Di Grassi e a estranha sina de nunca ter conseguido cacifar um título

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Vice-campeão da F-Renault. Vice-campeão da F3 Sul-Americana. Terceiro colocado na F3 Euro Series. Vice-campeão da GP2 e terceiro colocado em outras duas oportunidades. Terceiro colocado no Mundial de Resistência. Terceiro colocado e depois vice-campeão da Fórmula E.

Não dá para negar que Lucas di Grassi tem sido competitivo em qualquer categoria da qual participa. Com exceção à F1, em que entrou na barca furada da Virgin (e apresentou um desempenho ruim frente a Timo Glock, sejamos honestos, porém numa circunstância em que fica difícil definir parâmetros de maneira tão precisa), o volante natural de São Paulo sempre deu um jeito de se colocar entre os ponteiros nas séries que disputou de forma integral.

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Agora releia o currículo resumido no parágrafo inaugural deste artigo. Sentiu falta de alguma coisa? Em nenhum momento você leu a expressão “campeão”, correto? Pois nem a lista nem sua leitura estão equivocadas: embora seja um habitual postulante a títulos, Di Grassi jamais encerrou uma campanha com a taça na mão desde que deixou o kart para ingressar na carreira a bordo de monopostos.

É provável que essa notícia tenha deixado o douto leitor um bocado surpreso. Afinal, não foram poucas as vezes em que o brasileiro chegou à última etapa de um campeonato brigando pelo topo da tabela. O último revés ocorreu no domingo passado (3), na Fórmula E: após desastrosa manobra na largada da bateria decisiva em Londres, Lucas perdeu a taça por uma volta mais rápida. Além de bater no rival Sébastien Buemi, o representante da Abt Audi ainda tentou atrapalhar as tentativas de passagem voadora do oponente. Não conseguiu.

Por que o automobilismo tem sido tão cruel com um ás aparentemente dedicado, inteligente, bem articulado e com reconhecida expertise técnica? É o que o Projeto Motor tenta explicar a partir de agora. Di Grassi é fruto da última boa safra de pilotos surgida no país – aqui estamos falando de um grupo com várias opções, não de meros nomes isolados. Títulos no kart não faltaram: paulista, sul-americano e pan-americano vieram entre 98 e 2000.

Mesmo favorito na decisão da F-Renault, em 2002, teve uma apresentação ruim e viu a taça escapar para o colo de Sergio Jimenez
Mesmo favorito na decisão da F-Renault, em 2002, teve uma apresentação ruim e viu a taça escapar para o colo de Sergio Jimenez

Foi no salto para a à época recém-fundada F-Renault Brasil 2.0, em 2002, que sua sina começou. Então aos 18 anos, o paulistano foi o único a vencer mais de uma entre as dez etapas realizadas na temporada de estreia da categoria bancada por Pedro Paulo Diniz. Chegou à rodada final, em Interlagos, como favorito diante dos concorrentes Allam Khodair e Sergio Jimenez. Entretanto, fez um fim de semana abaixo das expectativas (oitavo no grid; nono na corrida), enquanto Jimenez largou em segundo e cruzou em terceiro, garantindo a coroa mesmo sem ter triunfado em nenhuma prova.

No ano seguinte migrou para a a F3 Sul-Americana, onde defendeu a Avallone. Nada pôde fazer contra a superioridade técnica da Cesário, mas ainda assim conseguiu outro vice, desta vez contra Danilo Dirani. O mais bizarro é que, enquanto Dirani faturou 14 das 18 baterias, Di Grassi foi o vencedor de somente uma. A pontuação final refletiu tal disparidade: 317 contra 164, quase o dobro.

Chegara a hora de ir à Europa e Lucas, agora como membro do programa de jovens talentos da Renault, realizou temporada de altos e baixos na F3 Britânica, em 2004: duas vitórias, duas poles e seis pódios, porém um discreto oitavo lugar na classificação final. O ano sequente foi de afirmação: vitória no GP de Macau, o mais tradicional páreo da F3 e provavelmente seu ápice na carreira até aqui, além de pódio no Masters de Zandvoort e um terceiro posto no campeonato da F3 Euro Series, atrás de Adrian Sutil e de um tal de Lewis Hamilton, o campeão.

Vitória no GP de Macau da F3, tendo Robert Kubica e Sebastian Vettel ao lado no pódio, foi maior glória na carreira de Di Grassi até aqui
Vitória no GP de Macau da F3, tendo Robert Kubica e Sebastian Vettel ao lado no pódio, foi maior glória na carreira de Di Grassi até aqui

A escalada continuou em 2006, com subida à GP2. Di Grassi precisou migrar da Durango para a campeã ART, em 2007, a fim de se firmar como um dos nomes fortes da principal classe de acesso à F1. Quando enfim conquistou a primeira vitória, na rodada de Istambul de 2007, já era postulante ao título. Iniciou a rodada dupla decisiva, em Valência, só dois pontinhos atrás de Timo Glock, mas sucumbiu novamente à pressão: saiu da pista sozinho na bateria do sábado, logo após colocar pneus lisos numa pista ainda úmida, e com isso teve de largar do fundo do grid na prova curta de domingo. Consequentemente, completou num longínquo 13º lugar, de modo que o alemão nem precisaria dos pontos da vitória para ser laureado campeão.

Para 2008 o planejamento previa ficar como reserva da Renault na F1 e ajudar a acertar o novo chassi da GP2. Porém, no meio da temporada, Di Grassi aceitou convite da Campos para substituir o inexpressivo Benjamin Hanley, e reestreou na rodada de Magny-Cours. Aproveitando o conhecimento prévio de um carro que ele próprio desenvolvera, venceu três das 14 corridas das quais participou e até vislumbrou se intrometer na batalha pelo certame entre Giorgio Pantano e Bruno Senna, mesmo tendo três rodadas duplas de déficit. Contudo, deixou a briga logo após o classificatório para a bateria da rodada decisiva, em Monza: ao anotar a pole, Pantano inviabilizou matematicamente as chances do brasileiro.

Mesmo entrando no meio da temporada, Di Grassi aproveitou amplo conhecimento do chassi para se colocar na briga pelo título da GP2 em 2008
Mesmo entrando no meio da temporada, Di Grassi aproveitou amplo conhecimento do chassi para se colocar na briga pelo título da GP2 em 2008

Assim como ocorrera duas épocas antes, Di Grassi mudou-se para o time detentor do campeonato anterior em 2009, a Racing Engineering, mas de novo não conseguiu defender a conquista. Encerrou a campanha mais uma vez em terceiro, porém distante do ponteiro definitivo da tabela, Nico Hulkenberg.

Finda a aventura na Virgin e o trabalho como piloto oficial de testes da Pirelli na F1, encontrou guarida na escuderia oficial da Audi para o recém-refundado Mundial de Resistência. Por ela disputou somente uma temporada completa, a de 2014, finalizando em terceiro (empatado com outros cinco competidores). O renascimento definitivo parecia ter vindo com a chegada da Fórmula E, onde também ficou responsável por desenvolver o bólido 100% elétrico da categoria, o Nextev TCR 001, além de competir como volante principal da escuderia oficial da Audi, a Abt.

Assim como acabou sobrepujado por Buemi nos instantes finais da estação 2015-16, Di Grassi também viu o caneco escapar pelas mãos por muito pouco na temporada antecessora: após um classificatório dramático para o páreo de domingo na rodada de Londres, o desafeto Nelsinho Piquet conseguiu vir de 16º na grelha e escalar o pelotão até se estabelecer em oitavo, logo atrás do compatriota. Foi o suficiente para que fosse o coroado e Lucas, outra vez, encerrasse a campanha em terceiro, atrás ainda de Buemi.

Após este pequeno exercício de rememoração, vem a hora de responder à indagação do sexto parágrafo: é verdade que Di Grassi em vários momentos não esteve “no lugar certo nem na hora certa”, mas também precisamos dizer que muitas chances escaparam por vacilos cruciais seus em momentos decisivos. O maior deles ocorreu no último domingo, num lance infeliz de extrema afobação ou, pior, batida proposital a fim de garantir, a fórceps, o tão sonhado título que parece naturalmente não querer vir.

Inteligência, eloquência e bom conhecimento técnico não bastam. Para se estabelecer no panteão dos automobilistas reais, aqueles que chegam na “hora H” e fazem por merecer, Di Grassi talvez precise acrescentar um pouco mais de coração a seu arsenal de qualidades.

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 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Pedro Castro

    Ou seja, na hora H, o Di Gratis sempre caga no pau. Outro que sempre andou na frente mas nunca foi campeão de nada é o Heliocas Troneves

  • Frank Rock

    devia ta com a camisa da argentina nessas situaçoes, hehe…ganha titulos na base, mostra potencial e consegue brigar por titulos, ate as vezes com carros que nao sao os fodoes do grid, mas eh incrivel como ainda nao encaixou

    talvez o premio venha como o primeiro BR vencedor de Le Mans no geral, fechando a prova ano que vem

  • MarcioD

    Talento eu acredito que tenha, só pelo fato de ter ganho em Macau, chegando na frente de Vettel e Kubica, onde ganharam Senna(1º campeão F-3) e Schumacher. A corrida, no que diz respeito à F-3, tem status de campeonato semelhante à Indy 500 e 24 h de Le Mans. Entre os brasileiros Gugelmin também ganhou lá.
    Confesso que não acompanhei sua carreira, mas vejo que na F-e, além de ter sido prejudicado por duas desclassificações, por erro da equipe, nas 2 temporadas, foi prejudicado pela equipe na corrida de Berlim onde deveriam ter dado ordem para o Abt dar passagem a ele, isto lhe daria mais 3 pontos e por consequência o campeonato, reforçado pelo fato de que o Buemi venceu a prova. Burrice e patriotada total. Preferiram dar o 2º lugar para o filho(alemão) do dono(alemão) da equipe que é alemã, numa corrida na Alemanha, não levaram em conta que o outro piloto da equipe disputava o campeonato já no fim. Fiquei impressionado com a passividade do Lucas em aceitar esta situação e comentei aqui em casa que estes 3 pontos fariam falta no fim o que de fato ocorreu. Atitude oposta teve a Renault que no México ordenou a troca de posições do Prost com o Buemi.
    Agora o que me deixou triste foi a quantidade de pessoas torcendo contra ele no Brasil antes da corrida final e depois crucificando-o após a perda do titulo, achando bem feito, tendo como o fonte o fato do cara ser um desafeto de Nelsinho. As pessoas são emotivas demais com relação a pilotos, acho tudo isso uma grande bobagem. E lembrando que o Hélio Castroneves, que é considerado um grande piloto, está na mesma situação dele.

    • Gabriel Pena Catabriga

      Excelente texto Marcio, o Di Grassi, tem talento, venceu em 4 ocasiões, teve uma desclassificação por culpa da equipe, e ainda não possuia o melhor equipamento, a obrigatoriedade de vencer era do Buemi, acho que faltou alguém lembrar o brasileiro disso, pois esse sim tinha o melhor carro disparado do grid. Desmerecer o Di Grassi por conta de rusgas contra o Nelsinho é muita burrice, eu estava torcendo muito pelo Di Grassi e não gostei nada do que ele tentou fazer, deveria ter mantido a linha externa e tentado passar o Prost depois ia atrás do Buemi, se perdesse, mesmo assim seria reconhecido, agora tentar excluir o outro através de uma batida proposital, deixa uma marca na carreira (mesmo esse outro correndo pela Prost, rsrsrsr, 1989 fellings). Mas ano que vem tem mais, e ainda tem o WEC.

      • MarcioD

        Obrigado Gabriel. Na verdade eu não acompanho esta categoria por não gostar do ronco(ou ausência dele) dos motores e principalmente por causa das provas serem realizadas em circuitos de rua. Na minha visão carros devem correr em espaços especialmente concebidos para tal e não em adaptações que são os circuitos de rua. Mas friso que é uma questão pessoal, há quem goste e eu respeito.
        Mas decisões gosto de acompanhar e sendo assim assisti a corrida final da temporada passada, onde Nelsinho e Lucas podiam ser campeões, e torci para os dois, qualquer um que ganhasse para mim tudo bem, agora para o Buemi é que eu não ia torcer isto é uma questão para os suíços, no meu entendimento.
        Nesta temporada assisti as corridas de Berlim e de Londres. Com relação à corrida de Berlim achei um absurdo o que a equipe fez com o Lucas, sinceramente acompanho automobilismo há muito tempo e não me lembro de ter visto ou lido sobre situação semelhante ou seja na reta final de um campeonato com apenas 2 pilotos com chance de serem campeões, onde o piloto da equipe mais forte vai vencer a corrida ai a equipe concorrente não beneficia o seu candidato? Para que existe equipe então? Mais surpreendente para mim foi que as pessoas aceitaram o fato naturalmente, entre elas o próprio Lucas, em cima de uma suposta competitividade. E mais o cara é um piloto da Audi no WEC e a Audi faz parte da equipe!!!! Absurdo Total!!
        Com relação à etapa final da corrida de Londres, não gostei daquela batida na volta inicial, para mim não havia espaço para ultrapassagem sobre o Prost e acabou com a graça da corrida. Também não gostei daquele lance de atrapalhar volta rápida, apesar de não ser uma manobra ilegal.
        Com relação às duas desclassificações apesar de serem erros graves, são erros técnicos não intencionais, foram 25 pontos perdidos em cada uma, o que fez com Lucas perdesse os 2 Titulos.

        • Leonardo Felix

          Tudo bem, MarcioD? Sempre muito pertinente a sua participação.

          Vale uma lembrança sobre o Helinho: digam o que disserem, mas ele tem três 500 Milhas de Indianápolis no currículo, o que é uma conquista acima de qualquer coisa que o Di Grassi já obteve na carreira.

          O GP de Macau de F3 é importante? Sim, mas não tem o mesmo peso de corridas profissionais. É muito legal o Di Grassi tê-la vencido, mas o Ralph Firman também venceu e nem por isso pode ser considerado grande piloto.

          No mais, concordo que a Abt vacilou demais nas duas corridas em que o brasileiro foi desclassificado, e que isso custou bastante caro nos dois anos.

          Abraços!

  • Heitor Borges

    Acredito que na F-e Di Grassi perdeu os títulos também por desclassificações bobas, causadas por erros da equipe. Perdeu uma vitória em cada temporada, a de 2016 após uma prova brilhante no México. Além de abalar o psicológico, os 25 pontos fizeram falta, frente a um Buemi que mesmo tendo disparadamente o melhor carro, conseguiu quase perder o título, com tantas trapalhadas durante a temporada.