Emoção, fiasco de Montoya e tragédia definem temporada da Indy em 2015

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Convidado do Projeto Motor

Dezesseis anos atrás, na temporada 1999 da extinta Cart, o colombiano Juan Pablo Montoya se consagrava campeão da categoria no critério de desempate contra o escocês Dario Franchitti. Uma sucessão de acidentes nas últimas corridas colocou Montoya como segundo colocado quando os dois pilotos chegaram a Fontana para a disputa da última etapa. O colombiano terminou a prova em quarto e o britânico, que se tornaria tetracampeão da Indy, ficou em décimo. Ambos terminaram com 212 pontos, mas Juan Pablo tinha sete vitórias contra três de Dario.

Hoje, dia 30 de agosto de 2015, a história se repetiu, só que ao contrário. Um improvável neozelandês chamado Scott Dixon trilhou uma corrida perfeita no deserto de Sonoma, na Califórnia, e, contrário a todas as expectativas, venceu tanto a prova quanto o campeonato. Enquanto isso, um desesperado Montoya terminava em sexto depois de um dia cheio de problemas, empatando com o então campeão em número de pontos e perdendo, curiosamente, o caneco no critério de desempate – Dixon teve três vitórias e o latino somente duas.

Pela 11ª vez nos últimos 15 anos, Chip Ganassi levou o título da Indy (Chris Owens/IndyCar)
Nos últimos 20 anos, Ganassi venceu mais da metade dos títulos disputados na Indy (Chris Owens/IndyCar)

Foi um final irônico, porém emocionante para uma temporada imprevisível. Também foi a repetição de um padrão já visto várias e várias vezes na Indy nos últimos anos. De 1996 para cá, a Chip Ganassi se sagrou campeã por impressionantes 11 vezes – quatro com Dixon, três com Franchitti, duas com Alex Zanardi, uma com Jimmy Vasser e outra com o próprio Montoya. Em comparação, a Penske ganhou apenas quatro – duas com Gil de Ferran, uma com Sam Hornish Jr. e uma com Will Power.

A Penske, que tradicionalmente conta com pilotos arrojados como Montoya, Hélio Castroneves e Will Power, perdeu incontáveis disputas contra pilotos mais calculistas como o próprio Dixon e Dario Franchitti, que entre 2009 e 2011 ganhou todos os títulos que disputou. Só Castroneves foi vice cinco vezes (2002, 2006, 2009, 2013 e 2014), sendo que em 2009 e 2013 perdeu o título para o neozelandês nas provas finais.

Power, por sua vez, foi tri-vice consecutivamente, perdendo as temporadas 2010 e 2011 para Dario Franchitti e 2012 para Ryan Hunter-Reay. Todas essas vezes, o australiano chegou como o líder da tabela na etapa final, mas sofreu algum acidente que o privou do caneco. Ryan Briscoe, ex-piloto da Penske, tinha a taça nas mãos em 2009, mas um acidente estúpido na penúltima etapa em Motegi acabou com suas chances de título e ele terminou em terceiro atrás de duas Ganassi.

Montoya: título perdido na etapa final (Chris Jones/IndyCar)
Montoya: título perdido na etapa final (Chris Jones/IndyCar)

É uma pena, realmente, que Montoya tenha vindo a perder o título de 2015 depois de uma temporada formidável. Ele liderou a tabela durante todas as provas e uma única posição a mais em qualquer uma delas teria sido suficiente para lhe garantir o título. Ainda de quebra, o colombiano venceu as 500 Milhas de Indianápolis em uma das corridas mais emocionantes que o autódromo centenário viu em muitos anos, colocando assim seu nome em um troféu que servirá (até certo ponto) como prêmio de consolação.

Ficará, contudo, sempre o gosto amargo pelo título perdido em Sonoma. Principalmente pelo enrosco com Power na primeira parte do percurso, que jogou o colombiano para o fim do pelotão e praticamente minou suas chances de título. Uma maior atenção neste ponto do páreo e o troféu poderia estar em suas mãos.

Não obstante, apesar de todas as suas inegáveis qualidades e o final emocionante, a temporada 2015 da Indy para sempre ficará manchada pela morte de um piloto. O acidente de Justin Wilson em Pocono eclipsou o fato de que nove pilotos de sete equipes diferentes visitaram o lugar mais alto do pódio, e que este foi um dos campeonatos mais disputados da história da categoria. Também colocou em xeque a credibilidade de uma das mais populares organizações do automobilismo de monopostos e levantou uma série de complexos questionamentos sobre a segurança no esporte a motor.

Se Montoya e Penske serão capazes de superar suas maldições das etapas finais, essa é uma pergunta que só poderá ser respondida em 2016. No entanto, podemos esperar – e exigir – algumas mudanças para o próximo ano, principalmente no quesito segurança. E torceremos com uma expectativa quase juvenil para que a categoria não seja forçada a sacrificar suas maiores qualidades – a emoção e a imprevisibilidade – em detrimento de sua segurança.

Tributo a Justin Wilson no pitwall de Sonoma (Chris Owens/IndyCar)
Tributo a Justin Wilson no pitwall de Sonoma (Chris Owens/IndyCar)

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Roberto Fideli é paulistano formado em jornalismo pela Casper Líbero e fã de automobilismo desde criança. Cobriu Nascar e Indy para o site do canal Fox Sports em 2012 e 2013. É fã dos pilotos Jimmie Johnson, Dario Franchitti e Juan Pablo Montoya. Também trabalhou como editor, revisor, redator e assessor.