Renascido na MotoGP, Rossi ganha rara chance de se aposentar em alta

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O fim da carreira de um piloto, na maioria das vezes, é sinuoso. Na verdade, mesmo entre os distintos, é difícil apanhar o momento certo de se aposentar. Basta ver o que ocorreu com as carreiras de Graham Hill e Nelson Piquet em seus últimos suspiros na F1 – fantasmas dos pilotos que foram um dia.

Valentino Rossi, por sua vez, pode ser uma exceção à regra. Hegemônico nos anos 2000, o italiano, é fato, viu seu domínio na MotoGP ser reduzido a pó no início da década, com a ascensão dos espanhóis Jorge Lorenzo e Marc Márquez. No entanto, desde o retorno à Yamaha, em 2013, Il Dottore (“O Doutor”, como é chamado na Itália) vem paulatinamente retomando o território perdido.

No ano passado, ele já emplacou um vice-campeonato, desbancando Lorenzo por 32 pontos e Dani Pedrosa por 59. Na atual temporada, lidera o certame com um ponto de vantagem sobre o companheiro de Yamaha, tendo sido o único piloto a subir ao pódio em todas as etapas do campeonato. Pode ser a chance do veterano, já próximo de sua aposentadoria, encerrar a carreira com magnificência.

Aos 36 anos, Rossi é considerado por muitos como o melhor motociclista de todos os tempos. Com seu estilo arrojado, o Doutor capturou nove títulos no Mundial, sete deles na categoria-mãe, a MotoGP (até 2001, chamada de 500 cc). Também nessa classe, o italiano de Urbino sustenta o recorde de maior número de vitórias (84), segundos lugares (48), pódios (167) e largadas (259). E levando em consideração as outras classes, ele é o segundo maior vencedor de todos os tempos, com 110 triunfos, 12 atrás do também italiano Giacomo Agostini.

Mas, mesmo com esse prestígio colossal, a carreira de Rossi quase se perdeu no início da atual década. O calvário começou em junho de 2010, quando, durante os treinos livres para o GP da Itália, o multicampeão espatifou sua Yamaha na Biondetti a 190 km/h. No impacto, Rossi sofreu uma fratura na tíbia e teve que ser submetido a uma cirurgia no hospital de Cattolica. Fora de quatro etapas no certame, terminou o ano em terceiro, 150 pontos atrás do companheiro de equipe, arquirrival e eventual campeão Lorenzo.

Rossi comeu o pão que o diabo amassou na Ducati (Divulgação)
Rossi comeu o pão que o diabo amassou na Ducati (Divulgação)

Veio então a transferência para a Ducati no fim de 2010 – uma mudança motivada, ao que parece, muito mais por questões financeiras que técnicas. A princípio, de acordo com o jornal italiano “Corriere dello Sport”, a ideia de Rossi era seguir na Yamaha. Mas um plano de contenção de custos e um consequente corte no salário – 14 milhões para 9 milhões de euros por ano – dificultou a situação do heptacampeão no time. Além disso, o Doutor não absorvera bem o fato de a Yamaha permitir uma adição no vencimento de Lorenzo, que subiria de 4 milhões em 2010 para 8 milhões em 2011. Insatisfeito com o tratamento dado ao rival, Rossi pediu as contas e aceitou a oferta da Ducati, onde ganharia 15 milhões de euros por ano.

No entanto, a renovação no contracheque não se traduziu em sucesso na pista e, na fábrica de Bolonha, foram dois anos de penúria, com nenhuma vitória e três pódios em 35 corridas. No fim do contrato, sua carreira estava num ponto tão baixo que muitos duvidaram do que o italiano seria capaz de fazer no seu surpreendente retorno à Yamaha, anunciado nos idos de 2012.

De fato, o primeiro ano de Rossi fora abaixo do padrão. Apesar de uma vitória sensacional em Assen, após um duelo contra Marc Márquez, o heptacampeão terminou o certame com 93 pontos e sete vitórias a menos que o colega Lorenzo. Para piorar o cenário, das 18 etapas, Rossi só chegara à frente do espanhol em duas ocasiões (Assen e Laguna Seca).

A aposentadoria parecia estar próxima. Único remanescente da antiga 500 cc, Rossi demonstrava ter caído na mesma cilada de outros campeões que hesitam em parar. Mas 2014 e 2015 contrariaram as más expectativas. No bicampeonato de Marc Márquez, Lorenzo teve um ano claudicante e o Doutor, beneficiado por um bom início de campeonato, terminou a época à frente do rival e com um vice no currículo.

Lorenzo: nêmesis de Rossi na atual temporada (Divulgação)
Lorenzo: nêmesis de Rossi na atual temporada (Divulgação)

O ano de 2015, parece, pode ser o ponto de virada no ressurgimento de Rossi. Líder do certame desde o primeiro GP, o italiano acumula 138 pontos, duas vitórias e sete pódios em sete corridas disputadas. É fato que Lorenzo melhorou de Jerez para cá, tendo emplacado quatro vitórias em sequência no campeonato. Mas Valentino, do alto dos seus 36 anos, parece ainda ter lenha para queimar.

Em números, o italiano vive sua melhor fase na MotoGP em tempos. A última vez em que Rossi conquistou sete pódios consecutivos numa única temporada se deu em 2008, ano de seu penúltimo título. Além disso, mesmo com a recente ascensão de Lorenzo, o heptacampeão se mostra seguro quanto ao seu potencial. Ele disse neste domingo (14), após a etapa da Catalunha:

“Minha velocidade na prova foi igual à de Jorge. Após sete corridas, temos uma diferença de um ponto e um ritmo semelhante, então [a disputa pelo campeonato]vai ser interessante.”

Com contrato pela Yamaha até o fim de 2016, Rossi também possui alguns recordes importantes a buscar, como o de maior número de vitórias em todas as classes da motovelocidade e o de títulos na categoria máxima. Ou seja, o Doutor tem à frente um caminho interessante para conseguir o que muitos de sua estirpe não puderam: aposentar-se em alta. Vamos torcer para que ele siga nesse ritmo.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.