Diante de mercado concorrido, Sauber era a opção mais factível e segura para Nasr

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Em qualquer carreira, há momentos de arriscar ou manter posição. Melhor piloto estreante do Brasil na história da F1, Felipe Nasr talvez pudesse optar por uma aposta no escuro. Mas preferiu conservar o arranjo. Foi assim que, na última quinta-feira (23), o brasileiro oficializou a renovação com a Sauber por mais uma temporada. Como diz o coçado e maldito refrão, às vezes “não vale a pena trocar o certo pelo duvidoso”.

Nasr tem sido bem avaliado na imprensa europeia. Apesar do relativo conservadorismo nos domingos, o volante de 22 anos vem superando Marcus Ericsson em todos os quesitos possíveis. Nas qualificações, foi, em média, 0s160 mais rápido que o escandinavo. Já na corrida pelo campeonato, alcançou o triplo da pontuação do rival (16 x 5), tendo cruzado à frente de Ericsson em todos os GPs, exceto Montreal.

Nasr e Ericsson renovaram com Hinwil para 2016 (Charles Coates/LAT)
Ericsson e Nasr renovaram com Hinwil para 2016 (Charles Coates/LAT)

Fora da pista, o roliço patrocínio do Banco do Brasil provoca brilho nos olhos dos chefões. Para se ter uma ideia, a estatal brasileira, de acordo com informações da “Folha de São Paulo”, teria confiado à Sauber a injeção de R$ 40 milhões por dois anos de contrato com o jovem. Ou seja, com bom patrocínio e bons resultados – uma quinta colocação no GP da Austrália e duas presenças entre os dez primeiros em Xangai e Mônaco –, Nasr era bom partido para qualquer time em busca de carne fresca para renovar seu plantel.

A opção mais interessante seria a Williams. Prestes perder Valtteri Bottas para a Ferrari, o time de Grove tem um bom carro, um propulsor de meter medo na concorrência e, para melhorar, já possui um brasileiro no quadro de empregados. Portanto, a adaptação para Nasr, teoricamente, seria uma mão na roda. E o brasiliense ainda foi piloto de testes do time.

Um cenário perfeito se não fosse pela quantidade de piloto traquejado na concorrência pela vaga. Atual campeão de Le Mans, Nico Hulkenberg, por exemplo, é uma velha joia de Frank Williams. A bordo do carro britânico, o alemão conquistou sua única pole na F1 (Interlagos-2010) e só foi dispensado para dar lugar a Pastor Maldonado – e, vale ressaltar, seu aporte da petroleira PDVSA, avaliado em 28 milhões de libras (R$ 110 mi). Também no bolo estariam, segundo a publicação finlandesa “Turun Sanomat”, Jenson Button e o belga Stoffel Vandoorne, atual líder da GP2.

Hulkenberg: nome cotado para a Williams em 2016 (Divulgação)
Hulkenberg: nome cotado para a Williams em 2016 (Divulgação)

Ou seja, o páreo para Nasr era complicado. Não que seu nome seja fraco. Mesmo porque tanto Hulk quanto Button não levam patrocínio e, financeiramente, a entrada do brasileiro talvez até fosse mais vantajosa para Grove. Mas apostar em um cenário favorável no mercado de pilotos nunca seria uma opção muito sensata para um estreante. Logo, o caminho mais seguro era mesmo renovar com a Sauber.

O empecilho a uma conclusão positiva é: tudo bem, a Sauber era a opção mais factível e concreta para Nasr, mas o que será de Hinwil em 2016? Sem dinheiro, o time se mantém a duro custo no grid e o atual bólido, o C34-Ferrari, não recebe atualizações significativas desde o GP da Austrália, quatro meses atrás. E ainda há o fato de lidar com o orçamento limitado e o tratamento indiferente da Ferrari como fornecedora de motores.

Quer dizer, se nada disso mudar para o ano que vem, existe a grande possibilidade de um continuísmo técnico que, para a carreira de Nasr, talvez seja nocivo. Principalmente no segundo ano de F1, em que um piloto precisa confirmar as expectativas. Não vai ser uma temporada fácil para o brasiliense.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.