Das provações ao encaixe total: como Hakkinen entrou no Olimpo dos campeões da F1

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Primeiro de novembro de 1998. No GP do Japão, Michael Schumacher fazia corrida de recuperação frenética depois de largar do fundo do grid e já ocupava o terceiro lugar. Mas, ao fim da longa reta de Suzuka, na abertura da 32ª volta, seu carro é cercado por fumaça: o pneu traseiro direito havia estourado, e a distância para os boxes impossibilitou qualquer chance de reparos. Acabava ali o sonho do alemão de conquistar seu primeiro título com a Ferrari.

A cena foi simbólica e decisiva, mas Schumacher não foi o protagonista da história naquele dia. Com o abandono do ferrarista, Mika Hakkinen garantia matematicamente o título mundial de 1998 e se tornava o 27º campeão da F1.

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Por mais que tenha se tratado de uma temporada praticamente impecável para o ás da McLaren, a trajetória até aquele momento foi conturbada. Hakkinen precisou passar por diversas provações antes de entrar no seleto rol dos campeões.

Antes de se tornar um dos grandes nomes da F1 dos anos 90, o finlandês teve de espantar a pecha de “promessa que não vinga”, já que foi em sua época o piloto que mais largadas teve antes de vencer (96) e o segundo com mais corridas antes de ser campeão (112, menos que somente Nigel Mansell).

O finlandês de Vantaa, dos arredores da capital do país, Helsinque, despontou como potencial estrela ainda nas categorias de base. Um ponto fundamental para o desenvolvimento de sua trajetória foi a aquisição do apoio da Marlboro, quando se sobressaiu em uma seletiva supervisionada por nomes como Ron Dennis e James Hunt.

O título da prestigiada F3 Inglesa, em 1990, colocou Hakkinen na inevitável rota da F1. O que representou o primeiro obstáculo de sua passagem pela principal categoria do automobilismo foi o fato de estar nas equipes certas, mas em um momento longe do adequado.

O caminho de Lotus à McLaren emula os passos que Ayrton Senna havia feito poucos antes para chegar ao topo. A fase de ambos os times, porém, era outra: a primeira vivia seus últimos momentos de competitividade mínima antes da falência, enquanto que a segunda enfrentava um duro momento de transição e de vacas magras.

Hakkinen liderou projetos que não trouxeram o sucesso esperado

O crescimento de Hakkinen até a formação de um piloto de ponta aconteceu em paralelo com a recuperação da McLaren na era pós-Honda. Durante as parcerias com Ford (1993), Peugeot (1994) e Mercedes (1995 em diante), Hakkinen assumiu gradativamente a posição de protagonista nas internas, mas sem que isso fosse convertido necessariamente em resultados mais fortes.

A velocidade sempre existiu, mas faltava a consistência necessária para atingir o topo. Por um lado, houve eventos como o GP de Portugal de 93, quando superou Senna em sua primeira classificação pela McLaren, o GP do Japão do mesmo ano, quando foi ao pódio, ou as provas de Ímola e Barcelona em 95, quando bateu contundentemente o campeão Mansell – que, é verdade, já vivia seus últimos dias na F1.

Mas, por outro, houve temporadas de oscilação, especialmente em momentos em que viu sua hegemonia interna ser contestada com o crescimento de David Coulthard. As peças ainda precisavam se encaixar.

Os obstáculos do amadurecimento de Hakkinen, porém, foram além de performances complicadas na pista ou de carros incapazes de vencer. O finlandês teve de se reinventar, inclusive em sua vida pessoal, com o terrível acidente que sofreu nos treinos para o GP da Austrália de 95, que o deixou em coma. O episódio, porém, ajudou Hakkinen a mudar sua perspectiva e encarar sua profissão com outros olhos – como mostraremos mais abaixo.

Para 98, as peças se encaixaram. Primeiro porque a própria McLaren enfim reencontrou a boa forma: o modelo MP4/13 era uma obra de arte. Em seu primeiro projeto pelo time, Adrian Newey utilizou alguns elementos da receita que fizeram sucesso com a Williams nos anos anteriores, além de contar com uma suspensão refinada e um conceito de pedal duplo de freio que viria a ser banido ainda no início da campanha. O motor Mercedes também estava no auge, sem que a potência interferisse na confiabilidade.

As rivais diretas, por sua vez, ainda patinavam. O projeto de Schumacher com a Ferrari estava em seu estágio inicial, enquanto que a Williams havia perdido, em uma única tacada, o apoio oficial da Renault e seu projetista principal (o mesmo Newey).

Carro da McLaren de 98 se encaixou como uma luva com Hakkinen

Já do lado de Hakkinen, o estilo de pilotagem casou bem com a adoção dos pneus sulcados, que deixou os carros mais instáveis com a aderência mecânica reduzida.

Desta forma, a campanha foi forte para Hakkinen: vieram vitórias nos GPs da Austrália (que contou com uma lambança na comunicação com o time, consertada graças à generosidade de Coulthard), Brasil, Espanha, Mônaco, Áustria, Alemanha e Luxemburgo. Àquela altura, a Ferrari e Schumacher já haviam reagido, mas a situação era bem difícil para o alemão na decisão de Suzuka.

Schumacher precisaria vencer e torcer para que Hakkinen não ficasse na segunda posição. O alemão fez sua parte ao anotar a pole position, mas ficou parado no grid na partida para a segunda volta de apresentação. Depois de largar em último, o piloto da Ferrari vinha em recuperação alucinante, mas o furo do pneu selou a disputa.

Hakkinen ainda terminou a temporada com sua oitava vitória no ano em Suzuka, e o efeito dela não era somente matemático: ela também serviu para encaixar a última peça que faltava para colocar o incansável finlandês no Olimpo do automobilismo.

COM A PALAVRA, O CAMPEÃO

Em conversa exclusiva com o Projeto Motor, Hakkinen listou uma outra ocasião da temporada de 98 que, para ele, foi até mais marcante do que a data do título em Suzuka.

“Tenho definitivamente muitas ótimas lembranças de 98. Já faz 20 anos! Vencer o GP de Mônaco foi a experiência suprema se falarmos sobre uma única corrida específica”, comentou o bicampeão.

“Claro, vencer o campeonato também foi ótimo, mas Mônaco é o que me vem à cabeça: foi uma bela experiência, com toda a gente próxima da pista, o clima é ótimo. A pista é altamente exigente, física e tecnicamente. É preciso ter muita cabeça no lugar para não entrar em pânico e permanecer tranquilo.”

Um dos obstáculos mais duros de Hakkinen na F1 foi seu acidente em Adelaide, e é isso que considera que o fez ser tão diferente de seu rival da época. “Schumacher era um piloto incrível, muito, muito duro. Ele tinha uma mentalidade diferente: a F1 era a sua vida, e eu já pensei em fazer outras coisas depois que venci meus dois títulos. Eu havia sofrido um grande acidente em 95, então não queria testar mais a minha sorte”, comparou.

“Minha mentalidade mudou um pouco [após o acidente de Adelaide]. Antes eu era um pouco obcecado em vencer, mas depois só me preocupei em me divertir.”

Por este raciocínio, 98 deve ter sido um ano divertido para Hakkinen, já que se tratou da oportunidade perfeita para a glória. “Foi uma combinação de fatores que enfim – eu não diria ‘enfim’, mas tudo se encaixou. Tínhamos um ótimo encarregado pelo design em Adrian Newey, o que nos ajudou demais. Ele é genial. Houve mudanças no regulamento de 97 para 98, como os pneus sulcados. Estávamos prontos.”

“Depois de tantos anos na F1 e em uma relação de longo prazo com a McLaren, caminhamos passo a passo para chegar ao lugar certo para sermos campeões.”


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.