Culto a Gilles Villeneuve mostra que fã da F1 não liga só para números

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Falar de Gilles Villeneuve é sempre levantar certa polêmica. Lembrado por ser um dos grandes da F1 por muitos, ele somou em seu currículo apenas seis vitórias em 67 GPs até a sua morte nos treinos do GP da Bélgica, em 8 de maio de 1982, há exatos 35 anos.

Aqui no Projeto Motor, já publicamos um ótimo texto de autoria do grande Lucas Berredo sobre o canadense em que questionamos: por que um piloto tão instável e sem títulos é endeusado até hoje? Desta vez resolvemos olhar a questão por outra ótica, a de como surgiu o mito de Gilles. E para isso, é preciso entendermos o que exatamente ele fez na pista e o que deixou como seu legado.

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Villeneuve foi um cara que chegou na F1 com o pé na porta. Com alguma experiência em corridas nacionais em seu país, além das famosas corridas de snowmobile. Ele, inclusive, já tinha chamado a atenção de muitos dirigentes da categoria ao fazer boas apresentações em provas extracampeonato. A McLaren, então, resolveu colocá-lo em um terceiro carro da equipe no GP da Inglaterra de 77.

Ele largou em nono com seu M23 e terminou em 11º, após enfrentar problemas mecânicos, em uma prova dominada por James Hunt com outro carro da equipe, já do modelo M26. No geral, uma boa apresentação para uma primeira vez em um GP oficial.

Gilles Villeneuve, de McLaren, no GP da Inglaterra de 77
Gilles Villeneuve, de McLaren, no GP da Inglaterra de 77

Só que aquela seria sua única corrida sem o macacão vermelho e o cavalinho rampante no peito. A Ferrari mostrou interesse no jovem talentoso e quando ele foi apresentado a Enzo Ferrari, no final daquele ano, para negociar um contrato, o seu jeito lembrou ao Comendador um dos grandes nomes da história pré-F1.

“Quando eles me apresentaram a esse pequeno canadense, cheio de nervos, eu imediatamente reconheci nele [Tazio] Nuvolari. E aí disse a mim mesmo: vamos dar a ele uma chance.”

E aí é que começamos a entender a relação entre o mito Villeneuve e a história do piloto. Não que a Ferrari seja a única equipe que possa elevar pilotos a esse patamar, longe disso. mas naquele momento e pelas características do piloto, Maranello se tornou o lugar ideal para que Gilles demonstrasse suas habilidades um pouco suicidas.

A primeira temporada completa dele no Mundial foi difícil, e estava para fechar com um terceiro lugar como melhor resultado enquanto seu companheiro, Carlos Reutemann, somava quatro vitórias. Na última corrida do ano, porém, justo em Montreal, no mesmo circuito que ganharia seu nome anos mais tarde, ele conquistou sua primeira vitória, em uma prova em condições difíceis, com chuva intermitente, ajudado também pela quebra da Lotus do líder Jean-Pierre Jarier.

O triunfo deu fôlego para que ele continuasse na Ferrari, apesar das críticas que já vinham da imprensa italiana. E em 1979, seria um ano importante para o time, que conseguiu construir um belo carro. Gilles acabou batido pelo seu novo companheiro, Jody Scheckter, ficando com o vice-campeonato, quatro pontos atrás.

Alguns azares com quebras e muitos erros bobos por conta de seu estilo agressivo, a verdade é que apesar da pequena margem, ele nunca conseguiu realmente bater de frente com o sul-africano pelo título. Mesmo assim ele deixou definitivamente sua marca na F1 com três triunfos e alguns lances espetaculares.

Os mais lembrados são a incrível batalha com René Arnoux pelo segundo lugar do GP da França, em Dijon, e a famosa volta com apenas três rodas no GP da Holanda para chegar aos boxes.

Em 80, a Ferrari teve um ano bastante problemático com seu modelo 312T5. Para Gilles, ficou o consolo de terminar, enfim, à frente de seu parceiro de time, com seis míseros pontos contra dois de Scheckter.

No ano seguinte, Gilles voltou a ter a chance de mostrar que tinha algo especial. A vitória em Mônaco, com certeza, sempre é um momento especial para qualquer piloto. E os fãs nunca se esquecerão das duas voltas em que ele pilotou na chuva com o aerofólio dianteiro de sua Ferrari virado em frente ao cockpit no GP do Canadá, o deixando praticamente sem visão, e mesmo assim conseguindo chegar ao terceiro lugar.

O estranho é que talvez o melhor dia de Gilles em carro de corridas normalmente é deixado de lado nas recordações da maioria das pessoas: a vitória na Espanha, sua última. Foi uma das poucas corridas que, para esse autor, Villeneuve realmente mostrou que tinha talento para voos mais altos.

A Ferrari enfrentava um final de semana difícil e parecia não ter um carro competitivo em Jarama. O canadense largou em sétimo e contornou a primeira curva, após passar com duas rodas pela grama, na quarta posição. Ao completar a primeira volta, ele ainda conseguiu mais uma ultrapassagem, deixando Carlos Reutemann para trás.

Alan Jones abria na frente com sua Williams, mas cometeu um erro e saiu da pista no 14º giro. Gilles assumiu a ponta com 66 voltas pela frente e, apesar da forte pressão, não cometeu erros e se manteve no controle da corrida. Ele recebeu a bandeira quadriculada apenas 0s2 à frente de Jacques Laffite e com apenas 1s2 de vantagem para o quinto colocado, em uma chegada bastante apertada.

A morte de Gilles mostrada na televisão, cerca de um ano depois, assim como aconteceu com Senna, abalou o mundo e fez as pessoas ligadas ao esporte a motor a refletirem ainda mais forte sobre a carreira do piloto. Seu acidente fatal foi muito resultado de seu temperamento explosivo. Ele não aceitava a derrota para o companheiro de equipe e queria vingança a qualquer custo, mesmo que fosse em um treino.

Villeneuve, apesar do que muitos gostariam, passou longe de ser um dos melhores da história. Mas é um personagem formidável. O seu culto se dá por algumas poucas façanhas, muitas sem nexo nenhum, mas que mostravam que por debaixo do capacete tinha um homem que quando estava atrás do volante não pensava na pontuação ou quantos segundos estava à frente ou atrás, mas apenas em andar o mais rápido que podia.

Em um esporte tão complexo e técnico, também consola o espectador este tipo de exemplo imperfeito, que jogava corridas e campeonatos fora, e que ao mesmo torna realidade um romantismo pelo qual ele tanto busca nesta competição das máquinas.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.