Desvendando o estilo dos gênios #6: Vettel e sua tocada pouco ortodoxa

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O fato de Sebastian Vettel ter se tornado um dos grandes campeões da história da F1 mostra que, ao contrário do que muitos insistem em dizer, os pilotos da era moderna conseguem expressar suas particularidades no cockpit, adotar um estilo bastante próprio e ainda assim serem bem sucedidos.

Na atual década, o alemão dividiu praticamente todas as láureas com Lewis Hamilton, um piloto que, como já explicamos em outro artigo desta seção, aplica com brilhantismo um conceito mais convencional de tocada: freadas tardias e violentas, com a traseira controlada pela sensibilidade ao volante.

Vettel, por sua vez, acumulou títulos na F1 pondo em prática um estilo nada ortodoxo, mas que alcançou grande sucesso por extrair o máximo de um conjunto que, na verdade, parecia concebido justamente para se encaixar com perfeição a ele.

Conceitos básicos

Vettel 2

Contrariando o que muitos pilotos fazem, Vettel não costuma frear de maneira tão brutal, já que tem preferência por carregar bastante velocidade na entrada da curva. Com as mãos, o alemão também faz movimentos mais contidos no início da tomada, apenas com o objetivo de apontar o carro em direção ao ponto de tangência.

Para isso, “Seb” precisa de uma frente confiável e responsiva, que reaja de maneira precisa aos seus comandos ao volante. Uma vez que consiga apontar o carro para a entrada da curva, Vettel aciona o acelerador bem cedo, justamente para que a escorregada das rodas traseiras com a tração ajude a posicionar o conjunto no ponto em que ele quer – desta forma, suas curvas acabam sendo mais “curtas” em relação aos seus rivais, já que adota uma trajetória de saída, com o acelerador acionado de forma plena, também muito cedo.

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A fim de tirar proveito deste estilo, Vettel necessita de uma traseira estável; caso contrário, das duas uma: ou ele não possui a confiança necessária para carregar grande velocidade para curva, ou pode perder a harmonia na saída, escorregar além do necessário e perder tempo. Mas, quando se entende com o carro, o alemão se destaca especialmente nos trechos mais sinuosos e de baixa velocidade, que exigem medidas ágeis e certeiras ao volante.

Em estado de graça

O auge de Vettel na Red Bull veio nos anos em que conquistou títulos de maneira avassaladora, quando conseguia aperfeiçoar sua pilotagem a um item que era a coqueluche de projetistas e engenheiros na época: o difusor soprado.

Vettel 3

Para quem não se lembra do que se trata, uma recapitulação rápida: a intenção era de que os gases do escapamento fossem direcionados à área do difusor dos carros, o que provocava um grande aumento na eficiência aerodinâmica. Contudo, os ganhos eram tão grandes que chegou-se ao ponto de os motores serem mapeados para soprar gases até mesmo quando o acelerador não fosse acionado. Os pilotos, então, precisaram reeducar suas tocadas para utilizar o novo recurso em sua plenitude, já que entrar na curva com velocidade carregada e ainda assim acelerar cedo trata-se de algo que não é exatamente intuitivo para alguém com uma pilotagem mais convencional.

Foi com essa fórmula que Vettel deitou e rolou em 2011: ele apontava a frente de seu carro na curva com velocidade alta, como gosta de fazer, e a estabilidade extra proporcionada pelo difusor soprado fazia com que a traseira fosse conduzida da forma que ele queria.

E tudo era feito na medida certa. A sinergia entre Vettel e o RB7 era tamanha que chegava-se ao limite, mas sem extrapolá-lo, o que evitava desgaste excessivo dos pneus – justamente no primeiro ano de utilização dos frágeis compostos da Pirelli, que deram dor de cabeça a muita gente.

Em 2012, com o banimento do difusor soprado, Vettel perdeu um pouco desta vantagem – tanto é que, em determinado momento do campeonato, esteve atrás de seu então companheiro, Mark Webber, na tabela de pontuação. Porém, algumas atualizações feitas no RB8 em meados da campanha, sobretudo com o redesenho da parte traseira da carenagem, mais uns ajustes na suspensão, fizeram com que o conjunto novamente tivesse a tendência de “rolar” na parte traseira, o que fez o alemão novamente sobrar (e isso, obviamente, não agradou a Webber).

Multicampeão em crise e a volta por cima

Vettel Melbourne 2017

Quando o novo regulamento técnico entrou em vigor, em 2014, alguns dos grandes trunfos de Vettel foram perdidos. Com a diminuição da pressão aerodinâmica, o tetracampeão não se sentia confortável nem com a dianteira, nem com a traseira de seu carro; além disso, uma unidade de potência que proporcionava maior torque o fez readaptar seu estilo de acelerar mais cedo.

Assim, Vettel perdeu a confiança em sua pilotagem e não conseguiu colocar em prática o que fazia anteriormente. Foi o que proporcionou o surgimento de Daniel Ricciardo, que, além de ser constantemente mais veloz que o alemão, também fazia melhor uso dos pneus – fator fundamental para suas três vitórias naquele ano.

Em 2014, aliás, Vettel enfrentou um verdadeiro inferno astral, já que sofreu com a falta de confiabilidade como nunca tinha acontecido em seus anos na Red Bull. Isso não só o atrapalhou em termos de pontuação no campeonato, mas também impediu que ele acumulasse mais quilometragem em pista na tentativa de se adaptar ao RB10.

O tetracampeão precisava de novos ares, e isso veio com a transferência para a Ferrari, em 2015. A mudança se mostrou acertada não apenas pelo ambiente diferente (já que era a primeira vez que o piloto deixava as asas da Red Bull), mas também pelo carro que encontrou em Maranello: enquanto que Adrian Newey buscava números mais expressivos em downforce, James Alisson optou por um desenho que favorecesse uma tocada mais consistente e fluída, mesmo que isso trouxesse resultados menos impressionantes em túnel de vento.

Era o que Vettel precisava, pois ali ele voltou a dar mostras do piloto que era nos tempos de glória na Red Bull, com confiança, tranquilidade e estrutura para entregar resultados. Por isso, independentemente do que a temporada de 2017 irá proporcionar, o que deve marcar a F1 nos próximos anos é o embate entre os brilhantes multicampeões da atual geração, com a possível participação de outros talentos notáveis, como Ricciardo e Max Verstappen. Variedade de estilos para que cada um possa escolher o piloto que mais agrada não faltará aos fãs.

Confira os outros textos da série “Desvendando o estilo dos gênios”:
1: Ayrton Senna, o mestre das patadas
2: Michael Schumacher, o malabarista dos pedais
3: Alain Prost, o professor da suavidade
4: Lewis Hamilton, o bruto do pedal esquerdo
5: Jim Clark, o maestro das tomadas incomuns
7: Fernando Alonso, o mago da manipulação do balanço
Bônus: Felipe Massa, do quase triunfo à queda pós-acidente 

Debate Motor #71 analisa o forte início da Ferrari na temporada de 2017:

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.