Dramas do pelotão médio seguem dando fôlego para Dirigir para Viver

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Assim como fizemos em nossa crítica sobre o filme Ford vs Ferrari, já queremos deixar combinado aqui no começo deste texto que vamos analisar a segunda temporada de Dirigir para Viver, da Netflix, pela visão do entusiasta de automobilismo e F1, e não como crítico de cinema ou TV. Afinal, como um site especializado em esporte a motor, nos vemos na responsabilidade com esse público.

Dito isso, podemos dizer que a receita de Dirigir para Viver segue funcionando como chamariz para quem quer ver histórias legais dos bastidores da F1. É uma espécie de drama da vida real com os percalços a que os pilotos passam não só por resultados, mas principalmente para se manterem dentro da categoria.

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Ao contrário do que aconteceu na primeira temporada da série, Mercedes e Ferrari aceitaram participar. E isso foi bastante utilizado na divulgação deste novo ano da produção. Só que a verdade é que as duas equipes só cumpriram tabela. Esses dois times receberam um episódio cada e talvez sejam os mais superficiais e sem sal.

A ideia de Dirigir para Viver claramente não é falar sobre quem vence corridas, é o melhor piloto, carro ou quem tem a estratégia mais bem elaborada para as corridas. E sim, mostrar as pressões pelas quais passam pilotos e alguns dos principais chefes de equipe durante um ano da F1.

Após um primeiro episódio introdutório, que mostra onde cada personagem está, temos aos poucos o desenrolar das principais histórias eleitas pela produção da Netflix – dentro das limitações impostas a ela – como as mais interessantes. Os dramas e decepções da Haas, a mudança de ares de Daniel Ricciardo e o apuro de Nico Hulkenberg na Renault, as mudanças de pilotos da Red Bull e a adaptação de Carlos Sainz na McLaren.

Quase no final, temos um belo episódio sobre a Williams, que para este redator é um dos mais interessantes. O diálogo entre Claire Williams e Paddy Lowe na pré-temporada em Barcelona é uma demonstração interessante sobre aquele momento da equipe.

Um dos grandes problemas da primeira temporada, a mania de maniqueísmo, foi abrandada para esta edição. Os acontecimentos são mostrados mais no estilo “a vida crua como é” do que “mocinhos contra bandidos” que marcou em 2019 no caso da perda da vaga de Esteban Ocon na Racing Point. A produção chega até a flertar com uma narrativa dessas no episódio da Ferrari, mas o conteúdo é tão ralo que nem isso saiu direito.

O forte mesma acaba sendo a questão do quão difícil é se manter dentro da F1 e como ela pode ser cruel na pressão que exerce sobre seus pilotos.

As narrativas de Dirigir para Viver

Algo que precisamos deixar claro é que existe uma montagem das imagens, conversas e mensagens de rádio para que as histórias façam sentido para quem assiste. Sendo assim, algumas coisas ganham uma dramaticidade extra.

A luta de Hulkenberg para ficar na Renault é uma das histórias de Dirigir para Viver - 2
A luta de Hulkenberg para ficar na Renault é uma das histórias de Dirigir para Viver – 2 (Imagem: Netflix/Reprodução)

Daniel Ricciardo é um dos protagonistas, mostrado como o cara legal, que faz piada de tudo e que está enfrentando a mudança de ares ao ir para a Renault meio que na boa. Só senti falta de um pouco de drama, já que os resultados foram longe do esperado. Vimos isso mais em cima da imagem de Cyril Abiteboul, chefe da equipe francesa, e na luta de Hulkenberg para permanecer. Foram poucas as cenas de alguma dramaticidade para o ex-Red Bull.

Quem também ganhou bastante destaque foi Christian Horner e sua administração de pilotos na Red Bull. Suas análises são interessantes e ver como Pierre Gasly derreteu dentro do time também mostra muito sobre como foi o campeonato do francês.

Faltou um pouco sobre a evolução da equipe e da Honda dentro do campeonato. Mesmo que pelo lado humano, o grande foco da Netflix aqui, teríamos um conteúdo interessante. O próprio Mex Verstappen não tem sua história contada direito. Tudo isso ficou de lado no meio da narrativa Gasly/Alex Albon.

Assim como na primeira temporada, Gunther Steiner, chefe da Haas, ganha um grande destaque por conta de seu jeito meio louco de ficar dando bronca a xingando todo mundo. Em alguns momentos, desta vez, pareceu um pouco forçado. Se eu fosse funcionário da Haas, ao assistir Dirigir para Viver, ficaria um pouco incomodado. Também não dá para entender (agora ainda mais) a manutenção dos pilotos para 2020 após certas cenas de bastidores.

Até quando vai dar certo

Esta forma diferente de contar histórias de bastidores ainda é interessante e cativa. É legal ver esse lado menos técnico e frio da F1, que não depende do tipo de pneu ou acerto do carro. Estamos olhando para as pessoas.

A questão é: até quando isso vai funcionar? F1 e Netflix terão que fazer um trabalho com Mercedes e Ferrari para terem mais aberturas dentro dos principais competidores do campeonato. Ou torcerem para a Red Bull, que aparentemente não tem problema nenhum em abrir suas portas para a produção, ganhar protagonismo.

Uma hora as pessoas vão querer saber mais sobre a pressão dos resultados por um título ou vitórias, algo que nas duas primeiras temporadas parece até menor no meio das emoções do pelotão intermediário. Alguém que assistiu a todos os episódios, mas não acompanha o Mundial, pode pensar: quem é Lewis Hamilton, afinal?

Vimos um pouco também, principalmente no capítulo da Williams, da complexibilidade de se projetar e fabricar um carro de F1. É algo que poderá ser mais bem explorado em algum momento. É claro que Dirigir para Viver é voltado para um público não técnico e que necessariamente assiste às corridas, mas seria interessante mostrar esse lado da categoria, pelo lado de mecânicos e projetistas lutando contra prazos e falta de resultados.

De qualquer forma, não existe dúvida que a série segue como uma ferramenta bem legal para a F1 e esperamos que seja renovada por mais alguns anos.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.