Desvendando o estilo dos gênios #1: Ayrton Senna, o mestre das ‘patadas’

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Ayrton Senna assombrou o mundo da F1 nos dez anos em que correu pela categoria. Velocidade absurda, técnica refinada e concentração sobre-humana transformaram o brasileiro em um dos pilotos mais cultuados de todos os tempos, considerado o grande mago em voltas lançadas dentro um carro de corrida.

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Muitos dos seus rivais em sua carreira, inclusive aqueles mais ferrenhos, consideravam o tricampeão, quando em dia inspirado, imbatível em treinos classificatórios. Senna deu inúmeras mostras que sustentam essa tese, como a volta perfeita em Mônaco-1988, quando colocou 1s4 em ninguém menos que Alain Prost, ou seu índice de poles em 40% das provas que disputou na categoria. Na luta contra o cronômetro, Senna fazia o que muitos achavam ser impossível.

“Quando ele passou por mim, parecia que ele estava dançando com o carro sobre o asfalto. Ele tinha absoluto controle de tudo. Era como se ele tivesse quatro braços e quatro pernas. Freando, reduzindo as marchas, virando o volante, ‘bombando’ o acelerador, enquanto o carro parecia estar no limite”, diz John Watson, sobre a pole position de Senna em Brands Hatch-1985

Mas a pergunta que não quer calar é: como Senna era tão rápido assim? A resposta não é tão simples, até porque todos seus rivais (e pilotos das novas gerações) tentam desvendar o estilo do brasileiro a fim de emulá-lo. Contudo, o Projeto Motor lança esta nova seção de olho em explicar um pouco mais a técnica que havia por trás da tocada mágica do tricampeão. A sugestão foi do leitor Lucas Brito, a quem agradecemos profundamente.

Para facilitar a compreensão, dividiremos esta análise em quatro pilares importantes. Vamos lá:

1 – Frenagem

Senna Lotus

O senso comum do automobilismo indica que, quanto mais tarde um piloto frear, mais tempo ele ganha. Isso nem sempre é verdade: se a freada acontece tarde demais, na verdade perde-se velocidade para a entrada da curva.

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Por isso, Senna calculava minuciosamente não só onde frear, mas também como. O brasileiro tendia a reduzir sua velocidade ainda em linha reta, antes do início da tangência, mas sem passar do limite para não travar as rodas. Contudo, seus dados apresentavam uma característica que intrigava os engenheiros: por mais que seus pontos de frenagem iam além em relação aos demais pilotos, Senna mantinha o pé no breque por menos tempo.

Isso só era possível graças ao uso magistral do freio-motor. Como suas frenagens eram mais breves, Senna reduzia as marchas com grande rapidez, e assim diminuía a velocidade do carro em um espaço mais curto de tempo. Em tempos de câmbio manual e bólidos de três pedais, o brasileiro também fazia uso pleno do punta-taco, técnica já esmiuçada no Projeto Motor que tem o objetivo de manter a rotação do motor mais alta nas reduções e evitar os “trancos”.

2 – Aceleração

Mesmo que Senna fosse brilhante em suas freadas breves, muitos acreditam que o brasileiro fazia a diferença mesmo era na saída das curvas. Sua chegada à F1 aconteceu no auge da era turbo, em meados dos anos 80, o que o fez desenvolver uma técnica especial para diminuir os efeitos do turbolag.

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Se muitos outros pilotos adotavam uma aceleração gradual e constante, Senna dava “patadas” rápidas e frequentes no pedal da direita, assim como um pugilista jabeia um speed bag durante um treino. O vídeo abaixo mostra bem a técnica do brasileiro, apesar de não se tratar de um carro de corrida:

Contudo, Senna continuou usando a técnica quando passou a usar motores aspirados, de 1989 a diante. Ali, sua intenção com as “patadas” era manter sempre o motor em seu regime de rotação máximo, a fim de carregar a maior velocidade possível na saída das curvas e ganhar vantagem na entrada das retas.

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O curioso é observar que, com telemetria limitada na época, Senna precisava descobrir na base do feeling o quanto de fato ele poderia exigir do motor a cada curva. Era necessário chegar a um meio-termo preciso para nem perder velocidade, nem extrapolar o limite e provocar rodadas ou sobrecarga do motor. Simplesmente o trabalho de um controle de tração humano.

Assim, com suas técnicas de frenagem e aceleração, Senna ganhava tempo tanto na entrada quanto na saída das curvas. Para você entender melhor, assista ao vídeo abaixo, no qual o ex-piloto Jonathan Palmer compara os dados do brasileiro com os seus próprios (clique para ativar as legendas):

3 – Tangência

Ayrton Senna

A tais “patadas” não traziam somente benefícios por explorarem ao máximo os recursos do motor, mas também por influenciar diretamente no equilíbrio do carro. Antes da era da tecnologia embarcada, entre 92 e 93, os bólidos não contavam com controle de tração. Senna, então, usava a força do motor para brincar com a traseira do carro e apontá-lo exatamente para onde queria.

Contudo, o brasileiro aliava a técnica com movimentos mais intensos ao volante, como pode ser visto abaixo em uma comparação com Alain Prost. Freadas tardias e breves, reduções de marcha ligeiras e tangência precisa – com a vantagem de, por ser canhoto, manter a mão “boa” no volante durante o manuseio da alavanca de câmbio. Trata-se de um trabalho magistral de coordenação motora.

4 – Preparação física

Data da foto: 1988Ayrton Senna correndo.

A técnica adotada por Senna na condução de um F1 exigia sensibilidade e reflexos apurados para que houvesse percepção plena do que se passava no carro. Por isso, o brasileiro colhia frutos por ser um dos pilotos mais preocupados com sua preparação física.

“Senna acabava me superando porque tinha mais força e resistência. Senna havia atingido um nível inteiramente novo em preparação física no mundo do automobilismo. Para conseguir fazer o melhor, é necessário treinar tão duro quanto qualquer atleta profissional. E Senna foi o primeiro a fazer isso”, escreveu Gerhard Berger em seu livro

Já é de amplo conhecimento que Senna, desde antes de sua chegada à F1, fazia trabalho de preparação intensa sob o comando de Nuno Cobra, o que o deixava com a musculatura fortalecida e capacidade cardiovascular de triatleta. Ou seja, a fadiga não atrapalhava sua percepção das reações do carro, o que o permitia usar exatamente os comandos disponíveis na dose certa, o tempo inteiro, sem deixar seu rendimento cair de maneira brusca durante a prova. E lembre-se que, nos tempos de Senna, não era raro ver pilotos parrudos, que conduziam seus carros na base da força bruta e que chegavam ao fim das provas completamente exaustos.

Obviamente, todos os tópicos expostos acima são uma mera tentativa de traduzir em palavras as ações que Senna fazia de maneira instintiva, quase que mágica, dentro de um carro de corrida. Para aqueles que não são muito chegados a argumentos rebuscados, a pilotagem do brasileiro pode ser explicada da maneira mais singela possível: Senna era rápido porque simplesmente era genial.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.