Damon Hill: o antipiloto que desafiou lógica para triunfar na F1 – parte 2

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Na primeira parte do especial sobre a carreira de Damon Hill, cujo título mundial da F1 completou 20 anos na semana passada, o Projeto Motor explicou como o bretão seguiu um caminho deveras tortuoso até alcançar a F1. Mesmo sem praticamente nenhum apoio familiar, sem experiência no kart e tendo começado sua carreira nos monopostos de maneira efetiva aos 25 anos, mostrou relativa habilidade e deu um bocado de sorte para, em 1991, encontrar-se numa das posições mais privilegiadas do automobilismo mundial: piloto reserva da Williams.

Sua primeira experiência a bordo do tecnológico FW14, que quase levou Nigel Mansell ao título daquela estação em duelo com Ayrton Senna, ocorreu em meados do ano, numa configuração encurtada do autódromo de Silverstone. “Foi maravilhoso. Fiquei inebriado e amei cada segundo. Quando voltei aos boxes, Patrick [Head, diretor técnico da equipe] me perguntou o que eu achei. Respondi: ‘Fantástico! Muito bom’. Mas o que ele queria era uma crítica. Meu trabalho passou a ser esse: criticar o o melhor carro que eu já havia pilotado”, conta o ex-piloto em sua autobiografia.

Hill testando o Williams FW13B em 1991
Hill testando o Williams FW13B em 1991

Tido como um ás de boa sensibilidade ao acerto de um bólido, Hill fez o trabalho sujo ao qual Mansell e Riccardo Patrese não eram muito afeitos: ajudar a desenvolver todos os aparatos eletrônicos do que viria a ser o diamantino FW14B, que tanto assombrou a categoria. Paralelo a isso, a Middlebridge, sua casa de dois anos atrás na F3000 e nova dona da moribunda Brabham, convidou-o para substituir a inescrutável Giovanna Amati quando o dinheiro levado pela italiana parou de cair na conta da escuderia.

Primeiro GP de Hill foi o da Inglaterra de 92. Largou e terminou em útimo, a quatro voltas do vencedor Mansell
Primeiro GP de Hill foi o da Inglaterra de 92. Largou e terminou em útimo, a quatro voltas do vencedor Mansell

Estreou oficialmente na F1 no GP de San Marino de 92, a bordo do terrível BT60B equipado com motor Judd. Saía do melhor carro do planeta para pilotar um dos piores do grid. “Eu mal cabia no habitáculo. Meus braços batiam na carenagem e minhas pernas enroscavam no câmbio e bloqueavam o engate das duas primeiras marchas. Eu só conseguia usar da terceira até a sexta. Apesar de todos esses problemas, era estranhamente empolgante pilotar um carro não-competitivo”, narra.

O resultado, dentro das limitações, foi positivo: Hill classificou o BT60 para as duas últimas aparições oficiais da Brabham em Grand Prix, as etapas de Silverstone e Hungaroring (uma pista que, posteriormente, ele demonstraria entender como poucos). Se o desempenho contou na decisão nem o próprio sabe, mas o fato é que, com o veto de Alain Prost a Mansell (que, em reação, trocou a F1 pela Indy) e a ida de Patrese para a Benetton (o italiano acreditava que iria “sobrar” nesse imbróglio e preferiu não aguardar uma definição do time), Hill se viu como um dos favoritos à vaga de segundo piloto da Williams para 93. Suas vantagens: conhecia bem os métodos de trabalho, o carro e os sistemas eletrônicos; mais do que isso, era uma opção extremamente barata.

Primeira vitória foi conquistada no GP da Hungria de 93
Primeira vitória foi conquistada no GP da Hungria de 93

Foi com este voto de confiança – que significou boa economia em dinheiro para o sempre avarento Frank Williams -, porém cheio de ceticismo por parte de imprensa e demais membros do circo, que “Damião” se tornou parceiro de um dos maiores nomes do esporte a motor, pilotando um dos conjuntos mais fantásticos já criados. O que pouca gente sabe é que foi Hill quem, por ser amigo de um funcionário da área de marketing da companhia, ajudou a Williams a fechar um memorável acordo de patrocínio com a Sega para 93.

O começo foi um tanto atribulado, mas Hill se estabilizou aos poucos e fez uma campanha digna, com três vitórias e várias apresentações em nível similar (por vezes superior) às do futuro tetracampeão francês. Só não foi vice-campeão porque Senna, no auge de seu auge, não permitiu. Mas passou longe do desastre que alguns previam.

Veio 94 e Hill conseguiu contrato um pouco mais vantajoso para seguir exercendo a função de “segundo representante”, desta vez tendo como companheiro ninguém menos do que o próprio Senna. Quer dizer… Era para ser assim. O meteoro do fatídico GP de San Marino devastou os alicerces da Williams e, repentinamente, o inglês se viu com a responsabilidade de reerguer uma operação estraçalhada. “Quando Ayrton morreu, vi-me inesperadamente como um líder lutando contra um tal de Michael Schumacher. Dei tudo de mim e mais um pouco, e nunca tive dúvidas de minhas habilidades. A questão era: o quanto eu era bom?”, rememora.

Hill é cumprimentado por Schumacher após inesperada e brilhante vitória no GP do Japão de 94. Inglês considera esta sua opus magnum na F1
Hill é cumprimentado por Schumacher após inesperada e brilhante vitória no GP do Japão de 94. Inglês considera esta sua opus magnum na F1

, Em seu livro Hill alterna citações de autoconfiança com outras que colocam em dúvida seu potencial. Este é um grande sinal do quanto a cabeça era seu maior algoz. Hill conseguia, por vezes, atuações brilhantes e bastante seguras – tais quais o GP do Japão de 94 e Argentina de 95, mas jamais mantinha um nível elevado o suficiente para brigar de frente com um cara como Schumacher de maneira regular. “Michael me obrigou a buscar seu nível, mesmo que eu tenha conseguido isso só por alguns momentos”, admite num passagem. “Ninguém é invencível. Alguns só são mais difíceis de bater do que o resto”, afirma, ainda sobre o alemão, em outra.

Tal dicotomia, entre acreditar que poderia vencer mas não ter certeza se tinha nível para tanto, levou Hill a um colapso mental na segunda metade de 95, quando viveu um dos piores momentos da carreira. “Eu sentia que estava dando minha vida por eles [Williams], mas não recebia nenhum reconhecimento. Patrick um dia me disse: ‘O ponto, Damon, é que você anda sempre de cabeça baixa e nunca parece feliz. Isso afeta o ambiente do time’. No fundo a questão não era meu desempenho: era minha falta de estilo e carisma. Eles queriam um cara como Mansell, alguém que contagiasse a equipe ao demonstrar uma confiança suprema”.

Na biografia, Hill reconhece que deveria ter sido “menos sério” diante daquela situação. “Eu levava as provações de Michael e as críticas de Patrick e Frank muito para o lado pessoal. Se pudesse voltar atrás e me dar um conselho, diria: ‘Relaxe. Aprecie mais o jogo e não leve as coisas para fora de suas proporções. No fim das contas isso é só um campeonato de F1″. No fundo o que o inglês tenta dizer – e aí cabe a cada um julgar se está certo ou não – é que nunca lhe faltou talento: faltava psicológico de campeão, o que gerava situações como esta:

Para ele, a conquista de 96 só foi consumada porque houve uma mudança brusca em sua preparação mental e física. “Frank e Patrick ficaram impressionados em como eu estava mudado”. O título, porém, não veio sem algum sofrimento diante do estreante Jacques Villeneuve, embora Hill tenha assegurado no livro que “sentia que tinha controle sobre o ímpeto e a velocidade” do canadense.

Apesar da volta por cima, a Williams já não o queria mais e Damon ficou sabendo de sua dispensa por meio de um reportagem na revisa Autosport. “Muitos dizem que o problema foi o dinheiro, mas jamais cheguei a negociar um novo contrato com Frank. Se ele tivesse me oferecido o mesmo salário que eu ganhava, mais um bônus pelo título, eu aceitaria na hora”, argumenta.

Hill recebe quadriculada do GP do Japão de 96, confirmando o tão sonhado título mundial
Hill recebe quadriculada do GP do Japão de 96, confirmando o tão sonhado título mundial

Sem emprego e com o número 1 praticamente assegurado debaixo do braço, Hill fechou com a Arrows para 97. Apesar de ver potencial no projeto liderado por Tom Walkinshow e John Barnard, e ter tido alguns espasmos de brilhantismo como no GP da Hungria e na classificação para a rodada decisiva em Jerez, o britânico sabia que aquela era uma fase de transição. Sua meta era seguir os passos de Adrian Newey e se juntar à McLaren em 98.

“Adrian me queria, mas Ron [Dennis] era reticente por conta da minha idade. Quando Ron me ligou para negociar, ofereceu um contrato por desempenho em que eu ganharia 1 milhão de libras por corrida que vencesse, e mais nada. Não existia salário. Fiquei ofendido, mandei um “obrigado, mas não quero” e desliguei o telefone sem nem dar tchau. Depois me arrependi de sequer ter sido mais maleável e feito uma contra-proposta, mas o estrago já estava feito”, relembra. Lá estava a falta de traquejo para lidar com as armadilhas da F1 novamente mostrando suas garras.

Com as portas fechadas em Woking, Hill chegou a receber ofertas generosas de Sauber e Arrows, mas acabou optando pela Jordan, mesmo com remuneração um pouco menor. Em toda sua carreira este foi o primeiro contrato assinado por ele que valia por mais de um ano. Damon também sabia que seria o último. “Tendo visto meu pai sofrer no fim da carreira, prometi a mim mesmo que não continuaria depois dos 39″, conta.

Sua grande contribuição à Jordan foi transformar a filosofia de trabalho: usando o que aprendeu na Williams, Hill incutiu na cabeça dos dirigentes novos métodos de desenvolvimento. “Na pré-temporada eles gostavam de treinar com o carro leve logo de cara para atrair patrocinadores, o que dava aos engenheiros a falsa impressão de que estavam fazendo um ótimo trabalho. Na Williams era o contrário: treinávamos sempre pesados e fazíamos um trabalho progressivo”. N’outra ocasião, após se classificar em terceiro para o famoso GP da Bélgica, recusou-se a ir a um evento promocional no sábado à noite para trabalhar em acerto e estratégia de corrida. “Eddie ficou muito irritado, mas consegui me redimir vencendo a prova. Ali pensei: ‘É para isso que você está me pagando, Eddie!'”.

Se 98 foi uma temporada de afirmação como piloto de ponta, o ano seguinte se mostrou catastrófico para Hill. “Algo passou a me faltar e isso é um frustrante mistério”, reflete. Chegou a cogitar que a equipe o estivesse sabotando, já que aquele seria seu último ano de contrato. “Quando um piloto vai mal, tenta encontrar qualquer desculpa para não admitir que o problema é ele mesmo”.

Após passar um dos maiores vexames da carreira no GP da França, vencido pelo companheiro, Heinz-Harald, Frentzen, decidiu que era hora de parar: propôs a Eddie Jordan que o GP da Inglaterra fosse seu último, mas este, insatisfeito com os resultados, tentou substitui-lo de imediato. Quem barrou o desejo do comandante foi a patrocinadora Benson&Hedges, que queria Damon correndo em seu GP doméstico. Em retaliação, Jordan obrigou-o a cumprir o contrato até o final, e as consequências foram muito ruins para a complicada cabeça de Hill.

99: uma temporada de pesadelos para Hill
99: uma temporada de pesadelos para Hill

Sem vontade de continuar, porém com medo das implicações financeiras de romper o contrato de maneira antecipada – tormentos do fantasma do pai que morreu sem deixar nada para a família -, Hill passou a sofrer crises de ansiedade, que posteriormente se transformaram em depressão e ataques de pânico.  “Quando Schumacher quebrou as pernas no GP da Inglaterra, passei a temer que o mesmo fosse acontecer comigo. Minha única preocupação era terminar a temporada sem me machucar e deixar minha família na mão, assim como meu pai”.

Discreta despedida no GP do Japão de 99, ao lado de todos seus chefes de equipe na F1: Tom Walkinshaw, Frank Williams, Herbie Blash e Eddie Jordan
Discreta despedida no GP do Japão de 99, ao lado de todos seus chefes de equipe na F1: Tom Walkinshaw, Frank Williams, Herbie Blash e Eddie Jordan

A situação piorou no GP da Europa, quando uma falha no controle de largada do 199 ocasionou um acidente com direito a espetacular e seríssima capotagem sofrida por Pedro Paulo Diniz. “Na hora pensei: ‘puta merda! Eu o matei!'”. No voo de volta desse para a Inglaterra, outro grande susto: uma pane forçou o avião a fazer um pouso forçado. Tudo conspirava contra naquele momento. “Quando chegou o GP do Japão, senti que não conseguia mais fazer aquilo. Abandonei a prova no meio simplesmente porque não dava mais. Quando um piloto corre com medo, é hora de parar”, explica.

Da maneira mais melancólica possível, portanto, Damon Hill encerrou uma carreira que mais pareceu uma montanha-russa: repleta de altos e baixos. Longe de ser uma unaminidade, inclusive para si mesmo, o filho do eterno Graham Hill mostrou por vezes o quanto podia ser bom, e o quanto podia se autossabotar. Terminou como campeão mundial de F1, algo notório e que ninguém mais vai tirar de si. Talvez seja essa conquista, mais do que a herança familiar, o que dê a liga necessária para fazer com que sua vida como piloto tenha tido o mínimo de sentido.

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Rafael Schelb

    Impressionante como eu me identifiquei com ele. Caramba… rsrs

  • Pablo Habibe

    Muito bom mesmo. Hill tem uma história de vida incrível e é um caso raro de campeão humano.

  • Jamerson Ferreira

    Gente, que texto!

  • Dox

    Que falta fez Graham na vida de Damon.
    Por esta importância do pai que tenho a posição de que quem deve cumprir pena por um crime de um menor deva ser o pai do moleque, pelo que (não) construiu.
    Digamos que, se Graham não tivesse morrido, Damon poderia ter sido muito mais, começando antes dos 25.
    Alem desses problemas esportivo-psicológicos, acho que já vi algo sobre ele ter um filho com algum problema sério de saúde.

    • Leonardo Felix

      Olá, Dox, tudo bem? Sim, o primeiro filho do Hill tem síndrome de down. Ele virou meio um embaixador da causa.

      Abraços!

  • Lendo esse texto e o anterior, talvez seja essa falta de autoconfiança plena do Hill o fator determinante para muita gente graúda encará-lo como o campeão mais fraco dos últimos 20 ou 25 anos.

    Em off: me impressiona como foi rápida e enorme a queda da Brabham entre o glorioso início dos anos 80 e o começo dos anos 90. Não sei o que aconteceu, tem alguma matéria a respeito?

    • Leonardo Felix

      Tudo bem, Jambeiro?

      Ainda não fizemos, mas é uma ótima ideia um texto sobre a decadência da Brabham. Vamos fazer em breve.

      Obrigado e abraços!

      • Denis Barbosa de Lima

        Concordo plenamente a Brabham tem uma historia muito marcante na F1.

    • Rafael Schelb

      Eu diria que a saída do Piquet e o desinteresse do Bernie na equipe foram fatores crucias, embora, obviamente, não tenham sido os únicos.