De fenômeno a talento perdido: por que Kubica cativou tanto o mundo da F1?

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Quando cruzou a linha de chegada do GP do Canadá, exatamente no dia 8 de junho de 2008, Robert Kubica despontava como estrela em ascensão da F1. A primeira vitória do piloto de 23 anos ganhou tons de heroísmo, justamente na pista em que havia sofrido um pavoroso acidente no ano anterior. De quebra, o triunfo o colocava na liderança do campeonato, dando continuidade a uma campanha praticamente impecável.

Dali para frente, parecia que a carreira do polonês decolaria rumo ao céu, mas, como todos sabem, isso não aconteceu. O resultado em Montreal representou sua única vitória na F1, e sua passagem pela categoria chegou ao fim de maneira abrupta, poucos anos depois, devido a um gravíssimo acidente de rali.

Kubica chegou ao topo com a vitória no Canadá (BMW)
Kubica chegou ao topo com a vitória no Canadá (BMW)

De talento bruto e possível campeão mundial, Kubica entrou para a história da F1 como apenas mais uma das várias promessas não realizadas que já passaram pelo certame. Então, por que o polonês é lembrado até hoje pelo público e pela própria categoria com tamanho fascínio?

Esportivamente falando, Kubica viveu momentos de altos e baixos nas quatro temporadas e meia que fez na F1. O começo foi altamente promissor, quando substituiu Jacques Villeneuve na BMW com o campeonato de 2006 já em andamento e, duas corridas depois da estreia, já ocupava o pódio.

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Esperava-se que, em 2007, seu potencial seria desenvolvido ao máximo, mas a campanha foi decepcionante. Kubica sofreu para se adaptar aos pneus Bridgestone e precisou “lapidar” seu estilo de pilotagem agressivo – ele costumava ser brusco ao volante e passou a contornar as curvas com mais suavidade.

Não à toa, Kubica foi amplamente ofuscado por seu companheiro de equipe, Nick Heidfeld, que anotou dois pódios, contra nenhum o polonês. Em 2008, o jogo virou: Kubica se sobressaiu com o competitivo conjunto da BMW, e, com os diversos erros cometidos pela Ferrari/Felipe Massa e Lewis Hamilton, andou por boa parte do ano com chances de título.

Temporada de 2007 foi marcada pelo acidente terrível em Montreal
Temporada de 2007 foi marcada pelo acidente terrível em Montreal

Já 2009 voltou a ser um pesadelo. Kubica inicialmente teve dificuldades com os novos pneus slick e não conseguia carregar velocidade na entrada de curvas de média e baixa velocidades. Por ser alto e pesado, ele também não pode usar o KERS – e, quando o fez, usou o recurso com potência reduzida para não extrapolar o peso mínimo do carro.

O BMW F1.09, que já não era nenhum primor, ficou ainda mais para trás depois que as equipes passaram a investir nos difusores duplos. Resultado: Kubica foi apenas 14º no campeonato, novamente atrás de Heidfeld.

A carreira do polonês se viu revigorada em 2010, quando mudou-se para a Renault. O time passava por uma fase de reestruturação com a troca de chefia, e o piloto foi peça importante para que a escuderia voltasse à boa forma após o escândalo do “Cingapuragate”, que explodira um ano antes. Na pré-temporada de 2011, Kubica se acidentou no rali e nunca mais guiou um F1 novamente.

Kubica Renault 2010
Kubica se reencontrou quando foi para a Renault

Como pode-se perceber, Kubica teve momentos de grande competitividade na F1, alternados a outros em que acabou ofuscado por Heidfeld, que não era necessariamente um fenômeno das pistas. Porém, ele era visto não só como um diamante bruto, mas também com uma dedicação acima do comum.

Mais que isso, Kubica era visto na F1 como um piloto puro, que somente se preocupava em vencer, e não em fazer fama ou integrar o jogo político da categoria. Em um mundo em que esportistas têm status de celebridade, com redes sociais bombando, Kubica é apenas um garoto que buscou a F1 apesar da badalação, e não por sua causa. Blasé ao estilo Kimi Raikkonen, mas sem a preguiça do finlandês; aplicado feito Alonso, mas sem os problemas temperamentais do espanhol.

Tal postura cativou absurdamente a Renault, já que seu antecessor na equipe, Alonso, se mostrava desinteressado em seus últimos meses em Enstone – ele já voltava seu foco desde cedo à transferência para a Ferrari. Na Renault, Kubica era tido como um piloto no auge, mas muito disso se deu porque a equipe lhe dava totais liberdades, tanto nas atividades do dia a dia quanto por permitir suas aventuras nos ralis.

Esta foi a última vez que Kubica guiou um F1 (LAT Photographic)
Esta foi a última vez que Kubica guiou um F1 (LAT Photographic)

Na BMW, em contrapartida, o polonês tinha mais dificuldades com o lado corporativo. Isso foi visto, por exemplo, em 2008, quando Kubica viu o time, a seu contragosto, desistir de lutar pelo título para se dedicar às mudanças de regulamento de 2009.

O acidente de rali, quando Kubica tinha apenas 26 anos, instiga o imaginário do público, que tenta projetar o que teria acontecido com o jovem talento na longa carreira que teria pela frente. Se ele seria campeão na F1? Impossível de dizer. Para render em seu máximo, o polonês precisava de certa liberdade, em uma equipe coesa e pouco afetada pela politicagem (algo difícil de se ver na categoria).

De qualquer forma, Kubica se mostrou na F1 um grande entusiasta do esporte a motor, que dava de ombros para os holofotes e era apaixonado por sua profissão a ponto de precisar competir no rali em seus dias de folga. Talvez justamente por este espírito ele tenha marcado tanto os fãs, mas, pelo mesmo motivo, acabou pagando um preço muito alto.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.