Crise financeira? O problema da F1 é a divisão da grana

3

Equipes quebrando, outras vendendo a alma para conseguirem permanecer no grid, reclamações sobre o desinteresse do público. Parece que a F1 está em uma crise financeira sem precedentes. Mas isso não é verdade. Nunca entrou tanto dinheiro na categoria como hoje. A questão central, como já abordamos aqui no Projeto Motor em outros textos, é administrativa, especialmente em relação à distribuição dos “dividendos”.

Uma matéria da revista de negócios Forbes afirma que a receita da F1 nos últimos 15 anos (1999-2014) foi de US$ 16,2 bilhões (R$50,7 bi), o que é mais do que a Fifa conseguiu com a Copa do Mundo no mesmo período: US$ 14,5 bi.

“Mas a audiência na TV está caindo!”, bradam muitos. Isso acontece pela escolha da administração do Grupo Fórmula 1 (Bernie Ecclestone) de trocar os canais abertos da Europa por fechados, que obviamente alcançam menos gente, porém, pagam muito melhor e fazem uma cobertura mais extensa. Se a decisão é certa ou não, deixaremos para outro texto. O nosso foco aqui é a questão da divisão desse dinheiro que está entrando.

Outra renda importante é a de países que pagam fortunas para entrar no calendário. Abu Dhabi, Bahrein, Malásia, Cingapura, Rússia, Azerbaijão, e por aí vai. E tem muita gente telefonando para Ecclestone querendo o seu espaço. E não precisamos nem entrar na parte de licenciamentos e coisas do tipo. É muito dinheiro.

Bernie Ecclestone e Donald Mackenzie, um dos donos do CVC Capital
Bernie Ecclestone e Donald Mackenzie, um dos donos do CVC Capital

Tudo isso entra para a conta do Grupo Fórmula 1, que entre diversos sócios tem como majoritário o fundo CVC Capital Partners, empresa de Luxemburgo fundada em 1981 e que tem presença em diversos negócios na Europa e Ásia. A partir deste momento que começa o problema.

É importante destacar que os números desta divisão são confidenciais e, por isso, são bastante especulativos. Segundo o jornalista inglês Joe Saward, um dos mais renomados do paddock, o lucro da F1, que supera com facilidade a casa de US$ 1 bilhão, é dividido em uma metade (apenas) que vai para as equipes e a outra que vai direto para os acionistas do Grupo Fórmula 1.

A Ferrari já leva uma fatia antes da distribuição, o que foi combinado na assinatura do último Pacto de Concórdia. Aí, Ferrari (sim, de novo), Red Bull, McLaren, Mercedes e Williams levam mais uma cota por questões históricas e conquistas de campeonato de construtores. Finalmente vamos para a distribuição, que é dividida em três colunas. Na primeira, todos levam uma quantia igual. Na segunda, a distribuição é feita pela média de desempenho no campeonato de construtores nos dois anos anteriores.

Existe uma terceira, para quando tínhamos mais de 10 equipes, de parcos US$ 10 milhões para os times que terminassem de 11º para trás no Mundial. Por conta desta parte é que ninguém que hoje se alimenta do bolo gosta muito da ideia de termos mais concorrentes no campeonato.

No final das contas, fazendo-se uma estimativa, a Marussia recebeu algo em torno de US$ 60 milhões para 2015 enquanto que a Ferrari, US$ 200 milhões. Uma diferença de 70%. Só que o problema principal não está exatamente aí, e sim, no fato de que cerca de US$ 800 milhões vão direto para os acionistas do Grupo Fórmula 1, que não fazem nada pelo esporte. Nada mesmo. Apenas, um dia, resolveram fazer negócio com Ecclestone. E o dinheiro desta compra nunca chegou aos competidores.

Por isso que quando se diz que a distribuição da verba é um problema, não se fala exatamente da diferença entre a equipe que mais recebe e a que menos, e sim, entre o time que luta para pagar suas contas e os acionistas que mal devem saber quantas rodas possui um carro de corridas.

E como resolver isso? Bem, em 2001, Bernie Ecclestone adquiriu um contrato de 100 anos de direitos comerciais da F1 por cerca de US$ 360 milhões, antes de vender a maior parte das cotas de sua empresa por US$ 1,1 bi. Ou seja, teoricamente, estas pessoas são proprietárias dos direitos comerciais da categoria até 2101. Impossível saber até se ainda existirão carros até lá.

GP da Austrália de 2015 contou com apenas 15 carros no grid
GP da Austrália de 2015 contou com apenas 15 carros no grid

Quem tem o poder de apertar essa gente são as equipes. Sem os times, não existe campeonato. Só que os grandes, que mandam, estão satisfeitos. E os pequenos, que sufocam, não têm voz. A esperança é o que o GP da Austrália de 2015 jogou na cara de todos: 15 carros no grid, apenas 13 completaram a primeira volta. Estamos ficando sem concorrentes.

Chefes dos times e a FIA começaram a negociar mais um pacotão de novas regras, com a intenção de “revolucionar” a categoria e “trazer de volta as disputas excitantes do passado” . Só que desde 2009, esta já seria a terceira revolução. E o número de carros continua diminuindo porque o negócio equipe de F1 não é sustentável.

Sim, ajustes no regulamento são sempre necessários e um chacoalho de vez em quando para tentar balançar as coisas é bom. Mas o problema principal da F1 não está no tamanho das asas ou sob as carenagens. E sim, na saúde financeira das equipes médias e pequenas e no estímulo na entrada de novos concorrentes. E isso só vai acontecer quando este sistema de distribuição de dinheiro mudar.

 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Luigi G. Peceguini

    Iniciar a matéria com o Bernie mostrando o dedo do meio é f*da…kkk

  • Wiliam Zaions

    Só uma correção. Sei como funcionam investimentos. Os acionistas colocaram dinheiro deles na F1, e querem retorno. É assim em qualquer lugar do mundo, algo completamente normal. Eles arriscaram. Poderia dar errado, e quem perderia dinheiro era eles. Se não houvesse retorno, ou se ele fosse baixo, eles colocariam o dinheiro deles noutra coisa e a F1 não seria a F1 que conhecemos, mas muito mais pobrinha. Já sobre a divisão do dinheiro pras equipes, eu concordo que é injusto e precisaria ser mais próximo da igualdade.

  • Marco Marboli

    É, não há estímulo para a entrada de novas equipes, que poderia apimentar a disputa. As equipes pequenas ficam com pouca grana, vão desenvolver menos o carro e os patrocinadores sabem disso e não investem. É um ciclo interminável.
    Acredito que a grana desse pacotão deveria ser distribuída igualmente entre as equipes. E cada equipe fazer sua parte para conquistar receitas de outras formas (patrocinadores, vendas de produtos licenciados, experiências com o público…). Assim, todas teriam como partir da mesma base financeira, já que todas participam do campeonato e merecem isso.