphone também, os jogos mobile tem muito apelo porque todo mundo tem já na mão. Então, o automobilismo real é um esporte elitista e o virtual também acabou caindo nisso porque você precisa de um equipamento bem específico.”

Atitudes antidesportivas em eventos da pandemia são ruins para a imagem do eSport?

“É ruim sim. É ruim também para a imagem do próprio piloto. Como esportista e para as empresas que ele representa, que patrocinam. É um pouco de inocência, um pouco de falta de noção, pois eles já têm contato com redes sociais. Digamos que eles estão ali também em uma rede social se expondo. E eles têm um treinamento de equipe de marketing para se apresentarem bem e positivamente na mídia.”

“No virtual, eles têm essa sensação, e todo mundo tem, que não vai acontecer nada com a integridade física de ninguém. É algo que possa ser um chamativo para você fazer algo mais descabido na pista. Vai acabar tendo que o automobilismo virtual em geral seguir esse caminho de conscientizar todo mundo de fazer a corrida limpa por mais que você não vá se machucar.”

O que o caso da Indy virtual renderia em uma Liga?

“Nas Ligas, se o piloto for culpado por um acidente, como o caso do Lando Norris, que é um acidente discutível, ele seria penalizado. E aquele que causou propositalmente com certeza seria desclassificado e até tomaria um gancho de algumas etapas ou até do campeonato inteiro. O que o Pagenoud fez foi muito grave. No âmbito de competição on line, com certeza ele seria penalizado e tomaria um gancho.”  

(Polêmica a partir de 1h13min25s do vídeo abaixo)

Fórmula E Virtual

“Primeiro, tenho que elogiar a Fórmula E, que acho que eles realmente saíram na frente de fazer um evento bem organizado. Eles já tinham feito testes no ano passado, até com algumas falhas, e eles puderam aprender com isso. As categorias que fizeram testes no passado entraram muito mais sólidas nos eventos de eSports agora. Elas já carregaram uma bagagem legal e a Fórmula E foi bem nisso. Até por conseguir contratualmente trazer todos os pilotos ali para estarem presentes.”

Caso de Daniel Abt

“Se está no contrato que você tem que representar a marca em tal evento. Não tem o que fazer. Você coloca outro para correr… Fico imaginando, o Kimi Raikkonen não gosta de dar entrevista e coloca um sósia lá para falar. Se é mais grave ou menos porque é um simulador, estão numa atividade que não é o evento em si, não sei dizer. Mas é uma obrigação contratual do piloto. Se não for considerado um evento esportivo, é um evento de marketing, como se fosse um evento de mídia em que vemos os pilotos participarem na quinta-feira antes dos GPs.”

“[No F1BC] tomaria gancho. Temos um controle com esse monitoramento.”

“A ideia é que os pilotos corram por si só. Não faz muito sentido colocar outro para correr ali.”

Reclamações sobre a plataforma do game da F1

“Os pilotos ainda têm certa restrição com o F1 por causa do sistema “off track” [fora da pista], que pune quando você foge muito dos limites da pista. Começam a rolar uns abusos porque o piloto sempre busca o limite. Então, se a pista permite você alargar uma curva sem tomar punição, um faz e o outro vem atrás faz também. E passa a ser uma rotina. Se desvirtuou um pouco por causa dessa falta de sistema de saídas de pista que acaba tornando o traçado longe do que é o real. Os pilotos com certeza vão sentir isso e vão se ver prejudicados. Fica essa sensação enquanto outros simuladores são mais bem trabalhados com isso.”

“Em relação à pilotagem, tem outros simuladores que trazem mais realismo. O jogo F1 ganha de gráfico. Acho sensacional. Mas essa parte de feeling de carro, da dificuldade, o ponto positivo está nas mãos de outros simuladores. Acho que é óbvio eles debaterem sobre isso. Cada título tem seus prós e contras.”

O que esperar no pós-pandemia

“Acho que a procura grande está sendo feita agora. Muita gente nova querendo correr. Muita gente que já tinha contato por paixão de velocidade querendo correr. Evoluiu dois anos em dois meses, como disse o diretor de marketing da McLaren. Acho que é uma evolução muito grande para agora. Quando voltarmos ao normal, o foco volta às corridas reais. Mas a gente ganha muito em visibilidade e quebra um gelo, uma barreira com quem tem condições de dar apoio aos esportes virtuais. Tem muita empresa em que os diretores acham que é inovador demais ou não compreendem a natureza e tendem a investir os tubos de dinheiro nos esportes reais. Mas acho que quebra uma barreira importante porque mostra que os atletas, as organizações das categorias e as equipes estão investindo e agora juntou um pouco com a audiência e relevância.”


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.