Da Matta e a história do título na Indy: “Muda a vida para sempre”

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Em 6 de outubro de 2002, pelo terceiro ano consecutivo, um brasileiro levantava a taça da Champ Car. Depois de duas temporadas em que Gil de Ferran conquistou o título, Cristiano da Matta vencia o campeonato organizado pela Cart, e que, para muitos brasileiros, apesar de não levar oficialmente o nome, era em essência a Indy.

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A vitória no circuito de rua de Miami fez com que o mineiro encerrasse a briga ainda com três etapas de antecipação, algo bastante raro na categoria. E foi uma temporada especial para ele. Sete vitórias e pole positions, 11 vezes entre os três primeiros, nove largadas na primeira fila, seis voltas mais rápidas e terminou a classificação geral com 237 pontos contra 164 do vice, seu compatriota Bruno Junqueira.

“É… Foi bom demais. Ficou marcado para mim, para equipe, na história. O negócio que a gente conseguiu fazer aquele ano… O jeito que tudo encaixou na hora certa, no lugar certo. Você olhando toda a estatística, dá para ver que o negócio foi bom demais. A gente estava pirando com aquilo”, lembrou Da Matta em entrevista EXCLUSIVA ao Projeto Motor.

A temporada também foi marcada por um momento de virada definitiva na queda de braço pela hegemonia dos certames de monopostos nos Estados Unidos. A Indy vinha rachada desde 1996 entre IRL e Cart, organizadora da Champ Car. Apesar da segunda ter conseguido manter um nível muito mais alto nos primeiros anos, ela sofreu grande reviravolta entre 2001 e 2002.

Cristiano da Matta, pela Newman-Haas, em 2002
Cristiano da Matta, pela Newman-Haas, em 2002

Naquele ano, a Penske, então bicampeã e uma das principais equipes da história, mudou definitivamente de lado. E durante o ano, montadoras e patrocinadores começaram a anunciar que também estavam trocando o campeonato da Cart pelo concorrente. “Ninguém sabia nem se iria ter categoria [em 2003]”, recorda o brasileiro, que mesmo assim, aponta que a Cart ainda era vista por todos como o grande campeonato americano.

“Quando dividiu, as melhores equipes ficaram na Champ Car. Para os pilotos, tudo que acontecia na Champ Car era 10 mil anos na frente da Indy. Quando comecei a andar de kart, eu queria correr de F1 ou Indy, e a Indy legal da época era a Champ Car. A Indy mesmo [IRL] não era nada demais. Então, na minha cabeça, eu estava ganhando a segunda coisa mais top do mundo. Como esportista, era um objetivo.”

Por isso tudo, Da Matta pode ser considerado o último campeão antes do declínio que levou a Cart a sua morte, em 2008. Um título de extrema importância no automobilismo internacional e que por isso mesmo acabou lhe abrindo as portas da F1. Diante de tantos marcos , o Projeto Motor bateu um papo com o piloto sobre o momento mais importante de sua carreira. Confira:

Mudanças na Newman/Haas para 2002

Da Matta estreou na Cart em 1999, um ano depois ser campeão da Indy Lights. Após competir nas pequenas Arciero-Wells e PPI, onde ele competiu com chassis Reynard, ele foi contratado em 2001 para correr pela tradicional Newman/Haas, substituindo nada mais nada menos do que Michael Andretti, piloto com mais de 10 anos de relacionamento com o time e um título no currículo.

No primeiro ano pelo time, ele já conseguiu bons resultados, com três triunfos e o quarto lugar no campeonato. Mas ele e a equipe logo perceberam que mudanças internas e no trabalho da fornecedora Lola precisavam ser feitos para alçar um voo mais alto.

“Naquela época, a Champ Car era muito mais voltada para tecnologia. Mesmo a Indy de hoje não tem mais isso. Tinha chassi Lola, Reynard… Todo ano, elas faziam chassis novos para uma tentar ganhar da outra. Ao estilo da F1. Quando eu fui para a Newman/Haas em 2001, foi a primeira vez que corri de Lola. E de 2001 para 2002, teve uma diferença muito grande. Foi muito melhor. Em 2001, tinham circuitos em que éramos muito fortes, mas também outros em que éramos muito fracos. Não conseguíamos ter consistência. E o desafio da temporada da Indy era justamente isso, pois existiam circuitos de rua, misto, oval curto, superspeedway…”

“Em 2001, chegamos a ganhar três corridas, mas no final das contas, tinham provas em que não conseguíamos largar entre os 15 primeiros. Eu lembro que em ovais curtos era complicadíssimo. Mas no Lola 2002, o jeito que o carro foi desenvolvido, tanto aerodinâmica, suspensão e distribuição de peso, bem no geral mesmo, encaixou bem com o acerto que tínhamos”, explicou.

Da Matta Newman-Haas misto

A Newman/Haas não conquistava um título na Indy desde 1993, com Nigel Mansell. Com a saída de Andretti, viu-se a oportunidade de iniciar um trabalho de evolução da organização interna e de mudanças nos conceitos de acertos dos carros, deixando para trás alguns vícios que não funcionavam mais.

“As mudanças que a equipe teve de um ano para o outro foram muito positivas. A equipe tinha o Michael Andretti há muitos anos. Tinha um pessoal que estava há muitos anos e acostumado com um estilo de trabalho. Eu cheguei lá, estava indo para minha terceira temporada na categoria. E tinham coisas que não eram muito fáceis, não é fácil mudar seu estilo de pilotagem do dia para a noite. Então, além da mudança do chassi, teve um encaixe com a equipe que deu muito certo. Foram estes dois fatores.”

Começo arrasador

A abertura do campeonato aconteceu no circuito de rua mexicano de Monterrey. Após largar na quinta posição, Da Matta dominou a segunda metade da prova e conquistou a vitória. Só que o fato de o mesmo ter acontecido na temporada anterior, brasileiro e equipe ainda se mantiveram com o pé atrás quanto ao potencial para o restante da época.

“Começamos o campeonato com a mesma dúvida do ano anterior, pois no ano anterior, na minha primeira corrida na Newman/Haas, a gente também ganhou a prova. Não foi tão tranquilo, nem nada, mas a gente já tinha ganho. E Monterrey era um lugar muito particular, então, a gente não sabia ainda se ia funcionar tão bem em todos os lugares.”

A dúvida realmente se fez valer pelos desempenhos abaixo do esperado nas três provas seguintes, em Long Beach, Motegi e Milwaukee, em que ele ficou duas vezes fora dos 10 primeiros e teve como melhor resultado um oitavo lugar na etapa californiana. Só que a reação não tardou e acabou de vez com qualquer dúvida sobre as chances de título.

2002 CART Monterrey Mexico

O mineiro emendou quatro triunfos consecutivos em Laguna Seca, Portland, Chicago e Toronto, assumindo a liderança do campeonato com boa folga após somente oito corridas. E aí, o trabalho foi mais para segurar o sentimento de “já ganhou”.

“Rapaz, nem lembrava que tinha começado tão bem. Foi corrida pra caramba… Cinco das oito primeiras… Andamos bem na rua, oval, superspeedway… A gente fazia a matemática com os engenheiros e via que ia funcionar. Como piloto, eu tentava não me empolgar, para não entrar no ‘já levei’. Então, eu ficava falando para mim mesmo, ‘não se preocupa com isso’. Mas quando a gente ia para a pista, dava para ver que funcionava mesmo. Claro que quando vai para a pista tem uma poesia que não tem na planilha matemática. Mas a gente ia e via que estava funcionando também.”

Dúvidas sobre a categoria e decisão sobre a carreira no meio do campeonato

Em um momento tão especial, Da Matta foi obrigado por uma situação muito maior do que ele ou qualquer briga pela campeonato a dividir o foco no título com decisões sobre o futuro de sua carreira.

Com a saída da Penske, que transferiu todo o seu programa de monopostos para a Indy, a Cart sentiu pela primeira vez um duro golpe da categoria rival. E desde o início de 2002, dúvidas sobre a saúde do certame passaram a agitar todos os integrantes, desde dirigentes de equipes a patrocinadores, pilotos, mecânicos e fornecedores.

“Para 2003, ninguém sabia nem se iria ter categoria, por conta daquela rivalidade com a Indy. Em um certo ponto de 2002, as principais montadoras, Toyota, Honda e Ford, anunciaram que iam sair no ano seguinte. A Mercedes já tinha até saído. Eu pensava, ‘pô, agora que eu tenho tudo aqui fechado, funcionando…’. A última coisa que eu queria era ter que mudar de categoria. Só que me questionava: ‘eu se resolvo ficar aqui e a categoria acaba?’. Por que automobilismo sem montadora por trás não existe. Automobilismo é marketing. Então eu ficava nessa dúvida.”

Só que uma porta do outro do Atlântico se abriu. O trabalho de Da Matta com os motores da Toyota na Champ Car chamou a atenção da montadora japonesa, que resolveu apostar no brasileiro para seu projeto de uma equipe oficial na F1.

da matta toyota

O piloto brasileiro admite que chegou a ficar dividido sobre o caminho a escolher, mas em certa altura do ano, viu que na verdade, independente de sua posição confortável na Cart, seguir para o novo desafio era uma opção quase que natural.

“Para te falar de coração mesmo, eu queria que a Champ Car continuasse. Mas quando chegou ali em agosto, setembro, não aparecia nenhuma montadora, o pessoal não definia… Eu falava com os patrocinadores e pessoal do meio e eles me falavam: ‘Cristiano, tudo bem que você tem um negócio bom aqui, mas é F1 com a Toyota. Não tem erro! Você quer ficar aqui com a Newman/Haas, mas não tem ninguém por trás da categoria’. E a categoria acabou fechando as portas mesmo alguns anos depois. Então, acabei optando.”

“Eu sabia que ir para a Toyota [na F1]era começar a remar tudo de novo. Por mais que tivesse o investimento, era o segundo ano da equipe na F1 contra equipes que estavam lá há décadas. Mas em nenhum momento pensei em virar uma página ou capítulo. Pensava só no momento. Era uma porta que estava fechando com a insegurança da Champ Car e uma oportunidade aparecendo do lado de lá, para mim era apenas seguir para frente.”

06 de outubro de 2002, a conquista do título

Da Matta chegou a Miami com quatro corridas pela frente no campeonato para poder finalizar o campeonato. Sua vantagem para o segundo colocado da classificação, Bruno Junqueira, era de 58 tentos, pontuação superior a duas provas e meia (o máximo possível na época em uma corrida eram 23). Obviamente a posição era confortável para uma administração nas corridas finais. E isso era o que o mineiro dizia a si mesmo….

“Eu tinha essa margem de segurança. Mas lógico que tinha um lado que queria matar naquele dia. Eu falava para mim mesmo que pelo que eu tinha feito até aquele ponto, eu tinha que fazer o arroz com feijão. Mas na hora de entrar no carro, você perto de ganhar um dos principais títulos do automobilismo mundial, claro que eu estava nervoso. É o trabalho de sua vida inteira.”

“Eu tentava me convencer a ter calma e tudo, mas é difícil demais se controlar. Dentro do possível, eu até que consegui me enganar [risos]. Você tenta se enganar, mas chega antes da corrida… E a pista de Miami era estreita pra caramba. Aí você olhava aquela primeira curva, depois virar para o outro lado. Que bosta… Você começa a visualizar um monte de coisa.”

Da Matta fez uma corrida segura, assumiu a ponta na segunda metade da prova e partiu para a vitória mais importante de sua carreira no automobilismo. E teve seu momento para tentar entender o feito que tinha realizado enquanto muitos ainda estavam estasiados a sua volta.

“Teve uma coisa que nunca contei para ninguém: na hora do pódio, recebi aquele trofeuzão, o pessoal estava gritando, e na minha cabeça, vendo tudo aquilo, aos 29 anos, passou: ‘caramba, esse momento que estou passando vai mudar minha vida. Fiz um negócio diferente. Não é todo mundo que consegue não. Cheguei num ponto aqui que não é todo mundo. Sou um cara diferente.’”

“Era a visão no momento. E uma coisa te falo: estava certo. Aquele momento foi um negócio que realmente mudou a minha vida. Você passa a ter algo com você mesmo, foi algo que você buscou, trabalhou… Você se torna uma pessoa realizada, mais completa. Resolve um monte de dúvida sobre você próprio. Não só no esporte. Mas com outras experiências na vida. Você vê que as coisas que você pensa, que você faz, podem realmente te levar a um resultado. Você fica mais confiante. Isso tudo foi no pódio, abraçado com o troféu.”

da matta troféu 2002

A marca de um título

De forma sempre muito tranquila, Da Matta não esconde em nenhum momento da conversa o grande orgulhoso de seu feito, ao mesmo tempo que também mostra que absorveu a conquista em uma dimensão que extravasa a simples vitória esportiva.

Assim, ele traça paralelos de sua experiência no esporte a motor com a vida de qualquer profissional de outra área, como a sua própria hoje, na Da Matta Design, empresa fundada por seus irmãos Gustavo e Felipe, de criação de produtos de vestuário e acessórios para ciclistas.

“Aquilo tudo que eu passei, como escola para vida, você aprende o funcionamento do mundo, no geral mesmo. Eu vejo isso, trabalhando [hoje]com meus irmãos na empresa, eu vejo o funcionamento do mercado, de empresa, é quase tudo a mesma coisa. Se eu fosse um médico, eu teria que me esforçar para fazer as coisas de certa maneira, entender o mercado, fazer o trabalho de equipe, comunicação, tudo da mesma forma. ”

“Em uma equipe de corrida, tem a comunicação com engenheiros, mecânicos… O automobilismo é um esporte de equipe. Piloto é só um cara. É como quase tudo na vida. O piloto é o atacante, só ele faz gol, mas é muito difícil o atacante pegar a bola do seu campo e fazer o gol sozinho. Na vida, tudo é coletivo.”

A carreira profissional de Cristiano da Matta nas pistas praticamente acabou em 2006, quando ele sofreu um grave acidente em que atropelou um veado durante um teste na pista de Road America, em Elkhart Lake, nos Estados Unidos. Ele passou por um coma e cirurgias e surpreendeu os médicos com sua recuperação, apesar de não ter conseguido mais pilotar em alto nível com antes.

Hoje, aos 44 anos, com uma vida completamente diferente, se diz feliz, mas não esconde que a alma de piloto, que sempre quer uma novidade, um lugar novo, e estar à frente do desenvolvimento, nunca foi embora.

“Agora está fácil, mas até encaixar demora. A última coisa que você está acostumado quando você vem do esporte é rotina. Todo mundo no mesmo lugar, na mesma mesa… Que hora que vamos viajar aqui?”, brinca. “Agora, quando estamos desenvolvendo algo novo, uma bermuda, por exemplo, e tem que testar, eu já falo: ‘ah, deixa comigo’. Se tem que testar, depois já falo que dá para mudar isso, aquilo. Eu sou o primeiro a levantar a mão.”

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Martinho Franco

    Da Matta foi e continuará sendo um orgulho para nós mineiros.

  • Thiago José Silva de Carvalho

    Parabéns pela matéria. Gostava demais do Cristiano, era um piloto rápido e consistente. Estar vivo e bem foi outro título conquistado.

  • Franco

    Fizeram um documentário chique demais sobre a carreira da família Da Matta, tem no youtube: Família Gasolina, vale muito a pena, eles falam inclusive dessa temporada de 2002.

  • Carlos Alberto Junior

    Obrigado Santochi por mais uma ótima redação. Sempre bom conhecer mais sobre a historia dos nossos pilotos Brasileiros em suas categorias, ainda mais que na época a informação não era tão rápida e acessível para todos os fãs, então muita coisa não dava para acompanhar. Acho uma pena a Indy ter rachado nessa época, acho que não se recuperou por completo até hoje. Parabéns ao Cristiano da Matta pela carrera, ótima entrevista.

    Gratidão a equipe do projeto motor.