Damon Hill: o antipiloto que desafiou lógica para triunfar na F1 – parte 1

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Os poucos leitores que pararam para ler a descrição de cada membro do comitê editorial do Projeto Motor vão entender por que eu fui escolhido para escrever um artigo sobre os 20 anos do título de Damon Hill na F1. Cresci torcendo para o britânico, mais por simpatizar com as cores de seus carros e capacete do que necessariamente por considerá-lo o melhor da época.

Com o tempo, ao conhecer sua história de vida, passei a respeitá-lo ainda mais. Tenho leve gosto por ser do contra, o que significa que as inúmeras críticas que o filho do lendário detentor da tríplice coroa do automobilismo recebia me motivavam a tentar cada vez mais enxergar os valores positivos de sua carreira. Porém, sempre soube – e corroborei, ao ler sua autobiografia – que Damon Graham Devereux Hill se tornou piloto profissional mais por acidente (talvez teimosia) do que qualquer outra coisa.

Damon cresceu num ambiente em que respirava automobilismo, mas não demonstrava interesse em seguir carreira do pai. "Ele é inteligente demais para virar piloto", disse Graham certa vez numa entrevista
Damon cresceu num ambiente em que respirava automobilismo, mas não demonstrava interesse em seguir carreira do pai. “Ele é inteligente demais para virar piloto”, disse Graham certa vez numa entrevista

O próprio reconhece: “Se você quer um manual de como não formar uma carreira, minha história é perfeita”, diz, em dado momento do livro. É preciso reconhecer, todavia, a beleza de quem – ao contrário do que muitos jornalistas desinformados do meio dizem – precisou passar por muitos perrengues (muitos mesmo) e lutar contra o tempo até dar a sequência que a dinastia familiar merecia. Ser um campeão filho (ou parente próximo) de outro campeão é algo mais difícil do que parece. Nelsinho Piquet e Bruno Senna estão aí para atestar. Tanto que Hill é o único até agora a ter conquistado o feito, e Nico Rosberg tenta igualá-lo a duras penas.

Feito este singelo prefácio, iniciemos agora um especial em duas partes sobre como o inglês subverteu a lógica de formação de um automobilista convencional para conquistar a coroa máxima do esporte no GP do Japão de 1996, disputado em 13 de outubro daquele ano. Tentarei deixar o texto mais objetivo e menos idiossincrático possível. O objetivo aqui não é fazer com que o douto leitor valorize mais sua conquista. Longe disso. É apenas contar o caso de alguém que chegou ao pico do sucesso pelo meio mais heterodoxo possível.

Conforme o próprio ex-piloto afirmou em sua biografia: “Ser campeão de F1 é algo grande. As pessoas não esquecem e isso te define. Você vai ser apresentado como ‘campeão mundial’ mesmo 20 anos depois. Isso é muito legal, mas não conta toda a história sobre quem você é”.

O pequeno Damon ajuda o pai a empurrar Jim Clark em um trator de brinquedo, durante festa de comemoração da vitória de Graham Hill nas 500 Milhas de Indianápolis. À direita a mãe, Bette, faz um brinde
O pequeno Damon ajuda o pai a empurrar Jim Clark em um trator de brinquedo, durante festa de comemoração da vitória de Graham Hill nas 500 Milhas de Indianápolis. À direita a mãe, Bette, faz um brinde

Por que um “antipiloto”

Apesar de ter crescido no ambiente das competições nos anos 60, Damon Hill tinha tudo para não querer saber de F1. Detestava o ambiente de badalação e, ainda, ressentia-se do distanciamento que a carreira do pai proporcionava em relação à família. Chegou ao ponto de, após a morte de Graham num trágico acidente de avião, em novembro de 1975, renegar as competições de quatro rodas – muito embora mantendo acesa a chama da paixão pela velocidade, através das competições de moto. Recusou, por exemplo, um convite compassivo de Enzo Ferrari para conhecer a sede da icônica Scuderia, em Maranello, no início de 76.

Hill filho se tornou profissional sem saber se queria mesmo isso de sua vida. O sobrenome, de certa forma, o ajudou a manter um elo com as pistas que, eventualmente, acabou puxando-o de vez. “Durante minha carreira, sempre fiquei em dúvida sobre se eu era um piloto de verdade ou alguém que tinha uma missão a cumprir antes de me tornar eu mesmo”, confessa n’outra passagem da publicação.

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Também é preciso dizer que Hill se formou piloto muito tarde e estava longe de ter a autoconfiança que um ás formado desde a tenra infância tem. A ausência do pai explica esse comportamento de maneira contumaz. “Eu demonstrava habilidade, mas não tinha paciência para aprender. Também não fazia ideia de como conseguir contratos, patrocínio ou nada do tipo. Precisava ter recebido conselhos do meu pai”.

A carreira sobre quatro rodas começou, de fato, em 1985, já aos 25 anos e sem ter qualquer tipo de experiência no kart. Ser talhado desta forma explica muito sobre atitudes e erros que ele cometeria dentro da F1. Damon foi alguém que teve tudo, tudo mesmo, para fracassar de maneira vexatória em seu intento, mas que, por persistência própria e alguns golpes de sorte, acabou chegando lá.

A vida pré-F1 sobre duas rodas

Hill a bordo de sua Yamaha TZ 350 em Brands Hatch. Foi com esta máquina, comprada com salário de motoboy, que ele conquistou o único título da carreira além da F1
Hill a bordo de sua Yamaha TZ 350 em Brands Hatch. Foi com esta máquina, comprada com salário de motoboy, que ele conquistou o único título da carreira além da F1

Sim, o fato de ser filho de quem é proporcionou alguns “empurrões” a Hill, o qual citaremos ao longo do artigo. Porém, sua família jamais teve condições de bancar a carreira, muito porque Graham deixou nada além de dívidas quando faleceu. Um exemplo é que, para financiar a carreira no motociclismo, Damon teve de trabalhar em diversas profissiões braçais: peão numa plantação de batatas; motorista de colheitadeira num milharal; pedreiro em obras de construção civil; e motoboy em Londres, profissão que exerceu entre 1981 e 85.

Sua primeira experiência em velocidade foi com minimotos, ainda quando criança. Em 77, já perto da maioridade, assistiu a uma corrida de motocicletas em Brands Hatch, convidado pelo ex-F1 Peter Gethin. Decidiu que queria se tornar o “novo Barry Sheen”. Começou a praticar motortrial e ali, garante, adquiriu habilidade para lidar com situações adversas como provas na chuva.

Foi só em 81, já aos 21, que disputou seu primeiro campeonato: a divisão amadora da Yamaha ProAm Series, a bordo de uma TZ 350 comprada com o dinheiro que ganhava como entregador. Abaixo há um raro vídeo que mostra Hill em ação numa etapa de Donington Park, em 82, com direito a uma entrevista na qual ele afirma, categoricamente, que não cogitava trocar as motos pelos carros.

Seu primeiro momento de sucesso ocorreu na temporada de 1984, quando se tornou campeão da classe 350 cc do Moto Clube de Brands Hatch, vencendo todas as baterias disputadas. Também faturou duas etapas do Campeonato Nacional de 350 cc, em Brands Hatch e Snetterton, sempre usando sua cada vez mais exigida TZ 350. Ali Hill constatou o que seu sexto sentido dizia, mas sua cabeça teimava em acreditar: ele também poderia ser um vencedor.

A transição para as quatro rodas

Apesar da preferência pelas motocicletas, Hill nunca fechou totalmente as portas para as corridas de carros. Em meados de 1979 passou algumas semanas na Califórna (Estados Unidos), a convite do mito Dan Gurney, para participar de uma oficina sobre automobilismo na sede da não menos lendária All American Racers.

Quatro primaveras mais tarde, aceitou proposta de Mike Knight, comandante da antiga Escola Elf e então dono da escola de pilotagem Winfield, para participar de um curso de especialização em monopostos. “Não sabia nada na época e aceitei mais na brincadeira. Sequer levava as aulas a sério”, conta. Ainda assim, adaptou-se rapidamente ao chassi Martini da F-Renault 2.0 e passou por todas as etapas da peneira até chegar ao grupo final.

Hill puxando a fila da F-Ford 1600, em 1985
Hill puxando a fila da F-Ford 1600, em 1985

Confiante no progresso apresentado, resolveu adentrar o grid de uma etapa do campeonato de inverno da F-2000, com um chassi Argo. Esta seria sua primeira competição oficial sobre quatro rodas. O resultado foi catastrófico: sem experiência alguma, andou sempre em último e teve de aprender na marra até como se sofre um acidente. “Quando você bate, não se solta de um carro de corridas , como numa moto. A desaceleração também é diferente, porque um carro tem mais massa. Tive de aprender a lidar até com isso”, revela.

Tornar-se campeão nas motos abriu novas portas a Hill. Com apoio da empresa de fotocópias Ricoh Copiers, foi chamado a correr na F-Ford 1600 em 1985. Conseguiu bom desempenho, terminando o certame em terceiro e registrando seis triunfos. “Fiz isso em partes pela curiosidade e desejo de tentar seguir os passos do ‘velho’, mas mais porque precisava seguir uma carreira e o automobilismo oferece mais oportunidades do que o motociclismo”, admite.

Confira abaixo um raro material de 10 minutos da estatal britânica BBC, gravado em 1984, sobre os primeiros passos de sua carreira nos monopostos:

Hill conseguiu, enfim, deixar o trabalho de motoboy para se dedicar exclusivamente ao esporte a motor a partir de 86. Para isso contou com ajuda inesperada de um mecenas chamado George Harrison (ele mesmo, o beatle), que resolveu bancar metade das 150 mil libras necessárias para que subisse à F3 Britânica pela West Surrey, a mesma esquadra que formou Ayrton Senna. O plano mudou quando, em fevereiro daquele ano, um acidente fatal sofrido por Bertrand Fabi em Goodwood fez a equipe abdicar da temporada. Fechou então com a Murray Taylor e realizou campanha discreta, com apenas uma pole. Sentia, mais uma vez, a falta da formação adequada.

Foram necessárias três temporadas na F3 Britânica para aprimorar pilotagem
Foram necessárias três temporadas na F3 Britânica para aprimorar pilotagem

Seguiu na F3 por mais duas estações a fim de ganhar cancha. Conseguiu, enfim, coletar algumas vitórias e se colocou em terceiro na tábua do campeonato de 88. Também foi nesse período que protagonizou seu primeiro teste num F1, pilotando o Benetton B187 de Teo Fabi e Thierry Boutsen em Paul Ricard. Chorou ao fim da última rodada daquele ano, por dois motivos: primeiro, porque via os jovens conterrâneos Martin Donnelly e Johnny Herbert subindo mais rápido na carreira, enquanto ele, já próximo aos 30, seguia empacado. Segundo, porque não tinha dinheiro para dar sequência à carreira.

Primeira experiência de Hill com um F1 foi testando o Benetton B197 em Paul Ricard, no ano de 88
Primeira experiência de Hill com um F1 foi testando o Benetton B187 em Paul Ricard, no ano de 88

Assim sendo, Hill passou o ano de 89 marcando presenças esporádicas em provas que lhe rendessem algum vintém: Copa Saab (onde chegou a vencer); BTCC (ao lado de Sean Walker); 24 Horas de Le Mans (a bordo de um Porsche 956 do time de Richard Lloyd); e F3000 Britânica. Também atuou como piloto de testes da Footwork na F3000 Internacional e aproveitou o tempo ocioso para praticar kart indoor, numa tentativa de preencher esta inexorável lacuna na carreira.

Foi então que um amigo acabou sendo decisivo para os rumos de sua vida: Mark Blundell ajudou Hill a dar dois passos importantíssimos rumo à F1. O primeiro ocorreu em 1990, quando o compatriota indicou Damon para ser seu substituto na Middlebridge, da F3000 Internacional.

Tendo em mãos o veloz porém frágil conjunto Lola-Cosworth, Hill teve oportunidade de mostrar velocidade (foram três pole positions e duas voltas mais rápidas). Porém, falta de confiabilidade e certa dose de azar e afobação tiraram dele a chance de faturar pelo menos três baterias – os casos mais emblemáticos são o de Silverstone, em que ponteava até sofrer um estouro num dos pneus traseiros, e de Hockenheim, quando rodou sozinho na liderança. Seus únicos pontos marcados vieram de um segundo lugar em Brands Hatch. De resto, só abandonos.

Hill competiu na F3000 por duas temporadas e mostrou ótima forma em 1990. No ano seguinte, o fraco chassi Lola o deixou na mão pela equipe de Eddie Jordan, que comprara a antiga Middlebridge
Hill competiu na F3000 por duas temporadas e mostrou ótima forma em 1990. No ano seguinte, o fraco chassi Lola o deixou na mão pela equipe de Eddie Jordan, que comprara a antiga Middlebridge

O segundo grande passo veio em 91: Blundell estava deixando o posto de reserva da Williams para virar titular da Brabham e, novamente, sugeriu que Hill fosse contratado para seu lugar. Mal sabiam ambos que, ao fazer isso, Mark entraria num calvário e abriria oportunidade ímpar para que Damon encontrasse definitivamente o caminho rumo à glória. A sequência desta história, porém, fica para a segunda e última parte do especial, na semana que vem. Até lá!

Assista ao GP do Japão de 1996 (em português, parte 1 de 9):

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.