Duplas inusitadas: os GPs que não foram narrados por Galvão e Reginaldo

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Se existe uma dupla que seja análoga a Lennon & McCartney na televisão brasileira, ao menos quando se fala de influência na opinião pública, esta é formada por Galvão Bueno e Reginaldo Leme. Juntos na Rede Globo desde o início dos anos 80, a história dos dois jornalistas se confunde com a ascensão da popularidade da F1 no Brasil a ponto de suas análises interferirem no que hoje a maioria dos fãs pensa sobre nomes como Ayrton Senna, Nelson Piquet, Rubens Barrichello, Felipe Massa e Michael Schumacher.

Também convenhamos: quando um ou outro não participa da transmissão nas manhãs de domingo, a sensação instantânea é de estranhamento. Por conta disso, o Projeto Motor enumerou uma lista dos GPs mais notáveis em que Galvão ou Reginaldo – ou ambos – não estiveram presentes. O exercício também serve para apresentar nomes inusitados que já passaram pela F1, alguns que você provavelmente nunca suspeitou que entendessem do riscado. Confira abaixo.

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Cléber Machado e Roberto Cabrini – San Marino e Mônaco-1992

Se na pista as coisas foram relativamente previsíveis, nos bastidores da TV Globo a temporada 1992 foi uma das mais esquisitas. Neste ano, Galvão Bueno deixou a emissora carioca para atuar na extinta Rede OM.

Com isso, o cargo de narrador principal ficou por um ano nas mãos de Luiz Alfredo. Quando o paulistano estava indisponível, Cléber Machado assumia o microfone, com Reginaldo Leme nos comentários e Roberto Cabrini na reportagem. Em Ímola e Monte Carlo, porém, Leme não pôde participar e Cabrini comentou ambos os GPs (o que era incomum); Luiz Fernando Lima ocupou sua vaga nas reportagens de pista.

Cléber Machado (solo) – Europa, Pacífico e Austrália-1995

Você já viu um narrador falar por cerca de 90 minutos, com interrupção apenas para os reclames comerciais? Foi o que aconteceu na reta final da temporada 1995 na TV Globo. Os motivos são desconhecidos, mas Cléber Machado narrou as provas de Nurburgring, Aida e Adelaide sem a participação de nenhum comentarista – somente Marcos Uchôa interveio uma vez ou outra como repórter de pista.

No Pacífico, como você pode ver no vídeo abaixo, a sensação é estranha: Michael Schumacher conquista o bi na F1 e Cléber se esforça para preencher todas as lacunas estatísticas sobre o título do alemão, cumprindo simultaneamente as funções de narrador e comentarista.

Oliveira Andrade e Reginaldo Leme – França-1997

Galvão Bueno não pôde narrar o GP da França de 1997 pelos motivos de sempre: o futebol. Na época, a Seleção Brasileira participava da Copa América e a tradicional voz da F1 no país teve que viajar à Bolívia para acompanhar os jogos do escrete nacional. Por causa disso, quem assumiu o microfone principal na etapa de Magny-Cours foi Oliveira Andrade, que, embora bastante conhecido das transmissões de futebol, tinha pouca experiência de F1 na carreira. Por isso, o colocamos na lista de narradores/comentaristas inusitados aqui.

Léo Batista e Reginaldo Leme – França e Inglaterra-1979

Outro narrador incomum nas transmissões de F1, ao menos para a geração nascida nos anos 80 e 90, foi o paulista Léo Batista, da TV Globo.

Bastante conhecido por narrar os gols da rodada no “Fantástico” e apresentar programas como “Globo Esporte” e “Esporte Espetacular”, Léo atuou em dois GPs – França e Inglaterra-1979 – como narrador, substituindo Luciano do Valle. Nas duas ocasiões – a primeira está disponível no YouTube, no vídeo abaixo –, o jornalista de Cordeirópolis dividiu o microfone com Reginaldo Leme.

Sobre Batista, uma curiosidade: em entrevista ao UOL Esporte, em 2011, ele revelou que a morte de Ayrton Senna foi a cobertura mais difícil da sua carreira.

Edson Mauro e Reginaldo Leme – Áustria-1982

Hoje voz conhecida da Rádio Globo, o carioca Edson Mauro narrou uma das chegadas mais apertadas na história da F1. Nesta prova, Elio de Angelis, da Lotus, superou a Williams de Keke Rosberg por meros 50 milésimos.

Infelizmente não há vídeos disponíveis na internet com a narração de Edson, mas sempre vale a pena assistir à disputa entre De Angelis e Rosberg nos minutos finais da corrida. Você pode relembrar o momento abaixo.

Reginaldo Leme e Janos Legyel – Alemanha-1982

Parece bizarro, mas Reginaldo Leme já narrou uma corrida de F1. E logo uma das mais clássicas: o GP da Alemanha de 1982, em que Nelson Piquet desferiu um golpe “Lango-Lango” no chileno Eliseo Salazar, da ATS, após um acidente que tirou ambos da prova na Ostkurve (veja no vídeo abaixo, com narração de Murray Walker – em inglês).

Infelizmente não há um vídeo inteiro da corrida na internet, mas podemos confirmar a atuação de Leme como narrador numa consulta ao acervo audiovisual do Projeto Motor (um dos secretários do comitê possui uma vasta videografia de corridas de F1 que vai desde 1980 até 2014).

Nos comentários, a presença de Janos Lengyel, jornalista húngaro-brasileiro que cobriu várias temporadas da F1 para o jornal “O Globo” nos anos 70 e 80.

Cléber Machado, Celso Itiberê e Raul Boesel – Alemanha-2001

O jornalista Celso Itiberê é bastante conhecido no meio automobilístico por suas colunas de F1 em “O Globo”, mas, fora suas esporádicas participações no “Redação SporTV”, é pouco visto na televisão.

No GP da Alemanha de 2001, último a ser disputado no Hockenheim original, o carioca substituiu Reginaldo Leme como comentarista, fazendo a transmissão ao lado de Cléber Machado e Raul Boesel – este último como convidado.

A prova em Hockenheim foi bastante acidentada. Logo na largada, Nick Heidfeld, da Sauber, e Pedro de la Rosa, da Jaguar, colidiram e Luciano Burti, da Prost, bateu na traseira da Ferrari de Schumacher e decolou. Os detritos na pista fizeram a direção determinar uma nova largada. A vitória ficou com Ralf Schumacher.

Luciano do Valle e J. Hawilla – África do Sul-1978

Este é um duo tão anômalo na história das transmissões da F1 no Brasil que demoramos a acreditar que a informação fosse verdadeira. Mas procede: Luciano do Valle, como narrador, e J. Hawilla, como comentarista, transmitiram o GP da África do Sul de 1978 pela Rede Globo.

O douto leitor deve saber: J. Hawilla se envolveu recentemente em um dos maiores escândalos de corrupção na história do futebol. Dono da Traffic, maior agência de marketing esportivo da América Latina, o jornalista foi declarado culpado pela Justiça dos EUA por acusações de extorsão, fraude eletrônica e lavagem de dinheiro. Nessa época, porém, ele era apenas conhecido como repórter de futebol e (como descobrimos) ocasional comentarista de automobilismo.

Se você quiser entender bem quem é J. Hawilla, leia esse belo texto da Trivela sobre o empresário.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Fábio Pereira de Araújo

    Sobre 1995, somente o GP do Pacífico e Japão foi o Cléber Machado sozinho, e reportagem de Marcos Uchôa, nos GPs da Europa e Austrália foi narração Cléber Machado e comentários Reginaldo Leme.

  • Heber Quaresma

    Excelente matéria conterrâneo. Essa semana assisti a corrida do GP dá França de 1987 e gostaria de saber quem foi o narrador na transmissão da TV Globo. Um abraço e sucesso.

    • Fábio Pereira de Araújo

      GP da França 1987 foi narração de Luiz Alfredo e comentários de Reginaldo Leme.

  • Apenas uma observação: Edson Mauro é carioca profissionalmente falando, mas na verdade é alagoano de nascimento. Ele chegou ao RJ em 1971 para a Rádio Globo, da qual esteve fora apenas entre 1985 e 1989, período no qual trabalhou nas rádios Jornal do Brasil e Tupi.

  • Vagner

    Alguns comentários.

    Sobre a temporada 1992, o Cleber Machado iniciou como narrador titular e narrou todas as provas até o GP de Mônaco. Porém, não agradou, e o Luiz Alfredo assumiu a titularidade a partir do Canadá (no YouTube tem vídeos destas corridas, dá pra comprovar).
    Já o Reginaldo, se eu não me engano, comentou apenas o GP da África do Sul, sendo depois afastado pela Globo (para não parecer que ele havia vencido Galvão na briga que os dois travavam naquela época, em virtude do Senna) e retornando só no Canadá.

    Quanto à temporada 95, o GP da Austrália teve sim os comentários do Reginaldo. Creio que ele não tenha comentado as provas de Nurburgring, Aida e SUZUKA.

    E além das duplas que tu citou, em 1982 o GP do Canadá (o do acidente fatal do Paleti) teve narração de Álvaro José e comentários do J. Hawila (tempos atrás tinha um vídeo no YouTube da interrupção da transmissão para início do Fantástico). E alguns outros GPs de 82 (inclusive a decisão em Las Vegas) foram narradas por Carlos Valadares com comentários do Reginaldo.

  • Caio Ronan

    Algumas considerações.

    Oliveira Andrade já havia narrado algumas corridas em 1989, junto com o Reginaldo Leme (França, a corrida que o Gugelmim bateu na largada).

    O Janos Legyel comentou uma corrida na Indy junto com o Téo José em 1997, figura fácil no jornalismo.

    O Celso Itiberê estava na Rede TV! na época, correto?

    • Errado. Celso Itiberê trabalhou na RedeTV! em 2003 e 2004. Certamente ele participou desta corrida de 2001 por ser na ocasião (e até poucos anos atrás) o comentarista titular da Fórmula 1 na Rádio Globo.

  • Só uma correção: no texto sobre Léo Batista, no primeiro parágrafo diz “paulistano Léo Batista” e, no segundo parágrafo, “o jornalista de Cordeirópolis”.

    Sim, ele é natural de Cordeirópolis e, até por isso, não poderia ser “paulistano”, gentílico de quem nasce na cidade de São Paulo. O correto seria, no primeiro parágrafo, citá-lo apenas como “paulista”.

    • Lucas

      Erro corrigido, Nysp. Obrigado!

  • André Gomes

    Ótima matéria e parabéns pela exposição dessas curiosidades e, de certa forma, algumas “aberrações” hehe…

  • Gustavo Segamarchi

    Na área de comentários, Reginaldo Leme e Luciano Burti são muito bons. Mas, aguentar a ANTA do galvão não dá, viu. Só assisto com ele para não perder a corrida ao vivo, mesmo!

    Outro cara PIOR para narrar a F1 na Globo, é o MALA do Luís Roberto, que só sabe ficar falando do Filipi e do Filipinho(com ”i” mesmo).

    O Cléber Machado também é bom para narrar SOMENTE a F1. Porque narrando jogo do Corinthians, o cara só falta subir pelas paredes quando o time marca um gol.

    Narração boa mesmo é a do Sportv, com o Sérgio Maurício, Max Wilson(esse é fera) e Lito Cavalcanti.

    Para assistir ao vivo sem os MALAS do Galvão e do Luís Roberto. É melhor acessar o Autoracing e acompanhar o Streaming da Sky Sports, que mesmo sendo em Inglês é muito bom.

    • André Gomes

      Mas o cara é torcedor do São Paulo (Cléber Machado)… o.O

  • Excelente matéria!