Desta vez Indy não tem culpa: morte de Wilson foi fatalidade pura

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A Indy e o automobilismo em geral recebeu mais uma notícia muito dura na noite desta última segunda-feira (24) com a morte de Justin Wilson. O Ex-F1, campeão da F3000 em 2001, tinha uma carreira consolidada na categoria americana, com sete vitórias (quatro na ChampCar) e dez temporadas de experiência.

Isso, claro, é irrelevante em um momento deste, já que uma morte sempre abala o esporte a motor, independentemente do quão importante ou vitorioso foi o piloto. Mas também é sempre um momento de se investigar o que aconteceu para que o caso não se repita. Automobilismo é uma competição de risco sim, só que este pode ser sempre diminuído com as providências corretas.

Em uma primeira avaliação, porém, o que podemos observar no acidente de Justin Wilson na prova de Pocono é que o britânico sofreu uma fatalidade. Diferente do que ocorreu, por exemplo, nas mortes de Dan Wheldon, na própria Indy, em 2011, e Jules Bianchi, na F1, em 2014, é difícil constatar erros que possam ser considerados capitais na morte do piloto.

Wilson já vinha em desaceleração ao observar a batida de Sage Karam e uma peça do carro do adversário caiu em sua cabeça. Para quem está dentro de uma pista de corrida, isso é quase que como se andando em uma calçada, um vaso do sétimo andar de um prédio despencasse em cheio na pessoa no momento em que estava passando.

Claro que isso não significa que não existam coisas que possam ser analisadas e melhoradas, mas culpar a Indy por conta do acidente específico do inglês é difícil.

O lance lembra muito o de Henry Surtees, que morreu em uma prova da F2, em 2009, acertado por um pneu solto de um companheiro que tinha batido mais à frente. Desde 1998, a FIA já vinha impondo em suas categorias que as rodas fossem presas ao chassi dos carros por cabos de materiais resistentes como Zylon, polímero sintético semelhante ao Kevlar, para evitar situações como esta.

Após a morte do jovem britânico, novos estudos foram conduzidos pela entidade e um segundo cabo foi colocado em cada roda na F1 a partir de 2011, o que diminuiu bastante que este tipo de acidente acontecesse. Além disso, punições por conta de má fixação de rodas e outras peças dos carros começaram a ser mais duras, mesmo que não resultassem em acidentes.

A pergunta que fica então: o bico do carro de Sage Karam deveria ter se despedaçado tão facilmente assim em seu acidente, jogando uma peça em outro competidor? Infelizmente, sim. Já há algum tempo chegou-se à conclusão de que ao se desmancharem desta maneira, os monopostos absorvem boa parte da força da batida, diminuindo a chance de lesões para quem está dentro. O fato de uma dessas peças ter voado para o alto e caído na cabeça de Wilson, como dito mais acima, foi pura fatalidade. Karam foi liberado pelo hospital nesta segunda-feira sem nenhum ferimento no corpo.

Carros da Indy andam lado a lado em alta velocidade em Pocono
Carros da Indy andam lado a lado em alta velocidade em Pocono

Outro ponto que logo que a morte do piloto foi anunciada começou-se a discutir nas redes sociais: a Indy deveria seguir correndo em superovais como Pocono? Essa, na verdade, é uma discussão que merece um texto à parte e que realmente deveria ser estudada pela categoria. Não faz muito tempo que até mesmo pilotos da Nascar, que corre com cockpits fechados, reclamaram dos riscos de speedways como Talladega. Só que, em uma discussão interna do Comitê Editorial do Projeto Motor, percebemos que o tipo de circuito não teve influência nenhuma no ocorrido.

Karam sofreu um acidente habitual de um oval qualquer. Wilson já vinha em desaceleração atrás e foi acertado por uma peça de carro. A situação poderia ter ocorrido em qualquer outro oval de menor velocidade ou até mesmo em um misto, principalmente nos casos de circuitos de rua.

E o nível dos pilotos da Indy? Outro ponto que pode ser questionado. Certamente alguns pilotos mais experientes não gostam de dividir uma curva de superoval como Pocono com novatos que correm por lá. Só que, mais uma vez, qual foi a influência desta questão no acidente de Wilson? Nenhuma. A batida de Karam, sozinho, pode até ser considerada um erro infantil, mas este tipo de lance acontece de forma corriqueira mesmo com os melhores da categoria.

Felipe Massa é levado por  médicos após ser acertado por uma mola nos treinos do GP da Hungria de 2009
Felipe Massa é levado por médicos após ser acertado por uma mola nos treinos do GP da Hungria de 2009

Por último, o item que vem sendo discutido de forma cada vez mais intensa desde 2009, ano dos acidentes de Surtees e Felipe Massa, acertado por uma mola, e que voltou à tona com a morte de Bianchi: cockpits fechados.

Como já mostrou Lucas Berredo em um texto aqui no Projeto Motor, essa é uma solução que merece estudos. Talvez teria salvo as vidas de Surtees, Bianchi e Wilson. Porém, o fato de ainda não se conseguir encontrar um caminho para implementação sem gerar outros problemas, como a diminuição do campo visual do piloto, precisa ser levado em conta. Por isso, é preciso se atentar que o dispositivo ainda não foi adotado por uma categoria de fórmula top mais por precaução do que por negligência.

É importante destacar que não estamos dizendo aqui que a Indy é perfeita em termos de segurança. Há alguns anos, Wheldon morreu por total irresponsabilidade dos dirigentes de promoverem uma prova em um circuito de alta velocidade, que não era conhecido da maioria dos pilotos, com excesso de carros na pista e ainda com um modelo de chassi totalmente defasado em tecnologia de segurança para época, tanto que seria substituído na temporada seguinte.

E mesmo em 2015, a questão dos kits aerodinâmicos também foi bastante discutida, principalmente com os acidentes de Indianápolis em que carros decolavam da pista.

Mesmo assim, estamos apenas atentando para o fato que, no caso de Justin Wilson, a infelicidade do acaso acabou resultando em uma tragédia.

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Marcelo Calibur

    Eu sempre fui contra a idéia do carro se desmanchar pq os destroços q voarem pode atingir a cabeça do piloto e tbm as pessoas q ficam ao redor da pista

  • godThunder

    Eu sou contra fechar o cockpit de um formula, o charme e a tradição esta nessa configuração de carro, mas também acho muito perigoso um formula, ainda mais do porte da FIndy correr em super ovais.

    São carros extremamente rápidos e os ovais tem o agravante de a batida no muro fazer com que o carro e todos os detritos tenham a tendência a voltar pra pista.

    Sou contra esse tipo de corrida, mas nesse caso já que insistem, ai sim poderia ser o caso de nesse tipo de circuito se usar o cockpit fechado.

  • Gustavo Segamarchi

    O cockpit fechado não salvaria a vida do Bianchi. Mesmo com um cockpit fechado, batendo em um trator, ele não resistiria.

    Acho que na F1, os cockpits fechados não vão ter vez, pois como ficaria a segurança dos pilotos se precisassem sair do carro rapidamente?

    E outra, os cockpits fechados na F1 iriam contra o DNA da categoria. O Nasr já falou que a F1 tem que investir na segurança dos monopostos, circuitos e não cometer erros grotescos, como o que ocasionou a morte do Bianchi.

    Acho que é como descrito nessa excelente matéria, inserir uma solução sem criar outros problemas vai depender de estudos intensos.

    Com certeza, a Indy vai ter cockpits fechados. O motivo, os circuitos ovais, que são os mais rápidos do calendário.

    Realmente, a culpa não foi da Indy, foi uma fatalidade.