Diário dos testes da F1 #1: começo forte da Ferrari e drama da Williams

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(De Barcelona) Sebastian Vettel deu o que falar no primeiro dia de atividades da F1 na pista em 2019, na abertura da pré-temporada, em Barcelona. O alemão registrou o melhor tempo com certa folga, acumulou uma enorme quilometragem e saiu de seu carro satisfeito. Já podemos dizer que a temporada tem um favorito claro?

Bem, se você acompanha o Projeto Motor, já sabe a reposta, não é? A pré-temporada pode ser traiçoeira, especialmente após um único dia de atividades. Então, é preciso ir muito devagar com o andor a fim de evitar conclusões precipitadas. Porém, mesmo considerando todos os fatores, a Ferrari teve um dia e tanto com o novo SF90.

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Vettel e seu novo carro acumularam 169 voltas (mais do que qualquer concorrente) e tiveram como melhor tempo 1min18s161 – obtido ainda pela manhã com pneu C3, o intermediário na escala de dureza. Quem mais chegou perto foi Carlos Sainz, da McLaren, que ficou praticamente 0s4 atrás com um pneu um grau mais macio, com uma volta obtida nos instantes finais de atividade.

Romain Grosjean, o terceiro, também fez seu tempo na volta final do dia, com o asfalto mais “amadurecido”.

Além disso, ao longo do dia, Vettel obteve várias passagens na casa de 1min19s, foi consistente e não apresentou problemas mecânicos. Um bom começo de trabalho, pois.

Porém, sempre é válido mostrar mais uma vez: por mais que o alemão tenha saído do carro sorrindo de orelha a orelha, é cedo demais para tirar qualquer conclusão sobre a relação de forças – especialmente porque a Mercedes fez um trabalho mais conservador.

A equipe alemã dividiu as atividades entre seus pilotos (Valtteri Bottas guiou de manhã antes de passar o carro a Lewis Hamilton à tarde), sendo que ambos se dedicaram a coletar quilometragem. Juntos, Bottas e Hamilton registraram 150 voltas, o que deixou a Mercedes em segundo lugar em voltas completadas. Por mais que o resultado final tenha sido discreto na tabela de tempos, o trabalho foi condizente com o atual estágio de preparação.

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Um dos pontos que chamaram a atenção foi o fato de que Vettel, em poucas horas, fez um tempo melhor do que o obtido nos cinco primeiros dias de pré-temporada de 2018 – e isso que a expectativa com as mudanças de regulamento era de que os carros perdessem cerca de 1s5 por volta.

Mas há uma série de fatores diferentes que entra neste balaio. Mario Isola, diretor técnico da Pirelli, considera que a evolução do asfalto em Barcelona é responsável por boa parte desta queda de tempo.

“O asfalto era novo nos testes do ano passado. Ele era muito suave, e durante a corrida [três meses depois] foi diferente com a evolução normal que pudemos ver. Agora, há mais um passo se compararmos com a corrida [de 2018]”, explicou.

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Por falar em temperatura, ainda há divergências sobre se Barcelona foi uma boa escolha para a realização dos testes. O chefe da Toro Rosso, Franz Tost, não escondeu que preferia que as atividades fossem sediadas no Bahrein, onde a temperatura é mais alta do que na Espanha.

“Seria mais caro, mas teríamos dados mais valiosos. Você anda por aqui de manhã, está frio pra c******”, disse Tost. De fato: na abertura do dia, às 9h locais [5h de Brasília], fazia 6º C no ar, com 3º C no asfalto.

A Pirelli, porém, acha que a situação de Barcelona é boa o suficiente, já que a temperatura sobe bastante com o passar do dia. “Um clima assim é aceitável, e parece que teremos oito dias de testes com bom tempo. Começamos a manhã com cinco ou seis graus, mas depois sobe para 18º C, com 23/24º C de pista. Não é assim que teremos durante a corrida, mas é uma temperatura aceitável”, comentou Isola.

Além disso, o dirigente da Pirelli deu uma dica importante para fazer a leitura da relação de forças: “A primeira parte [do turno]da tarde é a mais representativa.” Então, olho no rendimento dos carros depois do intervalo de almoço.

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Pela primeira vez os pilotos puderam guiar “para valer” os modelos sob o novo regulamento aerodinâmico. E, para a surpresa de alguns (e surpresa zero por parte de outros), a sensação inicial foi de pouca mudança.

Nico Hulkenberg destacou que o comportamento geral do carro é parecidíssimo com o que sentia antigamente – ele apenas destacou que a asa traseira, mais larga e funda, passa a sensação de um “paraquedas” nas retas.

Sergio Pérez deu depoimento parecido: poucas mudanças no balanço geral do carro, sendo que o DRS de fato tem um peso maior.

Já Vettel acredita que as equipes souberam recuperar o downforce  perdido, mas não deixou de destacar que achou a novidade esteticamente desagradável.

E não é que Verstappen foi só sorrisos após teste com motor Honda? (Bruno Ferreira/Projeto Motor)

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A Pirelli aproveitou a ocasião para anunciar algumas mudanças adicionais nos pneus e em seu uso a fim de evitar problemas em 2019. Agora, os cobertores térmicos terão temperaturas diferentes: 100º C para os pneus dianteiros e 80º C nos traseiros.

Isola explicou ao Projeto Motor que a intenção para a temporada é possibilitar uma redução ainda maior na pressão dos pneus (diminuição estimada em 2 psi). Assim, os compostos teriam maior contato com o solo e evitaria o superaquecimento da borracha.

Para isso, a ideia da Pirelli era reduzir a temperatura em todos os pneus, deixando em 80º C. Porém, isso não provocou os resultados esperados nos testes do ano passado, já que os pneus dianteiros apresentavam dificuldades no aquecimento e não entravam em sua temperatura ideal. A tendência poderia apresentar problemas em circuitos como Baku, por exemplo, em que os pneus saem de uma longa reta (com tempo suficiente para pneu esfriar) para uma freada forte. Desta forma, a mudança afetará somente os pneus traseiros, deixando os dianteiros com temperatura mais alta.

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A abertura das atividades em Barcelona permitiu que víssemos pela primeira vez alguns dos carros da temporada. Haas, Racing Point e Renault mostraram seus novos modelos (até então, só haviam apresentado em imagens de computador ou em pinturas em modelos antigos), enquanto que Red Bull e Alfa Romeo exibiram suas cores definitivas para a temporada – sem grandes novidades.

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No entanto, os novos carros juntos pela primeira vez ainda é uma ocasião muito prematura para mudanças de direção. Mercedes e Red Bull, que aplicaram conceitos diferentes em seus modelos, disseram por meio de seus chefes que não ficaram preocupadas ao ver as soluções da concorrência. “Confiamos no trabalho que fizemos”, disseram os times, quase em uníssono.

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Mas teve um carro novo que não deu as caras neste começo de pré-temporada. A Williams, atrasada com a montagem do FW42, ficou de fora da jornada, sendo que ela também deve perder as atividades de terça-feira.

O FW42, aliás, sequer estava no circuito durante o dia, já que a equipe trabalhava no modelo em sua fábrica, em Grove (Inglaterra). Havia membros da equipe no circuito espanhol (incluindo Robert Kubica e George Russell), mas nada de atividades. Notícia ruim para a equipe que vem de um 2018 para esquecer – e também para o Projeto Motor, que teve cancelada uma entrevista exclusiva com um membro da equipe devido à mudança de planos…

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Um ponto que virou assunto no dia foi a preocupação dos chefes de equipe com o impasse com relação ao Brexit – algo ao qual o Projeto Motor já havia alertado em 2016 (leia o artigo para entender do que se trata).

Christian Horner, da Red Bull, e Toto Wolff, da Mercedes, afirmaram que o cenário geral da F1 (e até do automobilismo europeu) poderá ser impactado de forma significativa caso o desfecho da novela seja desfavorável.

Apesar de suas equipes serem austríaca e alemã, respectivamente, a sede de ambas é no Reino Unido (Milton Keynes para a primeira, Brackley para a segunda).

Este assunto renderá um artigo mais detalhado no Projeto Motor em um futuro próximo.

Assim ficou o primeiro dia em Barcelona:

Pos. Piloto Equipe Tempo Pneu Voltas
1. Sebastian Vettel Ferrari 1min18s161 C3 169
2. Carlos Sainz McLaren 1min18s558 C4 119
3. Romain Grosjean Haas 1min19s159 C3 65
4. Max Verstappen Red Bull 1min19s426 C3 128
5. Kimi Raikkonen Alfa Romeo 1min19s462 C3 114
6. Daniil Kvyat Toro Rosso 1min19s464 C4 77
7. Sergio Pérez Racing Point 1min19s944 C3 30
8. Valtteri Bottas Mercedes 1min20s127 C2 69
9. Lewis Hamilton Mercedes 1min20s135 C2 81
10. Nico Hulkenberg Renault 1min20s980 C2 65
11. Daniel Ricciardo Renault 1min20s983 C2 44


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.