De dominadora a decepção: as idas e vindas da Alfa Romeo na F1

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O ano de 2019 começou com uma notícia bem interessante para os fãs da F1: a Alfa Romeo resolveu ampliar seu patrocínio na Sauber e passou a usar sua marca como o novo nome da equipe. Não estamos falando aqui de qualquer montadora, mas sim, da vencedora da primeira corrida história da categoria e que levou Giuseppe Farina ao título inaugural do campeonato, em 1950.

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Algo ainda mais interessante aconteceu nesta semana, alguns dias depois do anúncio da mudança de nome do time, a FIA liberou a lista de participantes do campeonato revelando que o chassi da escuderia também levará o nome da Alfa Romeo (algo que inclusive dependia de uma autorização dos outros times). Isso caracteriza definitivamente que a inscrita no Mundial é a marca italiana e que ela não será apenas um nome fantasia, como acontece com a Aston Martin, que está no nome da Red Bull.

Importante, porém, deixar algumas coisas em seu lugar. A Alfa Romeo está, na verdade, terceirando sua entrada na F1. O que isso significa: para não ter que comprar um equipe, montar a estrutura do zero e se dar ao trabalho de precisar abrir todo um novo braço na companhia apenas para a F1, ela está contratando a Sauber para administrar, de forma independente, seu time. Inclusive, na própria inscrição, percebemos que a equipe se chama Alfa Romeo Racing, que o chassi leva a mesma nomenclatura, porém, o nome da empresa registrada e responsável pelo time é “Sauber Motorsports AG”.

Importante dizer que isso não é anormal. No endurance, por exemplo, a Joest Racing foi responsável por mais de uma década pela operação da Audi no WEC e em Le Mans e hoje representa a escuderia oficial da Mazda na IMSA. Nos anos 80, ela chegou a competir pela Porsche.

Em 2017, a Alfa Romeo patrocinou a equipe Sauber. Agora, time passa a ser operação oficial da marca

E talvez o exemplo mais forte é da própria Alfa Romeo, que entre 1982 e 85, em sua última passagem pela F1, diante da frustração na administração de sua equipe, terceirizou a operação de pista, projeto e construção de seus chassis para a Euroracing, ficando responsável apenas pelo fornecimento dos motores.

O que talvez tira um pouco da beleza de ter uma nova marca na F1 é o fato do motor ser Ferrari. Convenhamos, será esquisito olhar na transmissão a informação de um carro Alfa Romeo-Ferrari. Vivemos algo parecido não há muito tempo, em 2010, quando tivemos a BMW-Sauber-Ferrari, meses depois da saída da BMW da categoria. Peter Sauber, no entanto, por falta de tempo, teve que manter o nome da fabricante alemã para receber a verba da FOM.

Mesmo assim, era de se esperar que, com o interesse em restaurar o nome Alfa Romeo no mercado comercial e usando a F1 para isso, o Grupo Fiat optasse para, pelo menos em um primeiro momento, se aproveitar de sua parceria com Sauber e o investimento que já faz na equipe da Ferrari, barateando ao máximo o custo de ter uma nova equipe na F1.

O legal é que com a mudança do nome do chassi, as estatísticas desta nova Alfa Romeo Racing irão valer para o histórico da construtora Alfa Romeo na F1. E aí, temos muita história para contar.

A primeira dominadora

Na primeira metade do sécula XX, a Alfa Romeo construiu uma bela tradição de automobilismo. Importante ressaltar, porém, que até a explosão da II Grande Guerra, em 1939, ela era constantemente superada pela Auto Union e suas Flechas de Prata, com algumas exceções importantes, como a famosa vitória de Tazio Nuvolari no GP da Alemanha de 1935, história que já contamos aqui no Projeto Motor.

Para se ter ideia cenário, no final da década de 30, inclusive, a Alfa chegou largar mão de sua equipe oficial e passou a fornecer apoio de fábrica a times independentes, como de um certo Enzo Ferrari, que começava a fazer sucesso com seus carros.

Quando o automobilismo europeu retornou às competições no pós-Guerra, a Alfa Romeo percebeu a possibilidade de se atualizar e aproveitar o momento para se colocar como a grande marca da nova era das corridas de carro. E assim, ela dominou os GPs entre 1946 e 49, mesmo usando carros com quase 10 anos, que poderiam até ser considerados ultrapassados.

Quando a F1 surgiu, em 1950, a Alfa Romeo não tirou o pé. Entrou com uma equipe oficial no novo campeonato e mesmo com seu antigo modelo 158, usado desde a década de 30, conquistou todas as seis corridas da competição, com a exceção das 500 Milhas de Indianápolis, que estavam no calendário por questões políticas, mas que nem mesmo utilizavam o mesmo regulamento.

Com o modelo 158 e os pilotos Farina e Fangio ao volante, a Alfa Romeo dominou as duas primeiras temporadas da F1

Nino Farina se tornou o primeiro campeão da F1, batendo seus companheiros de equipe, Juan Manuel Fangio e Luigi Fagioli, que ficaram em segundo e terceiro colocados na classificação geral.

Na temporada seguinte, uma rival passou a incomodar: a antiga parceira Ferrari. Fangio conseguiu levar a Alfa Romeo a um novo título, porém, com mais dificuldade, batendo Alberto Ascari, do time de Maranello, por seis pontos. Excluindo Indianápolis, foram quatro vitórias para a Alfa e três para a Ferrari.

Para 1953, a Alfa Romeo percebeu que precisaria elevar seu jogo e construir um novo carro. Ela tentou adquirir apoio do governo italiano para financiar o projeto, o que foi negado. Assim, sem dinheiro para investir na empreitada, ela resolveu desistir de manter sua equipe na F1. A categoria, por falta de grid, passou uma reformulação adotando o regulamento da F2, o que levou a um domínio nos anos seguintes da Ferrari com seu 500.

A segunda encarnação do time do trevo

Entre os anos 60 e o começo dos anos 70, a Alfa Romeo não sumiu completamente da F1 e teve algumas parcerias como fornecedora de motor. Em 1976, porém, um novo projeto começou a retomar a motivação da empresa em participar de forma ativa da categoria.

A marca se aliou à Brabham, já sob administração de Bernie Ecclestone, e passou a ser fornecedora do propulsor do time, com alguns bons resultados. No final de 1977, a companhia autorizou seu departamento esportivo, a Autodelta, após uma forte campanha interna do famoso engenheiro Carlo Chiti, a seguir em frente com o projeto de uma nova equipe oficial.

O modelo 177 foi desenvolvido durante o ano seguinte e fez sua estreia em 1979, marcando o retorno oficial de uma equipe da marca à F1. O carro contava com um motor de 12 cilindros flat que era utilizado em provas de esporte-protótipos. Os resultados nas duas primeiras provas, em Zolder e Dijon, no entanto, foram decepcionantes. O time resolveu investir em uma evolução, o 179, para retornar quatro etapas depois, no GP da Itália, em Monza.

O estranho modelo 177 da Alfa Romeo, conduzido por Bruno Giacomelli

O novo carro, também desenvolvido por Chiti, foi a base para todos os modelos da equipe até 1981, por isso, caracterizou esta segunda passagem da Alfa Romeo pela F1. Em geral, muitas decepções com desempenho, diversos problemas de confiabilidade e apenas alguns momentos bons, como a pole position na etapa de Watkins Glen em 1980, ou o pódio em Las Vegas em 81, ambos com Bruno Giacomelli, porém, longe do que se espera de um time oficial de uma montadora.

Durante 1981, a Alfa Romeo promoveu uma reestruturação na Autodelta e, como já contamos acima, preferiu terceirizar a operação da equipe e produção dos carros para a Euroracing, ficando responsável apenas pela produção dos motores.

Assim, Gérard Ducarouge assumiu o projeto do novo 182, o que também aconteceu na temporada seguinte, com o 183, que conseguiu o melhor resultado no campeonato de construtores nesta segunda fase do time, um sexto lugar no geral. Mesmo assim, o nível da escuderia pouco mudou, seguindo como integrante do pelotão intermediário.

Mario Andretti chegou a levar o Alfa Romei 179D a dois quartos lugares

Em 84 e 85, Luigi Marmiroli passou a ser o diretor técnico da organização, fazendo alguns ajustes em conceitos de aerodinâmica dos projetos, mas também sem resultados expressivos constantes, apesar de algum pódio aqui ou ali com Andrea de Cesaris e Ricardo Patrese.

O modelo 185T, de 1985, foi a bala de prata nas aspirações da Alfa. O carro foi certamente o pior do time, passando o ano sem marcar pontos, o que motivou a empresa a desativar definitivamente sua operação na F1.

Até o fim de 1988, a companhia ainda seguiu fornecendo motores para a pequena Osella. Na última temporada do acordo, cansada dos problemas e pouca competitividade da equipe, a marca seguiu vendendo seus propulsores V8, porém, proibiu o time de usar seu nome.

Ainda em 1987, os italianos começaram o desenvolvimento de um novo motor em parceria com a Ligier, mas com a aquisição da companhia pelo Grupo Fiat, o acordo foi desfeito e a Alfa Romeo se despediu de vez da F1.

Ricardo Patrese conseguiu o último grande resultado da Alfa Romeo na F1: terceiro lugar no GP da Itália de 1984, em Monza

O novo retorno

Em 2017, a Alfa Romeo se tornou patrocinadora da Sauber, estampando sua logo no carro, além de seu famoso trevo de quatro folhas, que acompanha seus carros desde os primórdios da marca, no pré-Guerra. O novo momento, de time oficial, mesmo que não operando, faz com que a F1 possa celebrar o retorno de suas participantes fundadoras.

Resta saber, até onde o Grupo Fiat pretende levar a marca da Alfa Romeo na F1: como um time B da Ferrari ou aos áureos tempos de vitórias de títulos dos anos 50.

 


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.