Decisões e regulamento: o que mudou na F1 durante a parada forçada

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A F1 ficou parada dentro da pista desde o agravamento da pandemia do Covid-19, no começo de março, o que causou o cancelamento e adiamento de diversas corridas. Porém, a movimentação de bastidores foi bastante intensa e fez uma pequena remodelação da categoria para as próximas três temporadas.

Além do árduo trabalho dos dirigentes da própria F1 para conseguirem colocar de pé um calendário de provas para o segundo semestre, salvando a temporada de 2020, líderes das equipes, FIA, marcas e fornecedores envolvidos caminharam com uma série de mudanças para a categoria, com o foco principalmente em evitar uma quebradeira de equipes em situação financeira difícil.

Isso porque junto com o alastramento da doença, a pandemia do novo coronavírus também tem um impacto considerável na economia mundial. E a F1 não está livre deste problema. Montadoras que participam do esporte estão cortando custos por conta da queda acentuada de vendas e faturamento, assim como patrocinadores de diversos outros setores e que injetam dinheiro nas equipes, eventos e categoria no geral.

Desta forma, as equipes também perderam parte importante de seus orçamentos e terão que buscar dinheiro em águas mais turbulentas para o marketing esportivo, com muito menos recurso para patrocínios disponível no mercado. Por isso, a categoria precisou se mexer.

Entrando na semana do primeiro GP de 2020, que acontece na Áustria, no próximo final de semana, listamos algumas das decisões tomadas pela F1 sobre seu futuro próximo até a data de hoje.

Adiamento do novo regulamento técnico da F1

Uma das primeiras medidas adotadas foi o adiamento do novo regulamento técnico que entraria em vigor em 2021 para 22. O conjunto de regras representa uma enorme revolução no desenho dos carros de F1, o que já vinha exigindo um grande investimento e esforço interno das equipes.

A ideia de se adiar a chegada dessa nova F1 tem dois objetivos. O primeiro é dinheiro. Categoria e equipes esperam ganhar um pouco de tempo para esperarem por um ambiente menos volátil da economia internacional para fazerem tamanho investimento. Assim, acreditam que empurrar uma mudança tão grande no campeonato pode ser benéfico.

Projeção da F1 de como deverão ficar seus carros com o novo regulamento técnico
Projeção da F1 de como deverão ficar seus carros com o novo regulamento técnico (Imagem: F1)

A segunda questão está ligada à primeira, mas com o foco ainda em 2020. Para manter verbas comerciais importantes vindas de TV e patrocínios, a F1 busca uma forma de ainda ter uma temporada com, no mínimo, 15 corridas este ano, todas no segundo semestre. Para tal programação, os times serão obrigados a correrem em diversos finais de semana consecutivos.

Para se ter ideia, as oito primeiras etapas que já temos confirmadas estão marcadas para um período de dez semanas, incluindo duas sequências de três finais de semana consecutivos. Isso irá gerar um esforço operacional gigante por parte de todos. Desta forma, o desenvolvimento de um modelo completamente novo não só ficaria comprometido como poderia aprofundar as atuais diferenças de escala da F1.

Equipes grandes, com mais estrutura, teriam mais chance de trabalharem em seus novos carros do que as médias e pequenas. Teríamos então uma consequência justamente inversa do que o novo regulamento busca, que é de aproximar os times.

Congelamento dos carros para 2021

Em um segundo momento, dirigentes das equipes perceberam que apenas adiar a introdução do novo regulamento não seria o bastante. Assim, eles chegaram à conclusão de que um congelamento de chassis para a próxima temporada serviria como um limitador de gastos importante.

A ideia é a mesma do adiamento do novo regulamento. Ninguém tem tempo e dinheiro para fazer um carro novo para 2021. Assim, os carros que entrarem na pista na Áustria serão homologados e passam a ter o seu desenvolvimento limitado. O chassi como um geral e a caixa de câmbio não poderão ser modificados.

A aerodinâmica e parte interna da suspensão e algumas partes listadas poderão receber atualizações em um sistema de tokens. Ou seja, cada equipe poderá fazer um certo número de modificações nas peças de seus carros e para cada uma gastará um certo número de tokens, controlado pela FIA. A lista de componentes é extensa e possui mais de 40 partes como monocoque, parte frontal do assoalho, estruturas de impacto, asa traseira, transmissão e peças associadas, parte da suspensão, freios, tanques de óleo e por aí vai.

Carros de 2020 da F1 ganharam mais aderência e velocidade nas curvas
Carros de 2020 na pré-temporada de Barcelona, em fevereiro (Foto: Mark Sutton / LAT Images/Pirelli)

Alguns componentes serão congelados a partir do GP da Áustria que abre a temporada de 2020. Uma segunda leva entra no esquema apenas na oitava etapa, em Monza. No momento em que estes componentes entram no sistema, eles só poderão ser atualizados usando o sistema, em que a equipe gasta tokens toda vez que fizer uma alteração.

Algumas peças terão o valor de um token, por isso, poderão ser modificadas duas vezes dentro do período até o final de 2021. Outras, tem o valor de dois, e só poderão receber uma nova versão. Ou seja, se a equipe errar nesta atualização, a única opção que ela terá até o final de 2021 será retornar para a versão anterior.

Na primeira etapa de 2021, o número de peças congeladas é ainda maior, incluindo, por exemplo suspensão dianteira completa, coluna de direção, relação de marchas, eixo de transmissão, entre outros.

Regulamento financeiro da F1

Aqui está talvez a maior decisão de todas. Diferente do novo regulamento técnico, adiado para 2022, as regras de limitação de gastos não só tiveram sua introdução mantida para 21 como ficaram ainda mais restritivas.

O teto orçamento, que irá limitar os gastos das equipes de F1, foi diminuído dos originais U$ 175 milhões para U$ 145 milhões, depois de muita discussão. Equipes ainda se comprometeram em novas diminuições para os próximos anos: U$ 140 milhões em 22 e U$ 135 milhões em 23.

A decisão tem um grande impacto no futuro próximo da F1, pois, diferente do que ia acontecer antes, as equipes terão seus orçamentos limitados durante a temporada em que os novos modelos de 22 serão desenvolvidos. Antes, os times iriam poder gastar o quanto quisessem para pesquisar e projetar seus novos modelos durante 2020 para correrem em 21. Ou seja, por vias tortas, já que o acordo foi costurado por causa da pandemia, a F1 pode ter corrigido um item que iria manter a discrepância entre seus participantes durante os próximos anos.

Importante ressaltar que enquanto as três grandes (Mercedes, Ferrari e Red Bull) terão que reduzir consideravelmente seus orçamentos para se enquadrarem no novo regulamento, todos os outros times ainda possuem capacidade de investimento abaixo do teto. Pouco mudará para eles do ponto de vista financeiro. O grande ganho será na aproximação forçada em relação às escuderias da frente.

Outro ponto relevante é que uma série de gastos não entram na conta. São eles custos com marketing, salário dos pilotos, manutenção de ativos antigos (carros e equipamentos clássicos, por exemplo), bônus de final de ano, depreciação e amortizações, atividades não relacionadas à F1 (equipes que competem em outras categorias ou que possuem outras atividades econômicas, por exemplo), taxas de superlicença dos pilotos, e os três maiores salários da organização.

Handicap de desenvolvimento

A F1 também encontrou um formato curioso de diminuir a diferença entre grandes e pequenas sem baixar ainda mais o teto orçamentário. Nas negociações, a medida acabou se tornando uma maneira de as três equipes do pelotão da frente aceitarem a diminuição do limite de gastos para U$ 145 milhões enquanto as do intermediário e de trás toparem em não insistir em uma restrição maior ainda.

Trata-se de uma flexibilização nos testes de túnel de vento e de CFD (sistema de dinâmica de fluído computadorizada) seguindo um escalonamento pela posição no campeonato de construtores. Difícil entender? Não é tão completo. A gente te explica.

AlphaTauri, ex-Toro Rosso, na pré-temporada 2020 da F1
AlphaTauri, ex-Toro Rosso, na pré-temporada 2020 da F1 (Foto by Steven Tee / LAT Images/Pirelli)

O regulamento da F1 prevê que as equipes podem usar um determinado tempo de túnel de vento. O que as equipes toparam, é que agora quem ficar mais à frente vai poder usar menos na temporada seguinte e quem ficar mais atrás, usará mais.

Você pega o limite de utilização e o campeão de construtores do campeonato de 2020 só poderá usar 90% do total em 2021 e o último, 112,5%. Essa diferença aumentará a partir de 2022, com o detentor do título limitado em 70% e o pior posicionado podendo chegar a 115%. O sistema tem inspiração no draft das ligas de esportes americanos, em que as equipes com pior colocação têm chance de escolherem os destaques dos campeonatos universitários.

É uma forma de conceder alguma vantagem técnica para os times menores manterem o passo de desenvolvimento mais próximo das grandes, mesmo que eles invistam volumes de dinheiro mais abaixo do teto de gastos.

Calendário de 2020

Até o momento (29/06), apenas oito corridas estão confirmadas. A F1 trabalha para aumentar este número para algo em torno de 15-18 e até mesmo circuitos que não figuravam no calendário original podem entrar por necessidade. Já citamos alguns dos que estão negociando.

Claro que você que se o Projeto Motor ficará sempre atualizado quanto os novos GPs forem confirmados. Confira o que temos até agora:

05/07 – Red Bull Ring (GP da Áustria)
12/07 – Red Bull Ring (GP da Estíria)
19/07 – Hungaroring (GP da Hungria)
02/08 – Silverstone (GP da Inglaterra)
09/08 – Silverstone (GP do 70º Aniversário)
16/08 – Catalunha (GP da Espanha)
30/08 – Spa-Francorchamps (GP da Bélgica)
06/09 – Monza (GP da Itália)


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.