Dança das cadeiras dos motores é a que importa para F1 de 2016

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Há algumas semanas, a incerteza sobre quem ocuparia o segundo habitáculo da Ferrari em 2016 efervescia as especulações sobre o mercado de pilotos da F1. Enquanto o finês era dado como carta praticamente fora do baralho em Maranello, jornalistas do setor apontavam o compatriota Valtteri Bottas como nome mais cotado a ser seu substituto. Tudo mudou no fim do mês passado: numa tática só que deve ser totalmente compreendida em 2017, a esquadra italiana renovou com o campeão mundial por mais uma temporada, bloqueando todo o efeito dominó que sua saída proporcionaria.

Com o fico de Raikkonen, a Williams não tardou em anunciar a permanência de Bottas, mantendo-o como companheiro de Felipe Massa pelo terceiro ano consecutivo. Lewis Hamilton e Nico Rosberg formam a dupla que a Mercedes sempre quis – especialmente porque a condição de primeiro e segundo volante estão mais bem definidas agora -, e está difícil imaginar que a Red Bull vá dispensar Daniel Ricciardo ou a boa revelação Daniil Kvyat. Até a Sauber, numa atitude incomum para uma escuderia de menor porte, anunciou com surpreendente antecedência a sequência de Felipe Nasr e Marcus Ericsson para o ano que vem.

Ao renovar com Ferrari, Raikkonen bloqueou o fluxo do mercado de pilotos; o pior: ele não está nem aí para isso
Ao renovar com Ferrari, Raikkonen bloqueou o fluxo do mercado de pilotos; o pior: ele não está nem aí para isso

Nico Hulkenberg renovou com a Force India, e é provável que Sergio Pérez também siga por lá. Na Lotus, o cenário é mais sombrio, mas não há por que não segurar o cada vez mais confiável Romain Grosjean. Pastor Maldonado, como sempre, depende do nível de saúde financeira para fazer valer o peso dos pesos da PDVSA. Restaram, portanto, os assentos nas pequeninas Manor e Haas. Essas são as grandes incógnitas, mas convenhamos: ninguém liga muito para elas, tampouco para quais automobilistas ocuparão seus assentos e disputarão as últimas colocações da grelha.

Em um cenário tão estável (para não dizer “chato”), quase não se tem falado mais sobre a tal dança das cadeiras da F1. A “bola da vez” é especular acerca de… motores. Nunca os nomes de Cyril Abiteboul, Andy Cowell e Mattia Binotto estiveram tão em evidência, e talvez isso seja o maior reflexo de que faltam novidades bombásticas em outros setores da categoria.

De qualquer forma, que bom que haja ao menos uma silly season fervendo. Melhor do que não ter nada para se falar sobre. Por isso é até importante fazermos um agradecimento à Red Bull. Não fosse a arrogância e a impaciência dos tetracampeões mundiais, insatisfeitos com os infindáveis problemas nas unidades motrizes da Renault (pistões, eixo de metal da bomba d’água do ERS e afins), provavelmente o noticiário não teria o que dizer nos intervalos entre os GPs.

Abiteboul, da Renault, e Horner, da Red Bull: desgaste levou a rompimento
Abiteboul, da Renault, e Horner, da Red Bull: desgaste levou a rompimento

Pois bem… as inúmeras críticas contra a parceira francesa azedaram uma bem-sucedida relação a ponto de, no fim de semana do GP da Itália, o site da revista bretã Autosport cravar que ambas partes já acordaram um rompimento após o término da estação. Entretanto, o histórico vencedor e a má fama de ser muito exigente com seus fornecedores teriam levado a Mercedes, com quem o time de Christian Horner tentava negociar, a desistir de qualquer negócio.

Sobrou à marca de bebidas energéticas apelar à grande rival Ferrari, algo que o Projeto Motor já explicou neste artigo aqui. Até porque a McLaren, parceira da Honda, teria poder de veto sobre qualquer intenção de união entre a montadora japonesa com alguma concorrente. É o que explica este texto do site do canal inglês BBC. Caso o acordo com a Ferrari, é improvável que a subsidiária Toro Rosso não siga o mesmo caminho.

Lotus, que já foi Renault de 2002 a 2010, pode voltar a ser time oficial
Lotus, que já foi Renault de 2002 a 2010, pode voltar a ser time oficial

Desfeito este nó górdio, resta saber qual será a movimentação da Renault. Ao perder Red Bull e Toro Rosso, a marca do losango ficaria sem nenhum cliente para 2016. Horner, contudo, garante que será uma questão de “poucas semanas” para que a fabricante confirme a (re)compra da Lotus, (re)assumindo o controle da operação em Enstone já em 2016. Especulações mais recentes dão conta de que os franceses, na verdade, esperariam até 2017 para ressurgir como equipe oficial, aproveitando o próximo ano para reestruturar, debaixo dos panos, a complicada estrutura da esquadra aurinegra. Em segundo plano, caso tudo isso dê errado, há negociações secundárias para adquirir a Force India.

Alguns fãs hão de rememorar notícias sobre uma possível compra da Toro Rosso, mas esta movimentação parece ter arrefecido. Emburrecida com a Red Bull, a Renault deixou a escuderia ítalo-austríaca chupando o dedo nas conversas. O próprio chefe Franz Tost admitiu isso: “Eles preferiram comprar outro time”, disse o dirigente em entrevista ao site oficial da F1.

Nesse ínterim está a cada vez mais conturbada relação entre McLaren e Honda. Não que exista qualquer sinalização de que as duas vitoriosas parceiras vão se separar, mas começou a ficar nítido que o fiasco da campanha em 2015 está causando atritos à relação. Segundo a imprensa britânica, Ron Dennis teria escrito pessoalmente uma carta ao presidente da companhia oriental, Takahiro Hachigo, pedindo a demissão do diretor esportivo Yasuhisa Arai, que tem dado constantes declarações tentando tirar do motor nipônico o peso pelos fracassos recentes. Não dá para saber até onde o caldo pode aguentar antes de azedar de vez.

Até a Manor entrou na festa, com rumores de que vai trocar Ferrari por Mercedes
Até a Manor entrou na festa, com rumores de que vai trocar Ferrari por Mercedes

Por fim, a Manor tenta amarrar uma estratégica mudança da Ferrari para a Mercedes. De tudo isso, tirando a “sinuca de bico” da Red Bull, que parece não ter saída a não ser se aceitar como cliente da Ferrari, o restante do cenário ainda se encontra bastante nebuloso. Não, não é tão emocionante quanto especular para onde vai o seu ás favorito do grid, mas ao menos fica o alento de saber que o motor, diante do atual regulamento, tem sido um ponto muito sensível à ordem de forças do certame. Se a silly season de pilotos está tão morna, melhor especular sobre Renault, Abiteboul,  Mercedes e Ferrari do que não ter nada para dizer…

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Gustavo Segamarchi

    EXCELENTE matéria, de novo!

    Olha, eu penso que a Red Bull deveria continuar com a Renault, viu!

    Mais cedo ou mais tarde, os motores franceses vão melhorar e com certeza, ainda vão chegar ao nível dos Mercedes. O que não vi ser citado na matéria, foi que a Renault investiu menos do que a Mercedes no começo do desenvolvimento desses motores, e sem contar que a Renault começou o projeto mais tarde, também.

    Vocês já falaram aqui, que a Renault tem o dever moral de ficar na F1, pois, foi ela que ficou pressionando a FIA para inserir esses motores alegando que iriam sair se isso não fosse inserido.

    Concordo com vocês, a Renault tem que ficar e mostrar serviço. Outra coisa que pouco se fala, é que a Renault ainda não usou todas as suas fichas de desenvolvimento para a Red Bull e Toro Rosso. Tenho um raciocínio, mas não sei se faz sentido. Vejamos:

    Acredito que a Renault esteja guardando essas fichas de desenvolvimento para que possam voltar com tudo em 2017, que é quando muda o regulamento na área de motores.

    Mas, enfim, eu gostaria muito de ver a Renault retornando como equipe de fábrica(NUNCA deveria ter saído). Outra coisa, o Tio Bernie ”prometeu” que se a Renault Voltasse como equipe de fábrica, ele pagaria pelo contexto histórico da equipe e pelos títulos de 2005 e 2006.

    Só nos resta esperar.