De mecânico a magnata: os 50 anos de Ron Dennis na F1

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Passou despercebido, mas no último dia 23, Ron Dennis completou 50 anos de F1. Em outubro de 1966, o então estudante do Guildford Technical College participou de um fim de semana de GP pela primeira vez. Aos 19 anos, ele atuou como mecânico de Moises Solana, quarto piloto da Cooper, na etapa do México em Hermanos Rodríguez.

Foi a primeira viagem ultramarina de Dennis, fora contratado pelo time de Surbiton após sua compra pelo grupo Chipstead. Depois disso, foram mais dois anos de Cooper, antes de se transferir para a Brabham, onde atuou como mecânico de Jochen Rindt e Jack Brabham.

Dennis no GP do México de 66
Dennis no GP do México de 66

Sir Jack se retirou do esporte no fim de 70 e Dennis, ao lado do amigo mecânico Neil Trundle, decidiu criar sua própria equipe. Foi assim que, em fevereiro de 72, nasceu a Rondel Racing, gênese da McLaren moderna.

Apoiada pela petroleira francesa Motul, a equipe estreou na F2 no mesmo ano, em Mallory Park, com um terceiro lugar obtido pelo argentino Carlos Reutemann, a bordo de um Brabham. A primeira vitória veio em agosto, quando Henri Pescarolo levou o GP do Mediterrâneo, em Enna-Pergusa.

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Um acidente de estrada forçou Dennis a se retirar para uma função administrativa e logo ele passou a planejar seus próprios carros. Já para a temporada de 73, incumbiu Ray Jessop de construir um chassi de F2, chamado de Motul para agradar o patrocinador. Com o M1, a Rondel venceu em Thruxton, representada por Pescarolo, e Norisring, pelo australiano Tim Schenken.

No ano seguinte, a Rondel tinha planos de se transferir para a F1, mas a Motul abandonou o automobilismo como consequência da crise do petróleo. O projeto de F1 então foi repassado para a Token, equipe que depois acabou por disputar apenas quatro GPs na categoria-mãe – sem muito sucesso.

Dennis (à direita) com Sir Jack Brabham
Dennis (à direita) com Sir Jack Brabham

Mesmo quase falido, Dennis não desistiu do esporte. Em 1975, fundou um novo time, o Project 3, que alinharia carros de F2 com apoio da BMW. Em seguida, já com suporte da Philip Morris, criou a Project 4, equipe que obteve considerável sucesso em F2, F3 e Procar. Quando o time venceu o título da F3 Inglesa em 79 e 80, com Chico Serra e Stefan Johansson, e o campeonato da Procar em 80, com Niki Lauda, o cartola entendeu que era hora de voltar à F1.

Assim, em setembro de 80, a Philip Morris engenhou a fusão da Project 4 com a McLaren, uma equipe vencedora na F1, porém sofrendo de sérios problemas financeiros. No ano seguinte, Dennis assumiu a operação inteira e convenceu o empresário franco-saudita Mansour Ojjeh a investir na equipe. O resto, o douto leitor provavelmente já sabe: de 81 para cá, foram dez títulos de pilotos – seis deles com Alain Prost e Ayrton Senna – e sete de construtores para a equipe de Woking.

 O legado

Mais do que um chefe de equipe de sucesso, Ron Dennis é um dos últimos personagens de uma F1 que não existe mais. Instruído na oficina, e não nos banquetes de negociações, Ron, aos moldes de Frank Williams e Eddie Jordan, ascendeu com sua pequena firma das categorias inferiores até o principal campeonato do mundo.

Dennis entre Prost e Senna, seus principais pilotos na McLaren
Dennis entre Prost e Senna, seus principais pilotos na McLaren

Além disso, sustenta a honra de ter participado na revolução moderna da F1 ao dar passe livre para a experimentação com fibras de carbono – hoje um material sine qua non para a composição de um carro. Não é descomedido dizer, de certa forma, que Dennis escreveu o manual de como construir um carro de F1 moderno e como gerir uma equipe de F1 moderna – um padrão tão sólido que provavelmente os mecânicos mais novos na categoria sequer presumam o influxo do britânico nesse caldeirão.

Tantos predicados numa única pessoa, porém, muitas vezes se convertem em incomplacência. Prova disso é a personalidade do engenheiro que, dizem, não é a mais fácil para se trabalhar. Talvez Paddy Lowe, que se transferiu sem muitos arrependimentos para a Mercedes, e Adrian Newey, que quase deixou o esporte para desenhar barcos, se não fosse pela interferência de David Coulthard, tenham algo a falar sobre.

Alguns pilotos também o acusam de má administração e dissimulação. Andrea de Cesaris, em entrevista ao time do Projeto Motor, quatro anos atrás, o denunciou por sabotagem. Prost, por sua vez, disse, em entrevista à publicação “Autosprint”, que “Dennis sempre teve a tendência de simpatizar mais por um dos pilotos do time”. Na opinião do francês, isto sempre desembocou num cenário conflituoso, uma vez que o dirigente “sempre tentou convencer os pilotos de que há uma situação de perfeita igualdade na equipe.”

Dennis com Fernando Alonso, seu piloto nº 1 mais recente
Dennis com Fernando Alonso, seu piloto nº 1 mais recente

A polêmica em torno de Fernando Alonso e o até então novato Lewis Hamilton em 2007 também serve de premissa para contestar a habilidade de Dennis como gestor. Afinal, a McLaren perdeu um campeonato ali com o melhor carro.

De qualquer forma, Dennis ganhou uma nova chance ao retornar à direção esportiva da McLaren em 2014. Neste ínterim, sua atuação como presidente do grupo foi essencial para o retorno da Honda à F1, assim como do “filho pródigo” Alonso. Mas o progresso tem sido vagaroso e já há rumores de que o velho cartola não renove seu contrato para o ano que vem.

Não há como negar, porém, o protagonismo de Ron: um mecânico de segunda linha que, queira ou não, hoje, além de milionário, se tornou um dos dirigentes icônicos na categoria mais importante do mundo automobilístico.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Pablo Habibe

    Não sei se alguém já perguntou isso diretamente para Ron Dennis, mas tenho certa curiosidade a respeito de como ele lida com o fato de ter levado adiante e para as mais altas conquistas o legado de Bruce McLaren. Ele não só jamais mudou o nome da equipe, como soube valorizar a sua história.

    Ele deu o passo que Frank Williams nunca cogitou, entrando no mercado dos carros de rua, completando a transição da garagem para as lojas através das pistas. Para se colocar no mesmo nível da Ferrari, só faltou o motor McLaren. Tempo ainda há, mas com o controle do time escorrendo entre seus dedos, temo que já não seria a mesma coisa…

  • Dox

    Ainda bem que não entro nas conduções galvanísticas mongólicas globais.
    Sempre admirei o Ron Dennis exatamente por sua arrogância, pois quem o circunda sempre quer obter vantagens dele, e ela é seu escudo protetor.
    Sua história define sua capacidade, cujo adjetivo é um só: vencedor.