Desclassificado na F1 por ser lento, Al Pease é um injustiçado da história?

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A passagem é relativamente conhecida e chegou a voltar um pouco à tona em 2014, quando Al Pease morreu. O piloto conseguiu a façanha de ser desclassificado de um GP de F1 por ser lento demais. Isso mesmo. Não porque fechou alguém ou desobedeceu a alguma regra técnica e coisa assim. Ele andou muito devagar.

O que pouca gente sabe é que Pease é considerado um dos grandes nomes do automobilismo canadense, inclusive com seu nome no Hall da Fama do esporte a motor do país, com participações e vitórias em diversas categorias da América do Norte.

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A fama por ter sido desclassificado do GP do Canadá de 1969 por estar andando devagar demais, no entanto, é o que marcou a carreira de Pease. Se você fizer uma pesquisa no Google com o nome dele, praticamente vai encontrar apenas matérias e relatos sobre essa história. Mas a trajetória dele é bem mais interessante do que isso.

História até o automobilismo

Alan Victor Pease nasceu em Darlington, na Inglaterra, em 15 de outubro de 1921. O primeiro contato com o mundo da velocidade foi entre a infância e a adolescência, quando seu pai, Albert Pease, o levava em corridas de motovelocidade em seu país natal. Ele inclusive patrocinava alguns pilotos.

Aos 17 anos, Pease entrou para a RAF, a Força Aérea Real, e foi enviado para a Índia. Depois ainda seguiu com a organização militar para trabalhar em conflitos na Rodésia e no Egito, até retornar à Europa onde ainda participou do final da campanha da II Guerra.

Ao final de rodar o mundo pelas forças armadas, ele não via a Inglaterra mais como seu lar. Com seus estudos de artes no histórico escolar, começou a enviar currículos para os Estados Unidos com intuito de trabalhar como ilustrador. Só que por conta da forte migração pós-Guerra, o país estava impondo cotas para estrangeiros nas empresas. Então, ele se arriscou e conseguiu um emprego em Toronto, no Canadá, onde alguns anos depois conseguiria a nacionalidade.

E sua carreira como ilustrador decolou, o que o levou a fundar sua própria empresa e trabalhar para grandes marcas como Carling Breweries, General Motors, Player’s, Nortel e por aí vai. No começo dos anos 50, no entanto, o bichinho do automobilismo o picou novamente.

Al Pease, o piloto

Pease não começou exatamente jovem. Seu início de carreira nas pistas aconteceu entre 1952, quando ele tinha 31 anos. O primeiro modelo que ele adquiriu foi um Riley 1.5, mas demorou para ele migrar para um MG TD.

E aos poucos, os resultados começaram a surgir e os primeiros patrocinadores bateram à porta. O que era para ser um hobby, passou a se tornar uma carreira. Com um MGA Twin-cam, ele chegou a entrar em provas mais importantes e até enfrentar os dominantes Porsches da época por troféus.

Em 2009, Al Pease mostra orgulhoso jornal com um de seus feitos
Em 2009, Al Pease mostra orgulhoso jornal com um de seus feitos (Foto: Reprodução/Reddit)

Pease então se tornou piloto oficial da BMC (British Motor Corporation) no Canadá, o que além de um patrocínio e salário, lhe rendeu a oportunidade de andar com o MGB e paralelamente de Mini. Ele ainda liderou na época um movimento junto a organizadores de corridas no país para autorizar que pilotos pudessem pintar as marcas de seus patrocinadores nos carros. Isso era proibido até então porque promotores acreditavam que prejudicava a visibilidade de seus próprios apoiadores.

A década de 60 foi bastante vitoriosa para Pease, com muitas conquistas em corridas do país, o que o levou a ser destaque dentro do Canadá e até comparticipações em provas como as 12 Horas de Sebring, nos Estados Unidos, de Lotus 47. E isso lhe abriu novas oportunidades.

O projeto atrapalhado na F1

Em 1967, o circuito de Mosport iria receber o primeiro GP do Canadá da história. A Castrol canadense queria colocar um piloto do país na prova e foi atrás de Pease. Só que as condições não eram exatamente as ideais ou como ele gostaria.

“Eles me disseram que tinham a oportunidade de comprar um F1 Eagle Climax do Dan Gurney, que eles também patrocinavam. Eu aconselhei que eles alugassem o carro, mas eles queriam comprar. Não entenda mal. Era um carro lindamente construído, mas não era competitivo”, contou Pease em uma entrevista ao site “Canadian Racer”, em 2003.

O piloto tinha razão. O carro tinha problemas elétricos e eles apareceram durante o final de semana da corrida. Pease conseguiu se classificar em 15º no grid entre 19 competidores, com tempo 7s7 mais lento que o pole, Jim Clark, da Lotus.

Al Pease, conduzindo o difícil Eagle Mk1
Al Pease, conduzindo o difícil Eagle Mk1

Na corrida, o carro parou com problemas de bateria. Pease, no entanto, não desistiu. Ele saiu correndo pelo circuito até os boxes, pegou uma bateria nova, voltou e a instalou no carro ele mesmo. No final, ele cruzou a linha de chegada 43 voltas atrás do líder e não entrou para classificação do GP.

O Eagle MK1 tinha problemas de confiabilidade e desempenho. O próprio Gurney chegou a passar dicas a Pease e admitir as falhas. Ainda em 1967, o modelo foi utilizado para uma exibição na Expo Mundial de Montreal e ficou lá por um bom tempo, o que diminuiu a janela de trabalho e desenvolvimento.  Pease ainda tentou participar novamente do GP do Canadá de 1968, mas com um tempo 15s8 mais lento que o pole na classificação, não entrou no grid.

E esse não foi o fim. Em 69, Pease voltou a Mosport para uma terceira participação no GP do Canadá com o mesmo Eagle. A essa altura, o modelo que três anos antes já não era competitivo, estava ainda totalmente desatualizado. Desta vez, ele conseguiu entrar no grid em 17º entre 20 participantes, com um tempo 11s1 mais lento do que o pole, Jacky Ickx, de Brabham.

Na corrida, o ritmo de Pease em seu Eagle-Climax era terrível e ele tomou várias voltas. Só que no giro 32, aconteceu um acidente que acabou com sua carreira na F1. Jackie Stewart, a estrela da categoria naquela temporada e que seria campeão ao final do ano, acabou abandonando a prova em um acidente quando tentou passar pelo retardatário.

Ao sair do carro, ele e sua equipe Matra fizeram uma reclamação à direção de prova, que aceitou a denúncia e desclassificou Pease por estar andando devagar demais na pista. A bandeira preta veio na 46ª volta da corrida, quando ele já estava 24 atrás dos líderes. Isso nunca mais se repetiu na história da F1.

A humilhação foi tanta que o canadense, aos 47 anos, nunca mais tentou sequer retornar ao paddock da F1. Uma despedida vexatória. Aquela também seria a última vez que um Eagle Mk1 participaria de um GP na categoria.

Carreira de Pease seguiu

Mesmo fora da F1, Pease continuou com sua trajetória no automobilismo norte-americano. Ele seguiu com participações na F5000 e outras categorias com modelos Lotus, Lola e Brabham. Nos anos 80, porém, sua empresa de ilustrações e marcas cresceu tanto que ele passou a ter pouco tempo para se dedicar às corridas e teve que encerrar sua trajetória nas pistas.

Anos mais tarde, já na década de 2000, ele se aposentou também da prancheta, aos 80 anos, ele se mudou para Sevierville, Tennessee, com sua esposa e um cachorro, que levava o nome de Lotus.

Ele entrou para o Hall da Fama do automobilismo canadense em 1998. Em sua introdução, a entidade o homenageou com o texto:

“Sem dúvida que nenhum outro piloto da história do automobilismo canadense ganhou mais troféus do que Al Pease, vencendo de forma regular campeonatos regionais e nacionais em uma grande variedade de carros por quase 30 anos. Ele pilotou um Eagle de Gurney no primeiro GP do Canadá de F1 em Mosport, em 1967, e venceu sua última prova em Harewood, em um Brabham BT21 em 1970. Ele também foi fundamental para convencer a Confederação Canadense de Automobilismo a permitir nomes de patrocinadores na lateral de seus carros, pavimentando o caminho para toda uma geração de pilotos profissionais canadenses.”

Al Pease morreu em quatro de maio de 2014, aos 92 anos. E a maioria (para não dizer todas) as manchetes e reportagens da época basicamente lembraram apenas de sua desclassificação no GP do Canadá de 1969.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.