Do pré-Guerra à nova encarnação: F2, mais que uma categoria de apoio

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Em 2017, a GP2, categoria que em 2005 substituiu a F3000 como principal campeonato de acesso à F1, passa a adotar o nome de F2. A mudança se dá após uma negociação da FIA, que há tempos queria reviver a nomenclatura, com times e novos detentores dos direitos comerciais, o Liberty Media.

Os planos para uma reforma geral do certame ainda serão anunciados pela entidade máxima e organizadores. Mas uma coisa é certa, a nova categoria carrega uma herança enorme, tão grande quanto à F1.

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Tudo começou ainda no período pré-II Guerra, no áureo período dos Grandes Prêmios. Enquanto as provas principais contavam com poderosas máquinas, com motores de 3 litros turbo ou 4,5 aspirados, uma outra divisão, com modelos menores equipados com propulsores de até 1,5 litro turbo, também fazia parte da programação. Chamada carinhosamente de “voiturette” (“carrinho” em francês, em uma tradução livre), a categoria tinha pilotos amadores ou menos experientes que ainda buscavam seu espaço.

O modelo BMW 328 da década de 30 foi utilizado na F2 no pós-Guerra
O modelo BMW 328 da década de 30 foi utilizado na F2 no pós-Guerra

Na década de 40, com a volta das corridas na Europa após o confronto bélico entre as potências do continente, a FIA impôs um novo conjunto de regras aos GPs e introduziu dois novos conjuntos de regras: as Fórmulas A e B, que mais tarde receberiam as nomenclaturas numéricas de 1 e 2. A partir de 46, para competir com os 4,5 litros aspirados, os motores de 3 litros foram substituídos pelos de 1,5, em uma tentativa de entidade de equalizar o desempenho.

Dois anos depois, a F2 finalmente foi regulamentada com motores aspirados de no máximo 2 litros ou de 750cc turbo. Os carros eram bem menores e mais baratos do que os da F1, o que encorajou novos fabricantes e pilotos a entrarem na brincadeira. A primeira prova da história sob o código foi o GP de Estocolmo de 1948, vencido pelo famoso tailandês Príncipe Bira, com um Simca-Gordini T15.

A categoria foi um sucesso tão grande, que a F1 começou a sofrer para encher seus grids no começo dos anos 50, quando se tornou um campeonato, em relação à sua divisão menor. O resultado é que em 52 e 53, o certame principal passou a adotar o regulamento da F2 nas etapas válidas pelo Mundial. As normas da F1 mesmo eram utilizadas em provas extracampeonato.

O período ficou marcado pelo domínio da Ferrari 500, com 14 vitórias em 15 etapas destas duas temporadas (sem considerar as duas edições das 500 Milhas de Indianápolis, que contavam pontos, mas seguiam outras regras). Já contamos a história desse modelo aqui no Projeto Motor na série “Grandes Carros”.

Ascari em sua Ferrari 500 no GP da Inglaterra: carro de F2 campeão da F1
Ascari em sua Ferrari 500 no GP da Inglaterra: carro de F2 campeão da F1

Em 54, a F1 adotou uma nova especificação com monopostos e motores menores, de 2,5 litros, e mais baratos, o que voltou a atrair equipes e pilotos. Assim, a F2 sofreu um forte declínio até que em 57 a FIA tentou dar um novo impulso à série, com propulsores de 1,5 litro. A era foi dominada pelos novos Cooper com propulsores traseiros.

No começo dos anos 60, porém, a FIA interrompeu pela primeira vez a competição ao introduzir a nova F-Júnior. Logo a entidade percebeu que cometeu um erro, e a dividiu em F3 e F2 novamente em 67, com motores de 1 litro. No pacote, também passou a organizar as provas em um Campeonato Europeu, passando a conceder um título.

Nas duas décadas seguintes, a competição seguiu com sua força, com mudanças no regulamento seguindo a F1, para se manter como a segunda principal categoria da Europa, e o passo anterior ao Mundial. Diversos fabricantes de chassis, motores e equipes importantes usaram o espaço como um degrau antes de se sentirem seguros de entrar no show principal.

Acidente em prova da F2 de 1983
Acidente em prova da F2 de 1983

Pilotos jovens tiveram a chance de enfrentar nomes experientes, que eram contratados para competirem nas corridas para ajudarem a acertar o equipamento e até mesmo promover seus times, marcas e patrocinadores.

A história terminou em 1984, quando a FIA resolveu substitui-la pela renovada F3000, com chassis seguindo as mesmas regras de sua antecessora, porém, motores Cosworth DFV V8 de 3 litros, que estavam obsoletos na F1. A nova configuração ajudou no radical corte de custos do certame.

Em uma primeira tentativa de encarar a GP2, a FIA patrocinou um retorno da F2 em 2009, organizada pela empresa do ex-piloto Jonathan Palmer. O estilo, porém, era totalmente diferente, com fabricantes únicos de chassis – projetados e construídos pela Williams – e motores – Audi de 1,8 litro. Com sua concorrente bem estabelecida e dentro da programação das etapas da F1, essa nova encarnação não durou muito tempo, encerrada em 2012 por falta de pilotos e parceiros comerciais.

O presidente da FIA, Jean Todt, não desistiu de tentar reviver o campeonato. Isso ficou claro quando a entidade lançou uma tabela de pontuação para que pilotos conseguissem sua superlicença, em que a F2, mesmo extinta, era a competição que mais somava pontos. A expectativa já era de se encontrar um novo parceiro para organizar a competição.

Entre 2015 e 16, começaram conversas com promotores da GP2, que tinha como líder Bernie Ecclestone. Com a aposentadoria forçada do inglês no começo de 17, a negociação avançou rápido e a categoria anunciou que passaria a se chamar F2 com efeito imediato. Neste primeiro campeonato após seu novo renascimento, pouca coisa deve mudar, mas é claro que se criou toda uma expectativa dentro do meio do automobilismo sobre como a FIA pretende administrar seu caminho de fórmulas, da F4 até a F1, agora que conseguiu tomar as rédeas novamente de toda a pirâmide da base.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.