Disputar corridas online pode custar até o preço de um carro usado

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Dizem que todo fã de automobilismo é, no fundo, um piloto frustrado. Afinal, poucos são aqueles que podem bancar uma carreira no esporte a motor, mesmo que seja no kart ou em competições regionais.

Com a evolução tecnológica, chegamos a um ponto em que não é preciso sair de casa para realizar, pelo menos parcialmente, este sonho: pessoas do mundo inteiro se reúnem em ligas para correr virtualmente, através de simuladores, em campeonatos online que emulam as mais diversas categorias, carros e autódromos espalhados pelo planeta.

Piloto de automobilismo virtual com equipamento completo
Piloto de automobilismo virtual com equipamento completo

Se se trata ou não de um escape para contentar, mesmo que parcialmente, o lado “piloto frustrado”, é assunto para outra discussão. O fato é que, apesar de tudo parecer uma grande brincadeira visto de fora, muita gente leva o hábito a sério. Muito a sério. São horas e horas de treinos diários e pesquisas sobre acerto, muitas vezes para um evento que não durará mais do que 40 minutos.

A rotina também gera gastos. Assim como um piloto de verdade em relação aos chassis, motores e afins, quem quer ser competitivo no chamado “Automobilismo Virtual” precisa investir em bons equipamentos para ficar mais próximo da perfeição. Os custos, com isso, podem alcançar a casa dos milhares, ou até das dezenas de milhares de reais.

“Um computador completo, com mais de um monitor, processador e placa de vídeo de última geração, chega a uns R$ 7 mil. Um volante importado custa R$ 2 mil, e aí tem o cockpit, que sai por uns R$ 1 mil. Dá para gastar mais de R$ 10 mil fácil”, calcula Rodrigo Steigmann, criador do F1BC, uma das ligas brasileiras mais antigas para competições virtuais.

Para se ver livre dos travamentos durante as corridas,  fotógrafo Mario Wirzberger colocou até tubos de refrigeração a água em seu computador
Para se livrar dos travamentos nas corridas, fotógrafo colocou tubos de refrigeração a água no computador

O fotógrafo Mario Wizberger, de Recife (PE), é um exemplo: entusiasta dos simuladores de corridas desde os anos 90, o pernambucano desembolsou R$ 15 mil recentemente para ter em mãos um conjunto que inclui refrigeração a água de todos os sistemas do seu computador. “É um detalhe que melhora a eficiência e garante que você não vá ter problemas de temperatura“, justifica.

Convenhamos: com esse montante, dá para comprar um carro usado, de meados dos anos 2000, que esteja dando sopa em algum site de classificados online.

Mas, afinal, que diferença faz investir nisso? Para o programador Ciro Nishimura, de Santa Cruz do Rio Pardo (SP), que competiu no AV de 2010 até o ano passado, competir com um bom equipamento não melhora exatamente o desempenho, mas sim a regularidade e a precisão. “Quando comprei o cockpit, por exemplo, passei a me sentir muito mais confortável e menos cansado enquanto corria. Volante e máquina também precisam trabalhar bem, para não travar”, conta.

O paulista chegou a correr com três monitores operando simultaneamente para aumentar a sensação de realismo. Preço de cada um deles: R$ 900. Confira no vídeo abaixo, feito por ele próprio, como é a experiência:

Além de tudo isso, há despesas cíclicas como a licença do simulador original – que pode ser em preço fixo, caso do rFactor 2 (R$ 89), ou por mensalidade, prática adotada pelo iRacing (cobra US$ 6 por mês, mais R$ 14 por pista e carro baixados). Também é preciso pagar taxas de inscrição às ligas: elas variam de R$ 40 a R$ 60 por um campeonato trimestral com sete etapas, podendo chegar até a R$ 200 dependendo da duração do certame e das provas. “Só com esses gastos miúdos vai uns R$ 500 por ano”, mensura Wizberger.

Vale ressaltar ainda que a evolução frenética da tecnologia digital contribui para deixar os equipamentos obsoletos num período de tempo cada vez mais curto. “Os games mais modernos sempre vão requerer uma máquina com o que há de mais moderno no mercado. A indústria está sempre forçando o usuário a atualizar seu equipamento”, ressalta Steigmann.

E compensa? No caso dos dois “pilotos virtuais” entrevistados, sim. “Vale muito a pena, especialmente porque aprecio a área de tecnologia, então consigo unir o útil ao agradável”, diz Wirzberger. “Para quem gosta de competir, vale. Pena que meu tempo esteja tão curto, mas confesso que não tem uma semana que não me bata aquela vontade de voltar”, completa Nishimura.

Confira o Debate Motor #2, com a análise do GP do Canadá:

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.