Déjà vu: Red Bull se enrola com mudanças de pilotos fora dos planos

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A Red Bull anunciou nesta segunda-feira (12) a substituição de Pierre Gasly por Alexander Albon com efeito imediato na próxima etapa, o GP da Bélgica. Mais uma vez, a equipe se vê em meio à discussão sobre suas mudanças de pilotos durante uma temporada, com muitos entrando naquela velha análise simplista de que a equipe é uma moedora de carreiras.

O programa de formação da Red Bull é incomparável com qualquer outro da F1 recente e foi responsável pela chegada à categoria de diversos nomes nos últimos 20 anos, sendo que a maioria teve chances por muito mais tempo do que o normal em comparação com outras escuderias.

Há algumas semanas, o GP da Alemanha teve cinco dos seis primeiros colocados formados pela organização: Max Verstappen, Sebastian Vettel (hoje na Ferrari), Daniil Kvyat, Carlos Sainz (hoje na McLaren) e Alexander Albon. O único que não conseguiu um bom resultado na prova, veja só, foi Pierre Gasly. Essa introdução toda neste texto é para fazermos uma reflexão antes de jogarmos a Red Bull aos leões e dizermos que eles estão acabando mais uma vez com uma jovem carreira na F1. Alguns já dizem que estão encerrando até duas.

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Gasly não vem tendo um bom desempenho. Aliás, longe disso. Isso é fato. Max Verstappen é o terceiro colocado do Mundial com 181 pontos e duas vitórias, enquanto o francês está em sexto com 63 e apenas dois resultados entre os cinco primeiros. Por mais cruel que seja a comparação de um piloto com menos de dois anos no Mundial com um do calibre do holandês, a diferença é enorme.

“Então você acha que o Gasly tem que ser demitido mesmo e dane-se?”

Calma. A grande história por trás da substituição de Gasly por Albon, na verdade, está no problema que a Red Bull enfrenta quando tem que fazer uma promoção no seu enorme programa de pilotos fora de seu timing ou planejamento de carreiras.

Lembre só: a equipe tem uma dupla sólida, com dois pilotos que já venceram corridas. Ela conta com ambos. Só que um deles resolve deixar o time atrás de uma nova oportunidade. A Red Bull, então, é obrigada a promover um piloto da Toro Rosso que, por mais talentoso que pareça ser, provavelmente ela ainda não o levaria para o seu time principal para aguardar um amadurecimento maior.

Pilotos do programa da Red Bull Junior em 2012: Daniil Kvyat , Lewis Williamson, Stefan Wackerbauer, Alex Albon, Carlos Sainz Jr. e Callan O’ Keffe (Foto: Samo Vidic/Red Bull)

No final das contas, depois de um tempo, erros ou resultados abaixo do esperado deixam esse jovem promovido em situação ruim dentro da equipe e ele acaba sendo substituído durante a temporada e rebaixado de volta à Toro Rosso.

Essa história soa familiar? Bem, é uma novela repetida na Red Bull nos últimos quatro anos. Vamos colocar nome aos bois: a equipe tinha Sebastian Vettel e Daniel Ricciardo. O alemão resolve, ao final de 2014, deixar o time para seguir para a Ferrari. Daniil Kvyat, que tinha apenas uma temporada na Toro Rosso, é promovido. Ele até fez um primeiro ano muito bom na equipe principal, ficando à frente de Ricciardo no campeonato, porém, no segundo se meteu em algumas confusões. Além disso, criou situações internas de conflito que começaram a incomodar os dirigentes.

Enquanto isso, no time de baixo, Max Verstappen aparecia fazendo corridas cada vez melhores e até já suscitando interesse de rivais. Resultado: sai Kvyat, rebaixado, entra Verstappen, promovido.

Alguns anos depois, a Red Bull vive situação parecida, também consequência de uma troca não planejada. Ela tinha Verstappen e Ricciardo e, desta vez, é o australiano que resolveu sair. A empresa foi obrigada a promover alguém da Toro Rosso e o único que vinha mostrando resultados era Gasly, que ganhou a vaga não no momento em que a equipe escolheria, mas por necessidade de ter que colocar alguém no segundo carro do time.

Pierre Gasly teve vida dura na Red Bull em 2019 (Foto: Marcel van Hoorn / Red Bull)

A primeira metade de campeonato do francês foi terrível enquanto um novato Alexander Albon mostrou consistência nos resultados e começou a pedir passagem. Com um desempenho muito abaixo de Gasly e precisando em várias corridas de um segundo carro mais à frente para brigar com Mercedes e Ferrari nas corridas, a Red Bull resolveu então testar o tailandês para ver o que acontece na segunda fase do campeonato.

Para se ter ideia de como a promoção foi acelerada para Kvyat, Gasly e Albon, antes de ir para a Red Bull, Ricciardo ficou parte de uma temporada na HRT e depois passou dois anos inteiros na Toro Rosso. É óbvio que ele chegou à equipe principal com outro nível de experiência e amadurecimento em relação aos outros três.

É um ciclo vicioso que se inicia toda vez que a empresa precisa fugir do que estava previamente planejado dentro de seu programa de pilotos. Queima carreiras? Pode ser, mas será que é muito pior do que acontece em programas de outras equipes como Mercedes (ex: Wehrlein), McLaren (Vandoorne), Ferrari (Bianchi e Pérez) e por aí vai?

A Red Bull pode até parecer em apuros para escolher seus pilotos, mas desde a saída de Mark Webber, sempre apostou em nomes formados em casa, mesmo que alguns já tivessem sido dispensados do programa júnior e tivessem que ser reconvocados.

Quando a Mercedes perdeu Nico Rosberg ao final de 2016, ela preferiu torrar um dinheiro para comprar o passe de Valtteri Bottas. Os austríacos não teriam pensado duas vezes para colocar um Pascal Wehrlein, piloto do programa da Mercedes, que tinha marcado ponto com a Manor naquela temporada(!) e acabou sem emprego. Quem está certo? Não existe um caminho melhor necessariamente, são apenas políticas internas diferentes.

“Ah, mas e se não tivesse rebaixado o Kvyat para colocar o Verstappen?”

No meio de tudo isso, é importante destacar que a polêmica promoção de Verstappen no lugar de Kvyat foi algo bem diferente do que vemos agora. Na época em que ele ganhou a vaga na Red Bull, muita gente criticou o momento da troca. A história de “moedora de carreiras” ganhou força no período da decisão. Porém, o holandês já se demonstrava pronto para o passo. Ele criou uma pressão pela vaga do russo que não existiu nos outros casos.

Verstappen também tinha apenas uma temporada completa pela Toro Rosso com ótimos resultados e seguia assim no segundo ano. A Red Bull logo percebeu que se tratava de um grande talento. O problema é que outras equipes também já tinham percebido. O único motivo pelo qual ele não tinha embarcado nos programas de Mercedes e Ferrari ainda nas categorias de base era justamente o fato dos austríacos serem os únicos que poderiam colocá-lo na F1 a curto prazo. Depois, a pressão por um lugar no time principal da empresa continuou.

Max Verstappen e toda a equipe da Red Bull celebram a vitória em Hockenheim (Foto: Charles Coates/Getty Images/Red Bull)

Diferente de Kvyat e Gasly, que tiveram suas promoções apressadas por conta de saídas de Vettel e Ricciardo da Red Bull, a mudança de Verstappen foi uma aposta calculada e que rendeu dividendos logo de cara, quando ele venceu em sua estreia pela equipe principal da companhia.

“E por que não pegar o Kvyat agora?”

A Red Bull precisa saber se pode contar com Albon para 2020. Ela já sabe o que esperar de Kvyat e não precisa experimentá-lo mais um pouco. Se o tailandês não entregar bons resultados nesta reta final de temporada, o russo pode voltar a ser cogitado.

Não podemos esquecer que se olharmos para fora dos quatro pilotos da F1 que a Red Bull tem hoje em seu programa existem mais dúvidas do que certezas. Dan Ticktum, que até o final de 2018 era considerado o próximo da fila, foi para a Super Fórmula Japonesa com apoio da empresa, se deu mal e já perdeu a vaga no programa.

Daniil Kvyat e Alexander Albon são apresentados como pilotos da Toro Rosso em fevereiro de 2019 (Foto: Samo Vidic/Red Bull)

Para o lugar do inglês, a companhia buscou o mexicano Patricio O’Ward, campeão da Indy Lights do ano passado. Ele já participou de uma rodada da F2 e uma prova da Super Fórmula Japonesa em 2019 com apoio da Red Bull, além de seguir em seu posto regular na Indy pela Carlin. Depois dele, a Red Bull cai em alguns nomes que ainda estão na F4 ou F3 e que não estão maduros para a F1.

Ou seja, o programa até segue com diversos nomes, que certamente irão chegar à F1 pela Toro Rosso nos próximos anos. Esse não é o problema. A questão é a vaga na Red Bull, onde estão as esperanças em vitórias e títulos, e não apenas em formar novos nomes para a categoria.

Sendo assim, verifique que a empresa dos energéticos segue com uma carreira muito bem estruturada para seus pilotos. Se entregar resultados bons nas categorias de base, você vai chegar à F1. Aí, você tem tempo na Toro Roso para se desenvolver. O problema é justamente quando algo acontece na equipe mãe que fura esse planejamento e precisa apressar uma promoção, colocando um jovem nome em uma posição de pressão por resultados antes do que a própria organização esperava. E aí, meu caro, não existe tempo para esperar.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.