Desvendando o estilo dos gênios #3: Alain Prost, o professor da suavidade

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Alain Prost é figura carimbada em qualquer lista de credibilidade que menciona os maiores pilotos da F1 de todos os tempos. Os números do francês falam por si só: em 199 largadas, conquistou 51 vitórias (ou seja, venceu em 25% delas), 106 pódios (53%) e quatro títulos mundiais. Mais do que isso, Prost se manteve como protagonista da categoria do início dos anos 1980 à década de 1990, período em que houve várias mudanças tecnológicas nos carros.

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O curioso é que o tetracampeão deixou sua marca de maneira peculiar, já que boa parte do público pode considerá-lo menos capacitado em velocidade pura. Muito disso se explica pelo período em que dividiu a garagem da McLaren com seu arquirrival Ayrton Senna, talvez o maior gênio que o automobilismo já viu em treinos classificatórios.

Entre 1988 e 1989, Senna superou o francês em 28 de 32 treinos, com 26 poles, contra quatro do rival. Na média, o brasileiro obteve uma significativa superioridade de 0s6 nas tomadas de tempo. Nas corridas em si, em contrapartida, o equilíbrio era muito mais visível, o que resultou em dois campeonatos extremamente parelhos como companheiros de equipe, com um título para cada lado. Como isso era possível?

Prost não conseguia ser tão rápido quanto Senna na McLaren
Prost não conseguia ser tão rápido quanto Senna na McLaren

Prost se destacava por fazer com maestria algo que era fundamental para a F1 de sua época: ser veloz e consistente com o mínimo de esforço possível. O “Professor” impressionava com suas linhas visivelmente mais suaves do que os concorrentes, o que não diminuía em nada sua competitividade. Apesar de ter passado por maus bocados ao lado de Senna, o francês pôde superar outros parceiros altamente gabaritados, como os também campeões mundiais Niki Lauda, Keke Rosberg e Nigel Mansell.

O curioso é que Prost e seu nêmesis Senna eram competitivos de maneira altamente equilibrada com estilos de pilotagem quase que opostos. Como já explicamos na primeira parte deste especial, o brasileiro era mais brigão com o freio-motor, abusava de “bombadas” no acelerador e de movimentos com o volante; Prost, em contrapartida, adotava uma tocada menos brusca e de precisão milimétrica. Isso pode ser visto no vídeo abaixo:

Em velocidade pura, Prost não conseguia fazer frente à tocada insana de Senna, como os próprios números evidenciam. Mas, em corrida, o francês era de absoluta primeira classe. Seu estilo lhe permitia mais consistência não só pela suavidade na condução (em tese, Senna era mais propenso a erros com sua agressividade), mas também pela conservação do equipamento do início ao fim da prova.

O segredo do “Professor”

Um campeonato em que mais brilhou à sua maneira foi em 1986. Prost conseguiu adequar o MP4/2 exatamente ao seu estilo, anular totalmente Rosberg e, de forma surpreendente, conquistar o título. Segundo o diretor técnico da McLaren na época, John Barnard, nenhum piloto conseguiria extrair o rendimento do conjunto como fez o francês.

Isso porque Prost ajustava o carro para deixá-lo mais dianteiro, o que incomoda a maioria dos competidores. Para corrigir o equilíbrio, o tetracampeão carregava grande velocidade na entrada das curvas e tangenciava ligeiramente antes do ponto ideal. Em seguida freava de maneira suave, com o volante ainda virado.

Rosberg não conseguiu ser tão competitivo quanto Prost em 1986
Rosberg não conseguiu ser tão competitivo quanto Prost em 1986

Quando percebia que havia atingido a velocidade máxima no ápice da curva, soltava o pé do freio e deixava a traseira se posicionar quase que automaticamente para a saída. Com o carro já “neutralizado”, Prost conseguia acelerar mais cedo e despejar toda a potência do TAG Porsche turbo.

Rosberg, por sua vez, guiava da maneira mais tradicional: freava em linha reta, o mais tarde possível, e posicionava o carro no ponto de tangência de forma brusca. A redução mais repentina o fazia perder velocidade em relação a Prost na entrada das curvas, e, como seu carro era mais traseiro, não possuía a aderência necessária para conseguir usar motor de forma plena nas saídas. Assim, o finlandês era obrigado a aliviar o acelerador, o que também o deixava em desvantagem para o parceiro.

A tocada de Prost era mais eficiente no cronômetro por domar com maestria toda a potência do conjunto, e, na conservação do equipamento, a diferença era ainda maior. Prost era gentil com os freios e sabia bem quando pressioná-los e liberá-los a fim de evitar o desgaste. Rosberg até que tentou copiar o estilo do parceiro, mas desistiu depois de pouco tempo: para ele, era como “tentar fazer com que um destro escrevesse com a mão esquerda”.

“Prost conseguia economizar muito dinheiro às equipes em pastilhas de freio, pneus e câmbio, porque ele era muito suave. Lembro que, no famoso GP da Austrália de 86, Keke Rosberg teve um pneu furado e abandonou. Ao fim da prova, se olhamos para o câmbio e os freios de Prost, ele poderia fazer uma outra corrida. Os freios de Keke não aguentariam nem metade de uma corrida. Dizíamos a Alain: se você for fazer uma volta rápida, nos avise, porque poderíamos perder. Ele era suave demais”, espanta-se Jo Ramirez, ex-coordenador da McLaren, ao podcast do “Motorsport Magazine”

Essa era sua grande marca registrada: Prost era absurdamente veloz e consistente sem parecer que era rápido. A história do automobilismo talvez nunca tenha visto um piloto que que conduzia o carro ao limite com tanta facilidade como o francês fazia. Em tempos em que era preciso conservar o equipamento e saber quando e como ser rápido, Prost se mostrava um competidor completo. Isso, aliado a uma astúcia peculiar no jogo político da F1, o deixou sempre em posição de destaque e o permitiu esmagar as estatísticas da época.

“Eu me forcei para ser suave – na verdade, é 80% natural e 20% de esforço meu para guiar desse jeito. Sempre me preocupei em manter o carro inteiro porque é assim que se conquista os melhores resultados”, define Prost

Com essa disciplina mental tipicamente de um professor e uma técnica refinada e única, Prost marcou história de forma bastante particular. O estilo de Senna, mais agressivo e espetacular, certamente era mais atrativo para os olhos do público. Mas é importante destacar que, na F1, há diversas maneiras diferentes de ser genial – e Senna sabia disso mais do que todos:

“Prost não gosta de andar tão rápido quanto eu. Mas, quando ele quer, é rápido como ninguém”

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Renato Rafa Souza

    Realmente, o Prost foi o piloto mais técnico da F1 daquela época. Naquela época os carros eram projetado para o motor durar só uma corrida, os câmbios não eram semiautomáticos como os de hoje, ou seja, errar uma marcha naquela época era sinal de provável aumento de giro do motor e posterior quebra, o baixo peso de 500 kgs fazia um quebrar se encostasse em algo, diferente de hoje onde os carros são muito robustos. Enquanto hoje um piloto técnico tem índice de quebras em torno de 10 a 15%, naquela época era de 30 a 40% de quebras. O Prost foi uma exceção quebrou

  • Renato Rafa Souza

    Ótima reportagem

  • Douglas Pacheco

    Muito bom. Mal li essa e já estou esperando a próxima.

  • H_Oliveira

    Esperando ansiosamente por cada matéria!

  • Rafael Schelb

    O único problema nessa série é que tem demorado demais pra saírem os novos episódios… rsrsrsrs
    Tá totalmente excelente!

    (sim, eu sei que dá trabalho, tô só brincando… rsrs)