Quatro Rodas

Da cadeia ao título da Nascar: quem é Gene Haas, o novo figurão na F1

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Não, não tem nada a ver com o antigo time de Carl Haas, que disputou 19 GPs no meio dos anos 80 e repentinamente desapareceu. A nova escuderia da F1, que na última terça-feira (29) confirmou Romain Grosjean como seu primeiro piloto, partiu de um projeto capitaneado pelo audaz Gene Francis Haas. Mas quem é esse americano e quais suas intenções na categoria-mãe?

Haas, 62, é dono de uma multimilionária empresa de máquina-ferramentas, a Haas Automation. Em 2008, a companhia, cuja sede fica em Oxnard, sul da Califórnia, lucrou mais de US$ 1 bilhão pelo mundo. Com o lançamento da equipe na F1, o empresário espera duplicar esse valor em cinco anos.

Haas fundou a empresa em 1983, na cidade de Sun Valley. Formou-se em contabilidade e finanças pela California State University, mas preferiu mudar de rumo ao entrar no mercado de trabalho para atuar como mecânico e programador de tornos CNC (comando numérico computadorizado).

Sede da Haas em Kannapolis, interior dos Estados Unidos (Divulgação)
Sede da Haas em Kannapolis, na Carolina do Norte (Divulgação)

Foi a melhor decisão que o jovem Gene poderia tomar. O indexador HB1-5C (Haas Brothers Indexer), um de seus primeiros produtos, vendeu tão bem que, por volta do fim dos anos 80, a empresa já era a líder de demandas no ramo de máquina-ferramentas.

Em 1996, a Haas transferiu suas operações para uma fábrica de 39 mil m² em Oxnard. Nove anos depois, a planta foi expandida para 90 mil m². Àquela altura, a empresa já era a maior do ramo nos Estados Unidos.

Haas, contudo, queria mais. Fã de automobilismo, adquiriu da Hendrick em 2002 uma pequena fábrica em Concord, na Carolina do Norte, e fundou sua própria equipe de Nascar: a Haas CNC. No mesmo ano, o time estreou (sem muito sucesso) na Nextel Cup com Jack Sprague como piloto titular.

Neste ínterim, Haas foi parar no xilindró. Em junho de 2006, a Receita Federal dos Estados Unidos prendeu o empresário sob acusação de fraude fiscal, juntamente com vários associados. A promotoria alegou que Haas tentara evadir impostos como uma forma de recuperar US$ 8,9 milhões pagos obrigatoriamente ao Estado num processo de patente.

Em 2007, ele se declarou culpado por uma das 11 acusações e concordou em passar dois anos na prisão, pagando US$ 75 milhões em restituição e multas. O empresário foi confinado em janeiro de 2008 e solto em liberdade condicional 16 meses depois.

Tony Stewart com o carro da Haas que venceu a Sprint Cup em 2011 (Divulgação)
Tony Stewart com o carro da Haas que venceu a Sprint Cup em 2011 (Divulgação)

Ainda na cadeia, porém, ele já tentava recuperar sua imagem pública. E no mesmo ano em que foi encarcerado, o empresário se associou ao bicampeão da Nascar, Tony Stewart. O ás de Indiana ofereceria seus serviços como piloto nº 1 à Haas CNC e, em troca, receberia 50% das ações no time.

Os dois primeiros anos – 2009 e 2010 – foram bons, mas em ambos Stewart terminou o campeonato fora do top 5. Em 2011, “Smoke” venceu cinco das dez provas no Chase (a fase de mata-mata da Nascar) e conquistou o primeiro título para a Stewart-Haas – o novo nome do time – na Sprint Cup. Desde então, a equipe, hoje sediada em Kannapolis, é uma das mais poderosas no circuito do stock car americano, tendo no elenco, além de “Smoke”, os experientes Kurt Busch e Kevin Harvick e a popular Danica Patrick.

Agora, Gene pretende brilhar no mundo supercompetitivo da F1. E revelou, ao site oficial da categoria, que seu plano vai na contramão dos concorrentes. Para ele, “você não precisa entrar numa farra de gastos para ser bem-sucedido”. Mas vale o risco financeiro? À “Forbes”, Haas avisa que sim:

“Francamente, eu poderia gastar US$ 100 milhões em publicidade e acho que não iria obter o retorno de investimentos que ganharia [com uma equipe]na F1.”

Steiner, Grosjean e Haas: os pilares da nova equipe para 2016 (Divulgação)
Steiner, Grosjean e Haas: os pilares da nova equipe para 2016 (Divulgação)

De qualquer forma, Haas, como Lucas Santochi explica melhor neste texto, começou bem. Ainda no ano passado, o time confirmou uma parceria com a Ferrari e, nesta semana, o reforço de um piloto em ascensão, Romain Grosjean. No quadro técnico, há alguns nomes de calibre como Ben Aganthagelou, ex-Jaguar e Red Bull, na chefia de aerodinâmica, e Gunther Steiner, também alumnus de Milton Keynes, na direção técnica.

Pontuar na F1 de prima, porém, é praticamente impossível nesses dias. Da tríade de escuderias que ingressou no esporte em 2010, somente uma, a Manor, a duro custo, sobreviveu, além da concorrência desleal dos times menores com montadoras como Mercedes, Renault e Honda.

Só que, bom, para quem saiu do nada, foi para a cadeia e venceu a Sprint Cup, o desafio da F1 talvez não seja um enorme bicho de sete cabeças. Vamos ver onde o californiano chega.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.