Quatro Rodas

Do sonho ao fiasco: como Alonso viu a Tríplice Coroa virar cinzas em 2019

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O roteiro estava desenhado. Depois de vencer as 24 Horas de Le Mans de 2018, Fernando Alonso voltava seu foco para 500 Milhas de Indianápolis, último passo que o separa da tão sonhada Tríplice Coroa do automobilismo.

A campanha forte na prova americana em 2017, quando se aventurou pela primeira vez no universo dos ovais e fez bonito, era suficiente para encher o espanhol de confiança – especialmente por não se tratar mais de um território totalmente novo. Com uma edição nas costas e os preparativos adequados, o plano era ambicioso. Se ele venceria a prova ou não seriam outros quinhentos, mas a jornada de Alonso por si só ao menos representaria uma das narrativas mais interessantes da Indy 500 de 2019.

Mas não vai acontecer. Fernando Alonso e a McLaren sucumbiram às armadilhas do Bump Day e sequer conseguiram se classificar para as 500 Milhas de Indianápolis de 2019.

Como que a história de Alonso com o mítico oval, iniciada de maneira quase mágica, deu uma reviravolta tão grande em dois anos? É verdade que a pista tem a mística de pregar peças sem distinção entre os grandes e os nanicos – o exemplo da Penske em 1995, quando Emerson Fittipaldi e Al Unser Jr voltaram para casa mais cedo, é um dos mais famosos.

Mas, no caso de Alonso, há explicações concretas, sem que seja necessário apelar para a atmosfera quase que sobrenatural da prova.

Mudança no ambiente

Até mesmo os pilotos mais talentosos precisam estar inseridos no ambiente adequado para sonharem mais alto. A Indy e seu perfil de competição volta e meia permitem surpresas, mas, a grosso modo, ela não é exceção à regra do automobilismo que muitos não gostam de ver: uma equipe de boa estrutura é fundamental para que até o mais habilidoso piloto tenha sucesso.

Em 2017, quando surpreendeu o mundo ao abdicar do GP de Mônaco para se aventurar em Indianápolis, Alonso apostou no seguro com a McLaren: realizaram uma iniciativa em conjunto com a poderosa Andretti Autosport.

Alonso foi um dos destaques em Indianápolis-2017

Na operação liderada por Michael Andretti, Alonso pôde usufruir de toda a estrutura técnica de uma das grandes potências da Indy. Seus parceiros de equipe, os experientes Ryan Hunter-Reay, Takuma Sato e Marco Andretti, além de Alexander Rossi (vencedor da corrida em 2016), davam todos os insights  e apresentavam as referências necessárias para Alonso acelerar o processo de aprendizagem. Os toques sempre válidos de Michael Andretti e de Gil de Ferran, seu conselheiro especial para a prova, forneciam o respaldo necessário.

Além disso, Alonso contou com uma estrutura mais grandiosa. Por exemplo, fez um teste exclusivo em Indianápolis para se aclimatar com o carro e o oval, além de ter sido presença frequente no simulador da Honda na Indy. Ou seja, mesmo intercalando a preparação para Indianápolis com a temporada da F1, o espanhol teve os melhores recursos à disposição e pode fazer a melhor preparação possível.

Consequentemente, ele também conseguiu exibir seu talento. Alonso esteve praticamente à prova de erros e colocou o Andretti-McLaren #29 na quinta posição da ordem de largada, na segunda fila, derrotando gente do calibre de Tony Kanaan, Marco Andretti, Will Power e Ryan Hunter-Reay.

Na corrida, mostrou maturidade para sua primeira corrida em oval e chegou a liderar por 27 voltas, mas abandonou a 20 giros do fim com um motor quebrado, quando já estava um pouco mais distante da ponta. A vitória não veio, mas Alonso teve uma primeira experiência em Indianápolis para se orgulhar.

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Nestes dois anos que se passaram, muita coisa mudou. Uma delas foi fundamental para impedir que o plano se repetisse em 2019: o tenso rompimento da McLaren com a Honda na F1, situação na qual Alonso desempenhou papel crucial para acelerar a crise. O time inglês não contaria mais com o motor japonês em Indianápolis e teria de usar em 2019 um equipamento da Chevrolet.

A mudança no propulsor por si só não seria um problema, uma vez que um motor Chevrolet conquistou a prova do ano passado no Penske de Will Power. No entanto, isso significava que a promissora união com a Andretti Autosport, time associado à Honda, não poderia se repetir, pois a McLaren teria de se alinhar com um time também provido do propulsor americano.

Encontrar um parceiro não foi uma missão simples. Por exemplo, a Ed Carpenter Racing, time de Chevrolet que conhece como poucos os atalhos de Indianápolis, rejeitou logo de cara uma parceria, já que considerava que seria uma distração em sua própria busca pela vitória.

A saída foi fechar com a Carlin, equipe com a qual a McLaren mantém boas relações na Europa. Foi na Carlin, por exemplo, que Lando Norris, protegido de Woking, fez toda sua vitoriosa carreira na base até a F1.

Entretanto, a Carlin está longe de ser uma estrutura vencedora na Indy. A equipe ocupa o pelotão intermediário desde que estreou na categoria, em 2018, e esteve especialmente sofrível em Indianápolis nas últimas semanas.

Isso posto, é válido destacar que as dificuldades que Alonso teria no papel não explicam todo o calvário de 2019. Os recursos da parceria com a Carlin não são os mais eficientes, mas uma série de problemas levaram os tropeços a um patamar inesperado.

Semanas desastrosas na pista

O subtítulo acima resume em poucas palavras o que foi a preparação de Alonso para Indianápolis: desastrosa. Sim, é verdade que, em tese, a situação da McLaren/Carlin estava mais distante da ideal do que foi com a McLaren/Andretti em 2017, mas ainda assim os eventos se desdobraram de maneira mais trágica que a esperada.

No teste aberto, realizado ainda no fim de abril, Alonso virou lento e deu apenas 29 voltas, já que suas atividades foram interrompidas por problemas elétricos em seu carro.

No primeiro dia de treinos da programação oficial, mais uma vez as atividades foram interrompidas com problemas elétricos. Na jornada seguinte, Alonso caiu nas armadilhas de Indianápolis e foi parar no muro, algo que tinha conseguido evitar em 2017.

O espanhol seguia de perto Graham Rahal, sentiu seu carro saindo de frente na saída da curva 3 e não conseguiu corrigir a trajetória a tempo. O atual pacote aerodinâmico da Indy, aliás, deixa os modelos um pouco mais instáveis do que ocorria há dois anos. Assim, seu McLaren bateu nos muros externo e interno e sofreu grandes danos.

Com o incidente, Alonso não retornou à pista naquele dia e também não rodou na jornada seguinte, já que a McLaren ainda consertava seu carro quando a chuva chegou e interrompeu as atividades.

A véspera da classificação foi o único dia livre de problemas para Alonso, mas havia muito trabalho a ser feito para pouco tempo restante de preparação.

Os contratempos voltaram durante a classificação de sábado. A primeira tentativa foi afetada por um furo lento no pneu, sendo que as demais contaram com um carro que simplesmente não tinha ritmo. Como resultado, Alonso ficou com o 31º tempo no geral, o que significava que ele teria de passar pelo Bump Day.

Trocando em miúdos para aqueles que não estão acostumados com o regulamento de Indianápolis: Alonso, James Hinchcliffe, Pato O’Ward, Sage Karam, Max Chilton e Kyle Kaiser, os piores do sábado, teriam de disputar entre si as três vagas na última fila no domingo. Eles teriam um treino livre para verificar mudanças no acerto, e, depois, realizar uma única tentativa que definiria o fundo do grid: os três mais rápidos estariam dentro, os três mais lentos estariam fora.

Ocorre que a chuva voltou no domingo, o que encurtou o treino livre que seria dedicado aos pilotos do Bump Day, e Alonso teve sua participação reduzida ainda mais após ter um problema de acerto que deixou seu carro batendo o assoalho no chão com frequência.

Quase que no desespero, a McLaren tentou medidas radicais. Segundo apurou o site da RACER, Zak Brown recorreu ao bom relacionamento que tem com Michael Andretti (de quem é sócio em uma equipe na Supercars australiana) para emprestar um amortecedor especial para o carro de Alonso; já o ex-piloto Paul Tracy, atualmente comentarista da emissora NBC, revelou que o espanhol utilizou um acerto copiado da equipe Penske, que também usa motores Chevrolet e conquistaria a pole da prova com Simon Pagenaud.

Só que Alonso chegou à sessão derradeira tendo de guiar às cegas com o novo set-up, tendo apenas uma tentativa para acertar as quatro voltas consecutivas, o que era a receita para insucesso. O carro novamente não rendeu, apresentou falta de velocidade, e Alonso ficou de fora da prova ao lado de Chilton e O’Ward – coincidência ou não, dois pilotos da Carlin. Aliás, do time inglês, apenas Charlie Kimball garantiu uma vaga na prova, num ótimo (para as circunstâncias) 20º lugar.

Mais uma vez é importante sublinhar: mesmo que a Carlin não seja a equipe mais competitiva do pelotão da Indy para oferecer o suporte técnico ideal, o trabalho da McLaren foi especialmente ineficiente nas semanas em Indianápolis. Afinal, o astro foi desbancado por vários outros competidores que também contam com operações modestas – entre eles o jovem Kyle Kaiser, cuja equipe, a pequenina Juncos, perdeu um patrocinador importante na semana da Indy 500, sofreu um acidente fortíssimo nos treinos e teve de lutar contra a falta de peças de reposição e, mesmo assim, bateu Alonso na bacia das almas e jogou o espanhol para fora do grid.

O regulamento da Indy permite que haja mudanças nos pilotos inscritos para a prova, já que a sessão classificatória garante a participação dos carros, e não de quem está ao volante. Assim, Alonso e a McLaren poderiam desembolsar uma grana, comprar uma vaga de algum piloto classificado e manter o sonho vivo em 2019. Mas não parece que isso vai acontecer, e nem faria sentido: Alonso quer conquistar Indianápolis não apenas para vencer uma prova especial ou marcar pontos para um campeonato, mas sim para obter a glória máxima do automobilismo. O fracasso na classificação já representa uma mancha difícil de ser espantada, e uma virada de mesa, mesmo prevista por regulamento, não seria bem vista para o plano. Como Alonso adiantou no sábado, se ele não se classificasse para a corrida, é porque ele e a McLaren não fizeram por merecer.

O saldo para Alonso das 500 Milhas de Indianápolis de 2019 certamente foi um banho de água fria gigantesco, um dos maiores de sua carreira. Mas, de agora em diante, há duas opções para o espanhol: considerar que a mística de suas aventuras em Indianápolis perdeu muito apelo e mudar seu foco de sua carreira de agora em diante, ou usar o episódio como aprendizado para se preparar de forma melhor em 2020, montando o projeto adequado e não subestimando a importância dos parceiros certos. A escolha é sua, Alonso.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.