Desvendando o estilo – Especial: Massa, do quase triunfo à queda pós-acidente

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Felipe Massa, vice-campeão da F1 em 2008, com 11 vitórias, 16 pole positions e 41 pódios em seu currículo, pendura o capacete na categoria ao término da temporada de 2016. Será o fim de uma longa trajetória no topo do automobilismo mundial, na qual vivenciou momentos de glória e dificuldades, mas que, apesar de tudo, chega ao fim com o brasileiro recebendo todas as devidas e merecidas homenagens do paddock.

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O ano do vice-campeonato é visto, com justiça, como seu auge na F1. Ali, Massa teve performance digna de campeão mundial e viu o título escapar no detalhe. Contudo, poucos imaginariam que 2008 seria o último ano de um Massa vencedor, já que, dali em diante, o piloto apresentou imensa irregularidade e viu sua reputação ser colocada em xeque.

Muitos consideram que Massa nunca mais foi o mesmo piloto depois de sofrer a “molada” no GP da Hungria de 2009. De fato seu rendimento caiu de forma visível depois do incidente, mas há explicações técnicas para isso – e o Projeto Motor analisa a questão mais a fundo neste artigo.

Massa em estado de glória

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Em 2006, Massa chegou à Ferrari ainda como o garoto selvagem dos tempos de Sauber, superagressivo e propenso a erros. Naquele ano, o jovem brasileiro amadureceu a olhos vistos e deu início a uma fase altamente competitiva.

A combinação carro + pneus daquela época permitia a Massa fazer exatamente o que gosta: frear extremamente tarde e sobrecarregar a borracha dianteira na tomada das curvas. No começo de sua passagem por Maranello, o brasileiro ainda não havia encontrado o ponto certo da sobreposição do uso dos freios e do volante (ou seja, para brecar e esterçar ao mesmo tempo), o que resultava em grande tendência a “fritar” os pneus da frente. Com a chegada do engenheiro Rob Smedley, Felipe ganhou mais confiança no carro e chegou ao meio termo ideal.

LEIA TAMBÉM: Por que Massa foi o piloto brasileiro mais importante da era pós-Senna

Por mais que sua tocada comprometesse a tomada e saída das curvas, a entrada carregada de velocidade o fazia ganhar tempo. Em seu ano de glória, o F2008 apresentava a leve tendência em sair de frente, o que era compensado com a técnica do brasileiro em ser altamente agressivo nas entradas (já Kimi Raikkonen, afeito a carros neutros, apresentava maior dificuldade), com os largos pneus dianteiros fornecendo toda a aderência necessária.

Isso ficava ainda mais evidente nas classificações, disputadas na época com o carro com o combustível do início da corrida. O estilo de Massa estava perfeitamente adaptado ao F2008, o que, por muito pouco, não resultou em uma combinação campeã do mundo.

Mudanças em 2009 e o fim da boa fase

felipe-massa-2009

O regulamento técnico passou por mudanças profundas para a temporada de 2009. Primeiro, houve alterações nas dimensões das asas: a dianteira ganhou tamanho, enquanto que a traseira ficou mais estreita e alta. Além disso, a F1 também contou com o retorno dos pneus slick. Só que, com o fim dos sulcos, os compostos dianteiros tiveram proporcionalmente maior ganho de superfície de contato com o solo do que os traseiros.

Trocando em miúdos, em 2009 os carros passaram a ter a aderência concentrada na parte da frente, o que casou bem com o estilo de Massa – que, como dito acima, gosta de confiar na dianteira de seu carro para atacar. Apesar de um Ferrari F60 pouco competitivo, o brasileiro vinha fazendo temporada madura, com atuações sólidas. Até que veio a famosa “molada”…

A mola acabou com Massa?

massa-2010

Talvez só o próprio Felipe Massa possa responder com exatidão se o incidente do GP da Hungria de 2009 afetou suas habilidades ao volante. Independentemente disso, há outras questões que explicam a queda de rendimento do brasileiro após voltar de seu acidente.

Comecemos pelas justificativas técnicas. Em 2010, para corrigir a desproporção de aderência dos pneus dianteiros e traseiros do ano anterior, a Bridgestone reduziu a largura dos compostos da frente, que passaram a ser 2,5 cm mais estreitos. Com isso, o carro sofreu grande perda de aderência na porção dianteira, e Massa, apreciador de uma frente firme e confiável, enfrentou dificuldades. Se antes os pneus mais largos “aguentavam o tranco” nas tomadas do brasileiro, agora a situação havia mudado.

Pneu de 2010 ficou mais estreito e baixo do que o de 2009
Pneu de 2010 ficou mais estreito e baixo do que o de 2009

“Temos cerca de 30% de aderência a menos na frente. Sempre gostei de um carro com boa dianteira – às vezes ele pode sair um pouco de traseira, mas preciso de uma boa dianteira. Especialmente no fim da freada e na entrada das curvas. Em 2010, sofri muito com o fim das freadas e a entrada das curvas porque não tinha a aderência ideal na frente”, relatou Massa na época

GP BAHRAIN F1_2010
Alonso ofuscou Massa nos quatro anos de parceria na Ferrari (Studio Colombo)

O ano de 2010 também marcou o fim do reabastecimento durante as corridas, o que fez com que os carros largassem para os GPs cerca de 150 kg mais pesados do que antigamente. Para suportar essa maior carga de peso, a fornecedora japonesa endureceu a borracha dos pneus, com compostos que chegaram a ser maldosamente apelidados de “sola de sapato”. Massa simplesmente não conseguia aquecer os pneus, nem se apoiar nos dianteiros como fazia antigamente pela falta de aderência.

É claro que isso era só o começo de seus problemas. A partir daquele ano, Massa tinha ao seu lado um Fernando Alonso implacável na pista e centralizador fora dela (ao contrário do despojado Raikkonen de 2007 a 2009), o que o fez sucumbir na batalha interna e perder espaço. O simbólico “Fernando is faster than you” do GP da Alemanha foi a pá de cal na confiança do brasileiro, que, dali para frente, entrou numa espiral de decepções interminável.

Pneus Pirelli, um novo problema

A partir de 2011, haveria uma nova chance para Massa dar a volta por cima: a borracha superdura da Bridgestone seria substituída pela Pirelli, que contava com alto nível de desgaste. Mas tudo piorou ainda mais.

Massa, que sempre exigiu bastante de seus pneus dianteiros, não conseguia aplicar sua técnica com os compostos italianos – caso contrário, a borracha perderia performance em questão de minutos. Durante voltas lançadas, o brasileiro sofria para colocar seus pneus em sua estreita janela de desempenho: ou ele não conseguia aquecer os pneus e sofria com granulação, ou exagerava na dose e não os mantinha no topo de desempenho durante a volta toda.

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Massa também nunca conseguiu se encontrar com os pneus Pirelli

Vale lembrar que, naquele ano, a distribuição de peso passou a ser padronizada, o que fez com que houvesse um recurso a menos para o acerto do carro. E Massa simplesmente não soube se adaptar a um carro que saía de frente demais para o seu gosto. Durante as corridas, o ferrarista tentava compensar o subesterço e abusava do acelerador na saída das curvas, o que, naturalmente, resultava em enorme desgaste dos compostos traseiros.

Os pneus Pirelli basicamente exigiam uma tocada precisa e correta durante toda a trajetória da curva, algo que Massa nunca conseguiu fazer – ao contrário de Alonso, que possui estilo diferente e soube fazer as devidas adaptações com maestria.

Muitos podem interpretar o conteúdo deste artigo como um “livro de desculpas” para a queda do brasileiro. No entanto, de forma alguma Massa é uma vítima de todo este cenário – pilotos completos precisam ser “camaleões” e adaptar seus estilos conforme a necessidade dos tempos. Nisso, Felipe falhou.

Mas, então, o verdadeiro Massa é aquele “demônio” de 2006 a 2009 ou o competidor irregular de 2010 para frente? Felipe Massa é ambos – um piloto com limitações técnicas, mas que, quando as circunstâncias se encaixaram com seu estilo, soube tirar grande proveito. A campanha do brasileiro em 2008 foi digna de campeão mundial, e, se o título viesse, seria totalmente merecido. Poucos podem se dar ao luxo de sair de cena com um feito digno de tanto orgulho.

Debate Motor #54: Como um piloto se torna um dos grandes do esporte?

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Claudio Antonio Cesario Dasilv

    Antes eu não acreditava em um queda de performance de Felipe por causa da mola no Gp da Hungria de 2009, mas depois fiquei sabendo que ele tinha uma placa de titanio no lugar aonde a mola atingiu. Baseado no acidente de Senna e de outros pilotos aonde a desaceleração é uma vilã ao cerebro , não duvido que no futuro se fale algo sobre isso.

  • Martinho Franco

    Sensacional o site de vcs, parabéns.

  • Pedro Nuned

    Bruno, hoje 01 de maio de 2017, suas previsões feitas há 5 meses estão se confirmando o Massa voltou a andar bem e sua Williams mesmo com um orçamento pequeno está andando junto com a Red Bull. Parabéns.

  • Hecto Silva

    Muito bom, o projeto motor lembra muito os debatedores ingleses, todos os artigos tem boa base científica.
    O próprio Massa já disse que é um absurdo está tese da molada na cabeça. O dano cerebral foi zero, apenas um olho ficou ruim por 6 meses.
    Quanto as novas regras acredito que haverá um nivelamento na pilotagem….pois haverá muito menos frenagem, troca de marchas e aceleração, o que é muito bom para o Massa, mas não da para esperar milagre, o orçamento da Williams é a metade das grandes equipes.

  • Bruno Pinheiro

    Excelente post! Como todo o conteúdo aqui do Projeto Motor.
    Será que a queda do Massa pós acidente não tem mais a ver com a falta de adaptação aos carros do que relação propriamente dita com o acidente?

    Creio que as coisas vieram ao mesmo tempo e pode ser usada a desculpa do acidente. Porém na realidade os carros mudaram, ele saiu da Ferrari e etc.

    Não podemos esquecer também que o fato da batida do Nelsinho também influenciou na decisão do campeonato de 2008.

    Abraços,

    Bruno

  • Krypto The Superdawg

    Se a suposta perda de confiança decorrente de grandes acidentes for realidade, a parte técnica ganha um fator extra.

    Acostumado a frear muito tarde e muito dentro das curvas, Felipe pode ter perdido o “timing” disso, o que aliado a uma seção dianteira menos presa ao chão arruinou completamente a grande vantagem de seu estilo.

    Com pneus dianteiros menos grudados (apesar da horrenda mega asa dianteira) essa falta de aderência deve ter feito o piloto se sentir ainda mais inseguro naquelas frações de segundos antes de decidir freiar e contornar a curva.

    Velocíssimo em seu estilo e pouco maleável ante as mudanças nos carros.

  • Gabriel Pena Catabriga

    Com a mudança do regulamento para o ano que vem o Massa deveria tentar mais um ano, seria um tiro no escuro, pois mudaram muitas regras, mas poderia entrar em uma equipe vencedora e tudo indica que os pneus mais largos encaixariam com o estilo de pilotagem dele, talvez tenha sido precipitada sua saída

    • Fala, Gabriel! A única coisa que me faz ter ressalvas sobre as possíveis chances do Massa é que os pneus de 2017 terão a mesma proporção do que se vê em 2016 (eles serão 25% maiores tanto na dianteira quanto na traseira). Ou seja, ainda poderia ser que o Massa não tivesse a aderência que precisasse na frente do carro, já que, proporcionalmente, será tudo mais ou menos igual do que temos neste ano. Mas, realmente, só saberíamos a resposta ao certo na prática, o que não vai acontecer… Abraços!

      • Gabriel Pena Catabriga

        Parece que vamos confirmar essa dúvida Bruno. Massa assinou mais um ano com a Williams.

        • Verdade, Gabriel. O problema é que perdeu-se o referencial interno com a parceria com o Lance Stroll (vai ser um pouco difícil medir a real competitividade do canadense), mas, mesmo assim, vai ser interessante ver como o Massa se sairá em 2017. A Williams promete um pacote competitivo, então pode ser um ano bacana para o brasileiro.

  • Andre Luis Coli

    Boa análise.

  • Diogo Rengel Santos

    Cara, adoro estas análises são fantásticas e claro que a do Massa foi muito boa.

    E no caso do Felipe, dava pra ver que a tocada agressiva dele não combinava com a necessidade de ser gentil com os pneus Pirelli – curiosamente o Jenson Button começou a se destacar mais pela tocada gentil e capacidade de preservar os pneus.

    Fica mais uma pergunta no ar: com a mudança dos carros para o ano que vem – e principalmente com mais asa e pneus mais largos será que o carro não ficaria mais ao gosto do piloto?

    Enfim, fiquemos apenas no “e se…”

    • Fala, Diogo.

      Essa é uma pergunta que me fiz várias vezes enquanto escrevia esse artigo. Fica difícil pensar em uma resposta porque ainda não se sabe com exatidão como que os pneus Pirelli de 2017 funcionarão. Sabe-se que a borracha será mais dura (vamos dar mais detalhes o Projeto Motor nos próximos dias), mas será que isso ajudaria o estilo do Massa? Ou seria a reedição de 2010, quando ele não conseguia aquecer os pneus duros da Bridgestone de jeito nenhum?

      De qualquer forma, uma coisa dá para levar em consideração: os, pneus serão maiores em proporção igual, então a relação de aderência entre os compostos dianteiros e traseiros será a mesma do que acontece em 2016. E neste ano ele vinha sofrendo… Mas, de fato, vamos ter que nos contentar com o “se”. Abraços e obrigado pela participação!

      • Virgil Luisenbarn

        É mais ou menos como no futebol. Enquanto o Massa poderia ser considerado como um time ofensivo e sabia explorar os espaços do adversário, fazer marcação alta e distribuir passes no campo adversário, houve hegemonia (tipo Barcelona de Guardiola), mas assim que alguns se atiçaram a desenvolver um antídoto contra esse domínio, nem sempre Pep triunfou.

        ”Minha analogia se completa com o último parágrafo do texto, do qual concordo:
        Mas, então, o verdadeiro Massa é aquele “demônio” de 2006 a 2009 ou o competidor irregular de 2010 para frente? Felipe Massa é ambos – um piloto com limitações técnicas, mas que, quando as circunstâncias se encaixaram com seu estilo, soube tirar grande proveito.”

        Quando alguém não sabe reagir a uma reação do outro no futebol, geralmente dizemos que o ”estilo ficou manjado”. E o estilo manjado do brasileiro (mesmo eu sendo meio ignorante em F1), dava pra perceber que ele era bem agressivo em seu auge. Os fatos explanados no texto ajudaram a elucidar algo que eu já pensava quanto a compostos de pneus e equipe.

  • Fórmula Finesse

    Malgrado os erros bobos da Ferrari em 2008 (e a quebra do motor), Massa poderia ter sido campeão se também não tivesse cometido falhas tolas…

  • Luiz S

    Nunca tinha pensado nisso, mas me pareceu um pouco o estilo do Mansell. Se o carro como um todo se adequa OK, arrebenta! Se não ele não consegue alterar o estilo de pilotagem ao carro, ou ainda tentar modificar alguns acertos para o carro se comportar melhor ao seu estilo.
    Ainda que o Mansell, no meu ponto de vista era mais aguerrido.

    • Diogo Rengel Santos

      Pois olha, o Massa como o nosso Mansell não é nada muito absurdo assim guardadas as devidas proporções

    • Lembra que em 2008 chegaram a apelidar o Felipe de “Nigel Massa”? Hahahah, de fato há algumas semelhanças.

      • Luiz S

        Essa eu não conhecia!!! Mas na era pré 2007 fazia tido sentido kkk

  • ExpressoDaParaíba

    Muito interessante a análise, e na real faz total sentido, Massa nunca foi um piloto excepcional capaz de se adaptar a grandes mudanças, mas como foi dito no texto, quando se tinha um carro ao estilo dele, ele correspondia muito bem!
    Fazia tempo que não vinham os posts do estilo dos pilotos kkk melhor serie sobre F1 da internet! Por favoooor façam sobre o Piquet!!!!

    • Luiz S

      Teu nickname vai andar no carro da minha foto esse fds…rsrsr
      Coincidência

      • ExpressoDaParaíba

        Kkkkkk verdade

    • Muito obrigado pelas palavras! Fica tranquilo, porque o Piquet é um piloto que queremos abordar nessa série. Assim que conseguirmos levantar as informações (o que não é exatamente fácil para montar os posts), publicaremos algo sobre ele. Valeu pela força e abraço!