E se Bruce McLaren tivesse sobrevivido ao acidente em Goodwood?

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Cercado por três familiares, um senhor de 77 anos, manco e de óculos escuros, entra nos aposentos da McLaren em Melbourne. À primeira vista, um jornalista já se aproxima de um dos familiares para solicitar uma entrevista. “Em cinco minutos, preciso conversar com Fernando”, antecipa-se o idoso. No outro canto da sala, um garoto de oito anos, sentado próximo aos computadores, assiste à cena. “Quem é ele?”, pergunta o menino. “A razão por estarmos aqui”, responde um mecânico deitado no chão, ainda fixando uma das molas na suspensão traseira do MP4-30.

McLaren 2
McLaren acelera no GP do México de 66

Se, 45 anos atrás, o protótipo M8-Chevrolet não tivesse se chocado contra o muro da reta Lavant em Goodwood, o quadro descrito acima poderia ter sido real. Bruce Leslie McLaren, um dos maiores pilotos na história da F1, estaria vivo. Mas o que aconteceria com a carreira do inovador volante neozelandês, caso permanecesse no esporte por algumas temporadas?

Façamos um exercício de ficção. Em 1970, McLaren já era um veterano, com mais de dez anos de experiência na F1, uma vitória nas 24 Horas de Le Mans, uma vitória nas 12 Horas de Sebring e um título da Can-Am, o último obtido com seu próprio carro. Ainda em vida, o corredor de Auckland também começou a projetar o M15, primeiro modelo de Woking a participar das 500 Milhas de Indianápolis. Sua carreira, portanto, ainda parecia estar longe da decadência.

O que nunca saberemos, infelizmente, é se McLaren finalmente teria a chance de disputar um título mundial na F1. Sua equipe só começou a obter resultados expressivos a partir de 1972 e o primeiro título levou mais duas temporadas para se concretizar – numa época em que o neozelandês já teria 36 anos.

24 Hours of LeMans, LeMans, France, 1966. Chris Amon/Bruce McLaren Shelby American race winning Ford Mark II at the Mulsanne Hairpin. CD#0554-3252-2890-18.
McLaren e seu compatriota Chris Amon venceram as 24 Horas de Le Mans de 66

É fato que, se o campeonato de 1974 ficasse nas mãos de McLaren, o Brasil teria um título a menos que hoje. Mas, ao menos na opinião do Projeto Motor, seria uma honraria digna: afinal, o neozelandês não apenas foi um piloto competitivo, mas um engenheiro e team manager vanguardista cujo legado permanece nas pistas e nas ruas até hoje. E sua vida durou pouco mais que um quarto de século.

De qualquer forma, imaginemos o que aconteceria com a carreira do “Kiwi” – como os neozelandeses são conhecidos no mundo britânico. Ainda se reestruturando após a morte de seu fundador, os anos de 70 e 71 foram agridoces para a McLaren: na primeira temporada, o time terminou o Mundial de Construtores em quinto, e na segunda, caiu para sexto. Foi uma época tão amena que, no período, os melhores resultados foram um segundo lugar de Denny Hulme em Kyalami-70 e um segundo lugar do próprio McLaren em Jarama-70. Contudo, será que o time teria sofrido uma queda tão acentuada caso o neozelandês não tivesse morrido?

Avancemos a 1972. Construído por Ralph Bellamy no ano anterior, o M19 finalmente começou a garantir bons resultados a Woking. Denny Hulme triunfou em Kyalami e obteve cinco pódios no restante do ano, terminando a época em terceiro. O segundo piloto Peter Revson também teve certo sucesso, o que nos leva a presumir que McLaren teria boas chances de abocanhar pódios neste ano e até uma eventual vitória.

No ano seguinte, embora Lotus e Tyrrell tenham dominado o campeonato, a McLaren frequentemente ameaçou os carros de Elf e Imperial Tobacco. Terceira força no fim da temporada, Woking obteve três vitórias, duas com Revson, em Silverstone e Mont-Tremblant, e uma com Hulme, em Anderstorp. Diante da decadência do campeão de 1967, é provável que a briga entre McLaren e Hulme fosse até mais desequilibrada. Aliás, com o maior envolvimento de Timmy Mayer no time, talvez à época Hulme já estivesse fora da equipe.

Por fim, chegamos à temporada de 1974. Todo mundo sabe que a contratação de Emerson Fittipaldi se deu muito em razão do declínio de Hulme como piloto nº 1. A disputa, portanto, provavelmente ocorreria entre o brasileiro e seu chefe oceânico. Sobre o vencedor do confronto, preferimos deixar em aberto aos leitores.

McLaren morreu em 1970, em um acidente em Goodwood
McLaren morreu em 1970, em um acidente em Goodwood

Já com 37 anos, este seria o ano final de McLaren na F1. Afinal, assistira às saídas de John Surtees, Dan Gurney e a maior parte de seus contemporâneos. Neste ínterim, também ocorreram as mortes de Jim Clark, Piers Courage, Jo Siffert e outros volantes – episódios que provocaram a saída prematura de diversos pilotos da época, como Jackie Stewart e Johnny Servoz-Gavin. Também é possível que, após o fraco ano de 1971, McLaren também se enchesse da competição-rainha e fosse se aventurar na América, já que o carro de Woking venceria três edições das 500 Milhas de Indianápolis em 1972, 1974 e 1976.

Hoje em dia, provavelmente estaria cético em relação às restrições no regulamento da F1, cornetando o Grupo Estratégico e a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e interessando-se mais pelo WEC. “Pelo menos lá se pode inovar um pouco”, diria. Como Jack Brabham, também teria vendido sua equipe para o sócio após se aposentar. Mas, nesse mundo irreal, teria se orgulhado de carregar o nome de campeão mundial ao menos uma vez na carreira.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.