Eau Rouge, Peraltada, Tamburello: como surgiram os nomes das curvas da F1?

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Eau Rouge, St. Dévote, Parabolica, Becketts, Tamburello. Todos esses são nomes bastante familiares aos fãs mais assíduos do automobilismo, pois tratam-se de palcos de momentos históricos das corridas.

Os nomes destes templos sagrados têm origens das mais diversas, o que enriquece ainda mais o folclore por trás dos autódromos tradicionais – ao contrário do que se passa com as praças modernas e suas insossas curvas diferenciadas somente por números.

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No caso do Brasil, as curvas de Interlagos já são amplamente conhecidas do público. A história do “S do Senna”, desenhado pelo tricampeão, as curvas em formato de ferradura e bico de pato, além do trecho que sempre pregava peças nos pilotos novatos – ou, como se dizia antigamente, os “laranjas” – já se tornaram parte da cultura do automobilismo brasileiro.

Mas e quanto às demais pistas do Mundial de F1? Quais são as histórias curiosas por trás dos nomes de suas curvas? É o que o Projeto Motor tenta responder abaixo, sobretudo em relação aos traçados atuais da categoria, mais algumas curvas clássicas do passado. Se você lembrar de mais alguma que deixamos passar, fique à vontade para contribuir conosco nos comentários abaixo!

Spa-Francorchamps: a água vermelha e sua subida abrupta

Spa Francorchamps

Começamos com aquele que é o autódromo mais cultuado da F1 moderna. A curva Eau Rouge, ainda na porção inicial do circuito, é vista quase de maneira unânime pelos pilotos como o ponto mais desafiador e impressionante de todo o calendário da categoria.

“Eau Rouge” é o francês para “Água Vermelha”. O nome foi dado à curva por causa do rio homônimo que corre por debaixo do trecho, conhecido por ter sua água em tons de ferrugem devido às características do solo.

Ao contrário do que muitos pensam, a Eau Rouge é apenas a leve guinada para a esquerda na entrada do “paredão”. A subida abrupta no trecho é a Raidillon, que, em francês, significa…. Subida abrupta! Na língua local, o trecho é chamado de “Raidillion de l’Eau Rouge”, ou seja, “subida abrupta da Eau Rouge”, por isso a confusão sobre qual curva é qual.

Alguns outros pontos de Spa receberam os nomes dos municípios dos quais passam perto. É o caso da Stavelot e Malmedy, dois logradouros da província belga de Liége.

Mônaco: da santa padroeira ao fundador da prova

Monaco

De um templo sagrado para outro, chegamos às ruas de Monte Carlo. A primeira curva da pista de rua é a St. Dévote, batizada em homenagem à Santa Devota, padroeira do principado. Atrás das arquibancadas da curva há uma igreja construída em seu nome.

Em cima do morro os pilotos chegam à Massenet, curva situada próxima ao teatro de ópera de Mônaco. O trecho homenageia Jules Massenet, compositor francês de música clássica. A curva seguinte, a Cassino, tem seu nome por motivos óbvios: fica próxima à casa de jogos monegasca.

Em seguida, os pilotos contornam a Mirabeau e a Grand Hotel, curvas que receberam o nome dos hotéis das proximidades. Depois do túnel há a Nouvelle Chicane, ou “chicane nova”, já que o trecho só foi inserido em 1986.

Se o piloto não encontrou o guard-rail até então, a próxima curva em que ele chega é a Tabac, que passa próxima a uma tabacaria. A chicane das Piscinas, como o nome indica, é ao lado de um complexo aquático do principado. Por fim, a Rascasse leva o nome de um restaurante vizinho, e a Anthony Noghes homenageia o fundador da prova.

Silverstone e suas referências históricas

Becketts-Maggots

A versão atual do traçado, inaugurada em 2011, tem seu início na Abbey, nomeada em homenagem à abadia (tradução da palavra para o português) de Luffield, situada próxima ao trecho.

O novo setor da pista se encontra ao traçado antigo na Luffield, também nomeado devido ao mosteiro das redondezas citado acima. A primeira curva da versão anterior da pista é a Copse, referência ao bosque de sobreiros que circunda o local.

O ponto mais desafiador da pista começa na Maggots, batizada com o nome do pântano homônimo próximo. As próximas curvas são a Becketts e Chapel, referência à Capela de São Tomás Becket, que existia no local até 1943.

O trecho seguinte é a Reta do Hangar. Na Segunda Guerra Mundial, o circuito de Silverstone foi usado como base aérea da Royal Air Force, e o trecho em questão hospedava a pista de pouso/decolagem, e, claro, os hangares. Já a Stowe homenageia a Stowe School, colégio das redondezas.

Monza homenageia e Alberto Ascari e comunidade de Lesmo

Chicane foi construída no local em que Alberto Ascari morreu
Chicane foi construída no local em que Alberto Ascari morreu

O circuito mais veloz da F1 começa com a Variante del Rettifilo, ou, em tradução livre do italiano, “variante da linha reta”. Depois, os pilotos se dirigem à Curva Grande, batizada devido ao seu longo raio, e à Variante della Roggia, que recebeu o nome por conta de um riacho (tradução da palavra para o português) das proximidades.

As duas Di Lesmo receberam o nome devido à comunidade de Lesmo, situada nas redondezas do trecho. Uma longa reta depois, os pilotos chegam à Variante Ascari, local onde o Alberto Ascari, último italiano campeão mundial, morreu em um acidente, em 1955. Para completar a volta há a Parabolica, batizada desta forma devido ao formato de sua trajetória.

Outras curvas lendárias

imola autodromo

Palco do episódio de maior comoção da F1 moderna, a curva Tamburello, em Ímola, tem o mesmo nome do instrumento musical chamado em português de tamborim. Além disso, Tamburello também é o nome de um esporte jogado na Itália, que se assemelha ao tênis e que usa um tamborim como acessório.

Mas por que a curva tem esse nome? Bem, isso é desconhecido por este autor. Uma teoria aceita (mas, infelizmente, não totalmente comprovada) é de que a trajetória da curva original se assemelha ao movimento básico de um jogador de Tamburello, como você pode ver no vídeo abaixo:

Outras curvas famosas de Ímola são a Villeneuve, local onde Gilles Villeneuve sofreu um forte acidente em 1980, e a Acqua Minerale, que é o nome de um parque situado dentro das dependências do autódromo Enzo e Dino Ferrari.

Por fim, mais duas curvas que o Projeto Motor apontou como as mais desafiadoras da história da F1. A Tarzan, em Zandvoort, foi dada em homenagem ao antigo proprietário do terreno do circuito, que recebeu o apelido do personagem e que supostamente só concordou em ceder o local para a construção do autódromo caso recebesse a homenagem. Já a finada Peraltada, no México, vem do espanhol “peralte”, ou seja, “inclinada”.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • O esporte citado como Tamburello é o tamboréu, muito praticado em Santos.

  • Rafael Schelb

    Só lembrando que a Malmedy e a Stavelot atuais tem os nomes em homenagem às curvas originais do traçado, que passavam pelas respectivas cidades.