Despedida de Kanaan encerra era de ouro do Brasil na Indy

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No último dia de 30 de janeiro, Tony Kanaan anunciou que fará suas últimas participações na Indy em 2020. E nem será uma temporada completa, mas em cinco etapas em ovais, incluindo, claro, as 500 Milhas de Indianápolis.

Kanaan encerra assim uma passagem de 23 anos na Indy. Campeão da Lights em 1997, em uma famosa briga em que bateu Helio Castroneves e Cristiano da Matta pelo título, ele ainda conquistou o campeonato da categoria principal em 2004 e a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis de 2013.

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Foram muitos altos e baixos, sem dúvida. Principalmente após perder o patrocínio e a vaga na Andretti, ao final de 2010, a parceria que não saiu do papel para competir pela Ferran Dragon Racing no começo de 2011, os anos na KV e principalmente a última fase na A.J. Foyt. A verdade é que ele já não tinha sido muito competitivo na Ganassi, entre 2014 e 17, e parecia não ter mais condições de, como fez no passado, levar um time médio no ombro.

De qualquer forma, a carreira de Kanaan na Indy deve ser celebrada e sua última volta em 2020, aplaudida. É um grande ídolo tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Só que o anúncio do baiano é maior do que isso. É maior do que ele mesmo. Com a despedida, fecha-se um dos capítulos mais bonitos da história do automobilismo brasileiro, já que o país (pelo menos até o momento) fica sem pilotos na categoria americana.

E mesmo que tenhamos alguma novidade nos próximos 12 meses, será o começo de uma outra fase, que precisará de um amadurecimento. Kanaan fecha uma era de ouro, que já não vinha mais tão brilhante, mas que ainda insistia em reluzir com seu nome e no de Helio Castroneves, ainda responsável pela última vitória do país na série, na etapa de Iowa em 2017.

Esse último, já não participa de uma temporada completa na Indy desde 2018, mas segue sempre certo nas 500 Milhas de Indianápolis através de seu acordo com a Penske, que o levou para a IMSA. Kanaan e Castroneves mantiveram o país em destaque em toda última década e meia na Indy enquanto, aos poucos, os outros representantes importantes foram deixando as pistas.

E assim, como aconteceu na F1 com a saída de Massa em 2017, a Indy, que já chegou a ser dominada por brasileiros, não terá representantes do país em várias provas já em 20.

Kanaan recebe a bandeirada para a vitória na Indy 500 de 2013
Kanaan recebe a bandeirada para a vitória na Indy 500 de 2013 (Foto: John Cote/IMS)

Para piorar a situação, a aposentadoria de Kanaan da Indy ainda vem em uma temporada em que a Band deixa de transmitir a categoria. A maioria das provas já estavam escondidas no canal por assinatura do grupo, o Bandsports, de baixíssima audiência, mas a emissora paulista ainda concedia algum destaque na Indy 500. Agora, o público brasileiro que quiser assistir ao campeonato precisará assinar a plataforma de streaming Dazn, única com direitos para o país.

Brasil na Indy

Podemos dizer que o público brasileiro descobriu a Indy com a chegada de Emerson Fittipaldi, em 1984. O bicampeão mundial não demorou para se adaptar à categoria. Em sua segunda temporada, pela Patrick Racing, venceu sua primeira corrida, no oval de Michigan. Outros pilotos, como Raul Boesel e Roberto Pupo Moreno, também começaram a aparecer em provas do campeonato na mesma época.

O estouro da popularidade, impulsionada também pelas narrações de Luciano do Valle na Band, veio de vez em 1989, quando Fittipaldi venceu as 500 Milhas de Indianápolis e o título. Patrocinadores e pilotos cada vez mais se voltaram para a categoria, que ganhou força na década de 90 e incentivou uma nova geração que se começou a carreira olhando para a F1, não pensou duas vezes em agarrar boas chances nos Estados Unidos.

Emerson Fittipaldi celebra a vitória na Indy 500 de 1989 com a premiação que superou U$ 1 milhão (Foto: IMS)

Christian Fittipaldi, Gil de Ferran, André Ribeiro, Maurício Gugelmin e Gualter Salles vieram na primeira onda. Kanaan, Castroneves e Da Matta chegaram em uma segunda, já durante a divisão da ChampCar e IRL.

E assim, vieram as diversas vitórias, como o bicampeonato de Gil de Ferran em 2000 e 2001, que ainda venceu a Indy 500 de 2003, as três vitórias nas 500 Milhas de Castroneves, e os triunfos de Kanaan, já citados. Da Matta ainda se sagrou campeão da ChampCar em 2002, no último respiro de bom nível da série antes da reunificação com a Indy.

No meio de tudo isso, o Brasil teve até mesmo, em dois momentos distintos, etapas do campeonato no país: entre 1996 e 2000, em um oval construído no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e de 2010 a 13, em circuito de rua em São Paulo.

Depois da aposentadoria de Gil de Ferran, ao final de 2003, Kanaan e Helio Castroneves ficaram responsáveis por manter o Brasil em posição importante dentro da Indy, e o fizeram bem. Outros pilotos jovens e experientes (Rubens Barrichello em 2012) passaram pelo campeonato, mas os dois se tornaram as grandes referências.

Castro Neves: 30 vitórias na Indy, todas pela Penske (Foto: Divulgação)

A partir de meados da década de 2010, o interesse de patrocinadores brasileiros na Indy começou a cair. Kanaan e Castroneves, com base comercial e de fãs bem consolidada nos Estados Unidos, continuaram com suas carreiras, mas a falta de dinheiro praticamente acabou com o surgimento de novos nomes. O último foi de Matheus Leist, que competiu pela A.J. Foyt em 2018 e 19, mas que para 20 tem programa confirmado apenas na IMSA, sem vaga no certame de monopostos.

Até hoje, o Brasil soma (levando em conta tanto período da Cart como IRL) 109 vitórias na Indy, distribuídas entre 12 pilotos diferentes.

Futuro brasileiro

Em 2019, Lucas Kohl foi o representante brasileiro na Indy Lights, terminando a temporada na oitava posição entre 13 competidores no total (entre oito e dez nas provas), sem grandes resultados para defender sua candidatura.

Dentro do “Road to Indy’ (“Caminho para a Indy”), como é chamada a trajetória desenhada para jovens chegarem à categoria, tivemos ainda Bruna Tomaselli e Eduardo Barrichello na USF2000, que seria o degrau anterior a Lights, como uma F3. Ambos foram regulares, com a primeira ficando na oitava posição na classificação geral enquanto o filho de Rubens Barrichello ficou em 11º entre 28 competidores, com grid médio de 18 participantes nas provas.

Tomaselli irá participar em 2020 na WSeries, competição exclusivamente feminina com base na Europa. Barrichello ainda não confirmou seu programa, mas a tendência é de mais uma temporada na USF2000, enquanto muitos imaginam que seu caminho natural em algum momento seja também o Velho Continente.

Quem pode surgir em algum momento em 2020 ou 21 é Felipe Nasr. Vice-campeão da IMSA em 2019, o brasiliense se reencontrou nos Estados Unidos após uma dura passagem pela fraca Sauber na F1, e até mesmo já fez testes na Indy. Seu contrato para a próxima temporada com a equipe Action Express Racing da série de endurance permite não só que ele corra como priorize o campeonato de monopostos em caso de um acordo com algum time.

Piloto da F2 nos últimos três anos, Sérgio Sette Câmara, que ainda não tem programa definido para 2020, também tem mantido contatos com equipes da Indy e seu nome é frequentemente citado pela imprensa americana sobre possíveis negociações, principalmente com a Carlin. A participação do próprio time, no entanto, ainda é uma incógnita.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.