Desvendando o estilo dos gênios #4: Hamilton, o bruto do pedal esquerdo

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Lewis Hamilton é, indubitavelmente, um dos maiores talentos da F1 moderna. Os seus feitos falam por si só: três títulos mundiais (o tetra já está encaminhado) e praticamente meia centena de vitórias, com triunfos em todas as temporadas que disputou.

Em seus primeiros dias na F1 o inglês já mostrava sua enorme aptidão ao volante. Em 2007, aos 22 anos, estreou com a ingrata missão de ser companheiro de equipe de Fernando Alonso, que vinha de dois títulos mundiais. De forma surpreendente, Hamilton obteve resultados virtualmente idênticos aos do ilustre colega, cada um com 109 pontos, quatro vitórias e 12 pódios.

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Curiosamente, os dois registraram feitos parecidos naquele ano com características sensivelmente diferentes. Alonso tende a ser menos violento com o breque, e, assim como fazia Alain Prost, constantemente sobrepõe a frenagem ao esterço do volante. Com as mãos, faz movimentos súbitos para manipular o balanço do carro (detalhes mais aprofundados sobre a tocada do espanhol ficam para um outro artigo).

Não é incomum ver Hamilton em uma travada de rodas (Mercedes)
Não é incomum ver Hamilton em uma travada de rodas (Mercedes)

Hamilton, por sua vez, adota o estilo mais tradicional possível, com freadas tardias e brutas e o uso de sua sensibilidade para domar um carro traseiro. Por brecar “para lá do Deus me livre”, o inglês tende a sobrecarregar as rodas – o que causa ocasionais “travadas” – para, então, aliviar o pedal da esquerda gradativamente e continuar carregando velocidade para a entrada das curvas.

Como costuma frear mais tarde, Hamilton permanece em linha reta por mais tempo na aproximação de uma curva do que aqueles que reduzem antes e, consequentemente, tomam a trajetória mais cedo. Porém, quando inicia a sua tomada, o inglês mostra controle magistral da traseira do carro, que escorrega no limite de sua aderência, mas sem perder estabilidade.

Isso acontece graças ao enorme feeling de Hamilton, digno de um dos talentos mais latentes ao volante. Sua tocada se apoia massivamente em seus sentidos: exemplo disso foi o que aconteceu em parte da temporada de 2015, quando o inglês se sentia incomodado com o equilíbrio de seu W06. Bastou erguer seu assento em 5 mm, o que melhorou consideravelmente sua visão, para que os problemas desaparecessem.

Lewis Hamilton (Mercedes/Divulgação)
Tocada de Hamilton se apoia em sua sensibilidade (Mercedes/Divulgação)

Para colocar seu potencial em prática, Hamilton precisa, sobretudo, de um freio que corresponda às suas expectativas. Em 2013, quando trocou a McLaren pela Mercedes, ele sofreu com o sensível conjunto da fabricante Brembo, o que o impedia de frear mais tarde do que Nico Rosberg. Com a temporada em andamento, o inglês pediu para que seu carro passasse a usar os mesmos freios de seus tempos de McLaren, da Carbon Industries, cujo pedal é mais duro e produz maior capacidade de frenagem.

LEIA TAMBÉM: Conheça os detalhes da brutal arte da frenagem da F1

Mas, se na comparação com Alonso os estilos eram diferentes, com Rosberg a coisa fica mais aproximada. Os dois possuem gostos parecidos no equilíbrio do carro (preferencialmente saindo de traseira), o que também reflete no acerto usado por cada um. Segundo o diretor técnico da Mercedes, Paddy Lowe, as diferenças ficam no ajuste fino, via de regra no equilíbrio dos freios – Hamilton joga maior carga para as rodas de trás do que Rosberg.

Hamilton 2
Inglês e Rosberg possuem abordagens semelhantes no acerto do carro (Mercedes)

Desta forma, o carro de Hamilton tende a escorregar mais com a traseira durante a freada, e o tricampeão segura as pontas na base de seu feeling extremamente apurado. É aí que mora a principal diferença de abordagem entre os dois parceiros na Mercedes: Rosberg, por ter menos aptidão de controlar o carro naturalmente, busca deixar cada componente funcionando com perfeição para seu estilo; Hamilton apenas quer um conjunto que seja bom o bastante – de resto, ele faz a diferença no cockpit e se adapta às condições que tem pela frente.

Como possui um carro mais “redondo” na mão, Rosberg consegue proporcionar uma briga mais apertada com Hamilton nos treinos classificatórios. Mas, nas corridas, em condições que mudam constantemente, como o desgaste de pneus e carro gradativamente com menos peso graças ao consumo de combustível, Hamilton se impõe com mais autoridade com seu tato acima da média. Isso também se aplica no molhado, quando o inglês frequentemente se sobressai – a exemplo do que aconteceu em Mônaco em 2016, quando chegou a ser cerca de 2s mais rápido por volta nas condições mais traiçoeiras.

Se Rosberg adota uma abordagem mais científica e detalhista, Hamilton apresenta maior confiança em seu talento puro. Às vezes a briga fica mais parelha, como foi visto em 2014 ou na primeira metade de 2016, mas, no geral, fica difícil para o alemão fazer frente de forma constante e a longo prazo. Nada de surpreendente para quem divide a equipe com um dos grandes pilotos dos tempos modernos.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Luiz Marcos

    Como eu queria ver o detalhe do kimi..

  • ExpressoDaParaíba

    Meu deus, melhor série de posts!!! Não to aguentando de espera pelo do Piquet kkkkk

  • Leandro Farias

    No aguardo dos artigos de Fangio, Lauda e Piquet.

  • Diogo Rengel Santos

    Tá sensacional esta série do Projeto Motor sobre as tocadas dos pilotos. Isto rende material à beça, pra um livro inclusive.

    Parabéns e que continuem produzindo excelente conteúdo aqui no site.

  • MarcioD

    Considero-o o piloto mais rápido do grid atual. Jogou fora o titulo de 2007, onde poderia se tornar o 2º estreante a ser campeão(Farina o 1º por razões óbvias), confrontou Alonso, que muitos consideram o piloto mais completo dos últimos anos, que estava no auge, saindo de um bicampeonato e que fora contratado a peso de ouro pela Mclaren, terminando na frente dele no campeonato(maior nº de 2ºs) com mais poles(6×2), melhor posição de largada(10×7) e perdendo em melhores voltas(2×3).
    Quebrou a “maldição” da categoria de acesso(F-2, F-3000, GP2), que durou 40 anos, se tornando o 1º campeão de uma dessas categorias ao ser campeão na F-1 em 2008, foi portanto o 2º a ser campeão no 2º ano(Fangio o 1º). Está a 2 vitórias de empatar com Prost, se tornando o 2º piloto mais vitorioso na F-1. Em nº de poles só perde para Schumacher e Senna. Os nºs falam por si.

  • Bravo Rezende

    Tá bom… Continuo aguardando o capítulo de “Desvendando o estilo dos gênios ” do tetracampeão Sebastian Vettel.

    • Virgil Luisenbarn

      Chegou finalmente.

      • Dannny369

        Chegou também.

  • Douglas Pacheco

    No domingo ele vai perder pelo menos 15 posições por causa de trocas de peças do motor, vamos ver como se sai.

    • Leandro Farias

      E chegou.

      • Douglas Pacheco

        Pois é. Recebeu uma mãozinha do Verstapinho, Raikkonen e Vettel.

        Agora ele tem vantagem na quantidade de motores sobre o Rosberg