De fenômeno da base a talento perdido: o que deu errado para Nico Hulkenberg?

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O cenário é claro: Nico Hulkenberg, antes tido como uma grande promessa, vive situação delicada no mercado da F1 para 2020. O alemão já está confirmadamente descartado pela Renault, enquanto que suas alternativas para a próxima temporada parecem bastante delicadas.

Chega a ser curioso observar como que Hulkenberg, multicampeão da base e que chegou à F1 com o status de astro, pode deixar a categoria contra sua vontade, ainda jovem e sem ao menos ter apresentado um resultado que fosse condizente com seu potencial.

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O seu caso, porém, destaca fatores que fazem toda a diferença no desdobramento de uma carreira. Brilhar na hora certa, não desperdiçar a chance de resultados fortes e ter atuação forte no mercado são alguns deles.

Analisaremos neste artigo como que a caminhada de Hulkenberg fez com que seu potencial outrora mostrado não tenha vindo à tona até agora.

A carreira de Hulkenberg

Hulkenberg cumpriu todos os pré-requisitos possíveis antes de chegar à F1. Em 2005, seu primeiro ano nos monopostos, foi campeão da forte F-BMW alemã, que um ano antes havia revelado Sebastian Vettel. Depois, liderou os esforços da Alemanha na conquista do título da A1GP. Em 2008, levou a melhor na F3 Europeia e, de quebra, fechou um acordo para se tornar piloto protegido da Williams.

Já na temporada de 2009, levou para casa o título da GP2 e confirmou que já estava preparado para dar o salto imediato para a F1. Isso aconteceria já em 2010, pela Williams, quando nem sequer tinha completado 23 anos de idade. E, na equipe inglesa, Hulkenberg se deparou com uma mudança de cenário em relação ao que acontecia nos anos anteriores.

Até 2009, a responsabilidade de liderar os esforços da equipe recaía no também jovem alemão (e cria da Williams) Nico Rosberg, enquanto que, no outro cockpit, o time mantinha o mediano Kazuki Nakajima em troca de motores gratuitos da Toyota. Isso fez com que Rosberg ganhasse destaque, reforçasse seu nome e conseguisse crescer no paddock da F1.

Para 2010, a parceria da equipe com a fabricante japonesa foi encerrada, sendo que o acordo passaria a ser com a marca independente Cosworth. Para maximizar o potencial, a Williams contaria com o veterano Rubens Barrichello, que poucos meses antes havia sido um dos protagonistas da temporada e vencido corridas. Hulkenberg, portanto, teria pela frente um osso muito mais duro de roer do que teve seu compatriota nas campanhas anteriores.

De uma forma geral, a temporada de Hulkenberg não foi das piores. O alemão misturou momentos de velocidade e potencial com alguns erros, o que é perfeitamente comum para um piloto neste estágio de desenvolvimento. Porém, na campanha como um todo, Hulkenberg foi sobrepujado pelo mais calejado Barrichello, que, na base da regularidade, assumiu as rédeas do time na tabela de pontuação.

O grande momento de Hulkenberg (e bota grande nisso) veio na penúltima corrida da temporada. Em uma classificação afetada pela chuva, o alemão encontrou um ritmo avassalador e anotou uma surpreendente pole position, colocando nada menos do que um segundo no piloto mais próximo, Sebastian Vettel. Nada mau para um piloto de uma equipe intermediária em sua primeira temporada.

Hulkenberg celebra com o companheiro Barrichello e a equipe Williams a pole no GP do Brasil de 2010
Hulkenberg celebra com o companheiro Barrichello e a equipe Williams a pole no GP do Brasil de 2010 (Foto: Glenn Dunbar/LAT Photographic/Williams)

Ali, porém, Hulkenberg já começava a ser assombrado por um fantasma que circunda jovens pilotos em início de carreira e que buscam se firmar na F1: o timing de mercado. A Williams, de olho em fortalecer suas estruturas financeiras, flertava com Pastor Maldonado, que tinha como poder de barganha o título da GP2 de 2010 e o dinheiro do petróleo venezuelano. Era um conjunto atrativo demais para a Williams deixar passar.

Hulkenberg, que era mais inexperiente e tinha menos resultados de destaque do que Barrichello, era o lado mais fraco da corda. Isso significou que o alemão deixou a Williams após somente uma temporada, perdendo a vaga justamente para o piloto que dominou como parceiro de equipe na campanha vitoriosa da GP2 em 2009. Para piorar, a definição de tudo isso veio em um momento tardio no ano, o que impossibilitou negociações com equipes que já tinham se resolvido para a campanh seguinte. Isso fez com que Hulkenberg ficasse não só fora da Williams, mas do grid como um todo. Um duro golpe.

Recuperando o prestígio

Restou a Hulkenberg a opção de se tornar piloto reserva da Force India em 2011, atuando em algumas sessões de treinos livres e em testes. O retorno ao grid se deu somente em 2012, pela mesma equipe, substituindo Adrian Sutil – que enfrentava o perigo de problemas judiciais por uma briga com um dirigente da Lotus em uma boate.

A temporada de 2012 foi uma das mais malucas que a F1 viu nas últimas décadas. A distribuição de forças no grid e o funcionamento sensível dos pneus da Pirelli fizeram com que equipes distintas tivessem seu momento de destaque. Hulkenberg não ficou de fora dessa festa, mas novamente o timing não se mostrou adequado para sonhar em crescer dentro da F1.

O alemão teve um dia maiúsculo na etapa de encerramento da temporada, em Interlagos. Em pista molhada, largou da quinta posição e prontamente chegou à liderança, incluindo o estabelecimento de uma vantagem confortável para a dupla da McLaren, Lewis Hamilton e Jenson Button. Porém, ele perdeu a margem com um safety car e viu qualquer chance de pódio se esvair durante um toque que eliminou Hamilton da disputa e o fez rodar.

Hulkenberg lidera Button, Hamilton (ambos da McLaren) e Massa (Ferrari), no GP do Brasil de 2012
Hulkenberg lidera Button, Hamilton (ambos da McLaren) e Massa (Ferrari), no GP do Brasil de 2012 (Foto: Force India)

O episódio no Brasil em 2012 apresenta duas tendências que fizeram com que a carreira de Hulkenberg não decolasse. Primeiro, é evidente que a apresentação forte ajudou a elevar seu status, mas isso se deu em um ponto muito tardio na temporada, quando todas as vagas de destaque já estavam preenchidas para o ano seguinte. Ou seja, não seria possível colher frutos imediatos por aquela tarde em Interlagos. Enquanto isso, quem brilhou a ponto de assegurar uma vaga na McLaren foi Sergio Pérez, que desde a segunda corrida do ano, na Malásia, vinha se destacando.

Segundo, por mais que Hulkenberg tenha brilhado, lhe faltou converter um rendimento forte em um resultado acima da média. Enquanto Pérez acumulou pódios em 2012, o alemão ficou no “quase” e não tinha como ter reputação equivalente no paddock. Um resultado forte pode fazer toda a diferença na construção do nome de um piloto que busca seu resultado ao sol.

Hulkenberg, então, partiu para um plano mais ousado: se transferiu em 2013 para a Sauber, a mesma equipe pela qual Pérez havia brilhado no ano anterior. O objetivo era não só assumir o equipamento que elevou o mexicano a um time de ponta, mas também ficar sob os olhos da Ferrari, que contava com um cambaleante Felipe Massa e que tinha relação técnica estreita com a Sauber.

O ponto é que 2013 foi uma temporada muito menos caótica do que 2012. Hulkenberg brilhou ao largar em terceiro em Monza e terminar em quarto na Coreia do Sul, mas o pódio nunca chegou perto de suas mãos. Para dificultar ainda mais suas ambições, uma mudança no regulamento técnico para 2014 fazia com que o alemão não se tornasse uma opção muito atrativa no mercado. A categoria passaria a adotar motores turbo-híbridos, com um extenso conjunto de baterias que prometia criar os modelos mais pesados que a F1 já havia visto. Pilotos altos e pesados como Hulkenberg eram vistos com receio por chefes de equipe, e nenhum deles sequer escondia isso.

Na somatória de fatores, Hulkenberg mais uma vez sobrou no mercado, já que a Ferrari se sentiu mais segura para assinar com Kimi Raikkonen, enquanto que a Lotus, àquela altura ainda uma equipe atrativa, foi com Pastor Maldonado. A solução para o alemão foi retornar à Force India e começar tudo de novo.

Perceba que, em 2014, Hulkenberg partiria para sua quarta temporada como titular na F1 sem ter feito duas campanhas consecutivas pelo mesmo time. O vaivém pelo grid não contribuiu para seu desenvolvimento de carreira, nem possibilitou que ele solidificasse um trabalho a ponto de se tornar uma opção cobiçada para os ponteiros.

A volta à Force India e a chance na Renault

O retorno de Hulkenberg à Force India durou por três anos. No primeiro, em 2014, foi sempre presença regular na zona de pontuação, o que o fez terminar em nono na tabela. Nas duas campanhas seguintes, porém, viu seu parceiro, Sergio Pérez, ganhar terreno e ficar à sua frente na classificação final. E o que deixava a situação ainda mais incômoda era o fato de que o mexicano foi ao pódio em quatro oportunidades no período da parceria, com pelo menos uma vez por ano entre os três primeiros.

A alegria de Hulkenberg veio, ironicamente, fora da F1. Em participação nas 24 Horas de Le Mans pela Porsche em 2015, o alemão triunfou ao lado de Nick Tandy e Earl Bamber e obteve aquele que é até hoje seu único pódio na década de 2010. O sucesso rápido no endurance tinha um contraste brutal aos anos como nômade no pelotão intermediário da F1. Além disso, a geração seguinte já vinha aos poucos conquistando seu espaço, como foi visto com a promoção meteórica de Max Verstappenà Red Bull, em 2016. Será que o bonde de Hulkenberg já não havia passado?

Hulkenberg, Bamber e Tandy celebram a vitória nas 24 Horas de Le Mans de 2015, pela Porsche
Hulkenberg, Bamber e Tandy celebram a vitória nas 24 Horas de Le Mans de 2015, pela Porsche (Foto: Porsche)

Aparentemente, ainda não. Em 2016, o alemão recebeu um convite da equipe oficial da Renault, que ainda precisava percorrer um longo caminho até poder colher frutos maiores. De qualquer forma, seria uma valiosa oportunidade para que piloto e equipe crescessem juntos e buscassem os resultados de que precisavam.

Situação delicada

Os dois primeiros anos na Renault foram positivos para Hulkenberg. Em 2017, massacrou Jolyon Palmer, se impôs diante de Carlos Sainz e se firmou como líder no desenvolvimento do projeto. Em 2018, mais uma vez conseguiu os melhores resultados e vinha crescendo junto da equipe na relação de forças. Para 2019, no entanto, passaria por mais um teste difícil: dividiria a garagem com o badalado Daniel Ricciardo.

Seria a primeira vez desde sua temporada de estreia na F1 que Hulkenberg teria como referência interna um piloto com vitórias. Era uma boa chance, portanto, de provar que pertence ao nível classe A da categoria e que merece, sim, uma oportunidade em um carro de ponta.

Mas, no geral, a temporada não tem sido das mais brilhantes para Hulkenberg. Ricciardo, mesmo se adaptando às diferenças da Renault em relação à Red Bull, se estabeleceu em classificações e tem os melhores resultados em corridas. Já Hulkenberg desperdiçou uma oportunidade de ouro quando, na luta por um pódio inédito, bateu em condições chuvosas. Convenhamos, não foi dos erros mais absurdos, uma vez que as condições de fato era traiçoeiras, mas foi mais uma ocasião que Hulkenberg vê uma chance de um resultado forte ficar no “quase”.

Hulkenberg anda à frente de Leclerc durante o GP da Alemanha de 2019.
Hulkenberg anda à frente de Leclerc durante o GP da Alemanha de 2019. Chance de pódio perdida pelo alemão (Foto: XPB / James Moy Photography/Renault)

E, assim, o cenário que Hulkenberg viveu em 2010 se repetiu. A equipe se viu tentada a buscar uma opção externa que se mostrava bastante atrativa. Ao seu lado, o alemão tinha um piloto vencedor, com prestígio e melhores resultados. Restou a ele, então, ser dispensado para abrir caminho a Esteban Ocon – que, curiosamente, viveu entre 2018 e 2019 o mesmo limbo que o próprio Hulkenberg teve em seus primeiros anos na F1, com dispensa tardia e uma temporada como reserva.

Diante da situação de mercado, existe uma chance realista de Hulkenberg deixar a F1 ao fim do ano. A Haas, um possível caminho, permaneceu com Romain Grosjean e Kevin Magnussen. A Red Bull confirmou que Hulkenberg está fora do páreo para 2020. A Alfa Romeo ainda não mostrou interesse pelo alemão e vê Antonio Giovinazzi pouco a pouco evoluindo para se mostrar uma boa alternativa para permanecer ao lado de Kimi Raikkonen. Já a Williams tem um posto vago, mas conta com um Nicholas Latifi, da F2, de olho na posição – e disposto a desembolsar uma boa verba para isso. Ou seja, complicou.

Mas o que deu errado?

Feita toda a recapitulação da passagem de Hulkenberg pela F1 até agora, chegou o momento de responder à pergunta do título do artigo. O que deu errado para Hulkenberg? Por que o alemão não mostrou na categoria máxima o mesmo potencial que apresentou na base?

Como é possível perceber, Hulkenberg nunca esteve em posição favorável dentro do mercado, ou seja, nunca foi o cara certo, na hora certa para receber o convite de uma equipe de ponta. Ora ele se destacou em momentos em que as vagas cobiçadas já estavam preenchidas, ora havia fatores técnicos que geravam receio a seu respeito quando havia cockpits à disposição – como a questão de seu peso para as mudanças técnicas de 2014.

Porém, também não podemos isentar Hulkenberg de sua parcela de responsabilidade nisso tudo. Em ocasiões importantes, o alemão fracassou ao se impor contra parceiros de equipe, como acontece agora com Daniel Ricciardo e até mesmo como se viu com Sergio Pérez, um piloto por muitas vezes questionado mas que, queira ou não, bateu Hulkenberg em dois dos três anos em que foram colegas.

Hulkenberg persegue o companheiro de Renault, Ricciardo, durante o GP da Itália de 2019 (Foto: XPB / James Moy Photography/Renault)

O fato de Hulkenberg ter desperdiçado potenciais pódios (como, para citar dois exemplos já mencionados, Brasil-2012 e Alemanha-2019) também não ajudou em nada. Um único resultado deste porte pode ser o fator determinante para alavancar a reputação de um piloto e fazer com que seu nome se torne forte o bastante para atrair um time de ponta. Pérez mais uma vez é um exemplo: sua caminhada rumo à McLaren começou com o pódio na Malásia, em 2012. Hulkenberg desperdiçou as poucas oportunidades que teve e, em vez de brilhar, adquiriu uma pecha de ser um piloto que não consegue ir além do quarto lugar.

Agora, com 32 anos, o piloto se vê em situação mais complicada. A nova geração ganha cada vez mais espaço, com nomes como Max Verstappen, Charles Leclerc, Lando Norris, Esteban Ocon, Alexander Albon e George Russell, todos muito mais jovens, se mostrando opções mais atrativas e confiáveis em longo prazo. Caso Hulkenberg fique na F1 em 2020, terá de dar, no mínimo, o que seria teoricamente um passo para trás em relação ao que possui atualmente na Renault.

Portanto, a lição que o caso de Hulkenberg traz é que um piloto, mesmo supercondecorado na base, precisa estourar assim que possível na F1, sendo que um resultado certo, na hora certa, pode fazer toda a diferença entre alavancar ou permanecer no limbo. Os pilotos precisam ficar atentos não só à velocidade dos carros dentro da pista, mas também à rapidez com que o bonde pode passar fora dela.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.