Desvendando o estilo dos gênios #5: Clark, o maestro das tomadas incomuns

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No quinto artigo da nossa série “Desvendando o estilo dos gênios”, detalharemos mais a fundo a tocada de Jim Clark, figura que intrigou o automobilismo por sua ambivalência visível: homem tímido e introvertido fora das pistas, piloto diabolicamente veloz dentro delas.

Clark brilhou em uma época em que as diferenças no estilo de cada piloto eram mais visíveis ao olhar. Graças ao perfil dos carros dos anos 1960, com baixa pressão aerodinâmica e pneus sulcados, a pilotagem tinha tons mais plásticos, e cada competidor podia aplicar sua condução própria, de modo que isso era visto facilmente pelo público.

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Para esmiuçarmos a técnica de Clark, é preciso desapegar do conceito tido como o mais convencional: freadas tardias e fortes em linha reta, vértice da curva bem definido e retomada da aceleração já na fase final da tangência. Talvez essa seja a realidade do automobilismo moderno, com carros estabilizados pelo efeito do downforce em que derrapadas são sinônimo de “perda de tempo”.

Clark é até hoje, e com sobras, recordista em número de grand chelems: oito
Clark, assim como vários dos anos 60, abusava das escorregadas

Não era o caso dos anos 60 – aliás, as imagens da época eram verdadeiros colírios para os olhos com seus carros deslizando quase que em sincronia. Andar “de lado” era visto como uma das formas mais eficientes de ser rápido, e quem já teve a chance de dar umas voltas no simulador “Grand Prix Legends” (coisa que este escritor já tentou fazer, sem grande sucesso) pode ter uma ideia.

Uma técnica usada não só por Clark, mas também por outros grandes nomes da época, é o chamado trail braking. Trata-se do uso sincronizado do freio e do volante, aplicando cada comando de forma gradativa e ajustando sua “dose” dependendo do ponto da curva. Em resumo, é “frear virando”. O desenho abaixo, em inglês, mostra bem o conceito: em vermelho está a carga aplicada nos freios, e em verde mostra-se o quanto o volante está esterçado:

trail-braking

Mesmo assim, havia particularidades dentro de um estilo aparentemente semelhante. Clark adotava um uso magistral dos comandos, ou seja, dominava não só freio e volante, mas também o acelerador. O escocês, na base da sensibilidade apurada, ajustava as escorregadas de maneira precisa e responsiva, sem grandes movimentos bruscos. Assim, seu carro deslizava costumeiramente de um jeito uniforme nas quatro rodas.

Clark com o Lotus 49-Ford Cosworth no GP da Holanda de 67 (Sutton)
Clark com o Lotus 49-Ford Cosworth no GP da Holanda de 67 (Sutton)

O que se ganhava com isso? Primeiramente tempo, já que, assim, a velocidade se mantinha mais constante durante as tomadas (uma escapada de traseira ou de frente exigiria eventuais correções). Além disso, Clark conseguia ser absurdamente suave e mantinha seus componentes conservados, algo importantíssimo em uma época de carros frágeis.

Um engenheiro da Dunlop comparou ao jornalista Peter Windsor o estilo de Clark com o de outros grandes nomes da época: Jack Brabham abusava mais seus pneus traseiros, enquanto que Dan Gurney e John Surtees se apoiavam nos dianteiros. Clark, mais neutro, gastava menos e de forma mais equivalente a borracha de suas quatro rodas.

“Sei que tenho a tendência de entrar em uma curva mais cedo do que a maioria das pessoas. Eu prefiro ‘cortar’ a curva e, com meus freios acionados, apontar o carro mais cedo. Desta forma, eu crio um vértice falso, porque eu acelero mais cedo e escorrego com o carro até a tomada real, para, então, continuar escorregando até que eu chegue à reta seguinte”, detalhou Clark, em sua autobiografia “Jim Clark At The Wheel”

Em resumo, trata-se do uso da dose certa do freio, movimentos precisos e mínimos ao volante, trajetória incomum (cujo desenho visto de cima teria um perfil um tanto quanto estranho) e o acelerador como auxílio para direcionar o carro nas curvas. Outra lenda da F1, Jackie Stewart detalhou ao podcast da “Motorsport Magazine” as lições que recebeu de Clark no início de sua carreira:

“Quando você vai se aproximar de uma curva, não se deve tirar o pé de uma vez do acelerador. Você precisa tirar gradativamente para não sentir a desaceleração, e aí pisar no freio gentilmente. A mesma coisa acontece no volante: o primeiro movimento precisa ser gentil para só depois virar mais. Você gasta menos combustível, menos pneu, menos freios. Suavidade é a palavra.”

A tal suavidade de Clark era obtida graças a uma sensibilidade monstruosa ao volante. Isso também resultava em uma versatilidade em seu estilo, o que foi visto durante o mágico ano de 1965, quando competiu em nada menos que 59 eventos, de todos os tipos de modalidade, dominou a F1 e venceu as 500 Milhas de Indianápolis.

Curiosamente, seu estilo “camaleão” também lhe rendeu as poucas críticas que foram feitas à sua pilotagem. Muitos consideravam que Clark tinha dificuldades em apontar defeitos em seus carros porque ele simplesmente se adaptava a eles, independentemente de seu equilíbrio ou característica.

“Eu consigo chegar próximo ao limite com um carro que sai de traseira. Mas não deve sair muito de traseira. No que diz respeito à F1, tenho uma leve tendência a carros que saem de frente”, definiu Clark à revista “Autosport”

Em talento puro ao volante, Clark atingiu um nível que talvez só foi obtido posteriormente por Ayrton Senna. E, assim como o brasileiro, o escocês morreu cedo, com apenas 32 anos. Talvez pelo fim precoce seus números não façam jus às suas habilidades. Mas esqueçam as estatísticas: o legado de Clark no automobilismo foi a redefinição do que é ser um verdadeiro piloto de corridas habilidoso e polivalente.

Confira os outros textos da série “Desvendando o estilo dos gênios”:
1: Ayrton Senna, o mestre das patadas
2: Michael Schumacher, o malabarista dos pedais
3: Alain Prost, o professor da suavidade
4: Lewis Hamilton, o bruto do pedal esquerdo 

Debate Motor #50: Nos 25 anos do tri, qual foi a melhor temporada de Senna?

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Fórmula Finesse

    Um dos melhores de sempre; top five – ótima matéria!

  • Diogo Rengel Santos

    Sensacional esta série. Legal terem feito a análise de um piloto “das antigas”. E principalmente explicarem o trail braking.

    E olha que não é uma técnica fácil pois requer muita sensibilidade. Este artigo em inglês dá uma análise mais completa. É um grande aliado principalmente para ganhar tempo nos track days

    https://www.carthrottle.com/post/how-to-trail-brake-and-why-itll-make-you-a-faster-driver/

  • Dox

    No turismo, e categorias sem dependência de pressão aerodinâmica, ainda dá para apreciar esta arte de pilotar.
    Mas nada como o kart para expor as tocadas.

  • H_Oliveira

    Aguardando ansiosamente cada matéria! E esperando mais nomes das antigas, como Fangio, Nuvulari entre outros, se possível!

    • Obrigado pelas sugestões! Na medida em que formos coletando informações, vamos produzindo novos artigos. Abraços

      • Parou de fazer esses especiais? Faz do Alonso. Valeu!

        • Opa, não parei de fazer! não. Na verdade, essa é uma série meio que contínua por aqui, então não temos planos de encerrá-la tão já. O Alonso está na nossa lista de textos para o futuro, assim como alguns outros nomes, então fique ligado! Valeu!

  • Leandro Farias

    Muito bom. Me preocupei com a demora e pensei que a “Desvendando” tinha acabado. Vai voltar de vez? =D

    • Fala, Leandro! Valeu pela força. A série segue firme e forte, e não pretendemos concluí-la tão já. Mas, como é um material bem denso e trabalhoso para produzir, então não deveremos soltar textos com a mesma frequência de antigamente. Mas a série vai continuar! Abraços

  • Pablo Habibe

    Clark e sua geração pegaram a mudança dos motores 1.5 para 3.0. Não lembro quem disse (talvez Stirling Moss), que o importante nos carros de baixa potência era manter o embalo. A falta de torque para retomar a velocidade seria um problema grave naquele período. Com os motores 3.0, a equação mudou. Apesar de ele ter conquistado seus títulos antes da mudança, ele continuou competitivo depois dela.

    Aquela geração, de Clark, Hill e Brabham, com Dan Gurney e Dennis Hulme correndo por fora e que ainda pegou Jackie Stewart e Jochen Hindt, é provavelmente a melhor da história do automobilismo. Ser considerado o melhor dela não é pouca coisa…

  • felipe

    Clark era semelhante à Senna no que diz respeito a se adaptar a qualquer carro. Tanto que na Mclaren Senna resolveu não participar dos testes de pré-temporada em 1989, deixando tudo para Prost, sabia que seria infrutífero tentar desenvolver o seu próprio acerto para o carro, pois provavelmente seria inferior ao de Prost. Passou a usar o acerto de Prost e ainda foi mais rápido que ele naquela temporada. As quatro vitórias de Alain Prost em 1989 só vieram em corridas com abandonos de Senna. Prost e muitos outros até suspeitaram que a Honda estava fornecendo motores mais potentes para Senna. Mas a verdade é que a Honda fazia o sorteio dos motores com os dois pilotos como testemunhas, ele apenas passou a desenvolver uma desculpa interna que desse razão ao seu desempenho inferior.

  • Luiz S

    Tempos em que pilotar tinha um
    sentido mais puro, mas como tudo na vida temos a “evolução” ao longo do tempo.