EMW: a irmã socialista da BMW que também correu na F1

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A BMW teve algumas passagens pela F1 tanto como construtora de chassi como fornecedora de motores. Uma companhia irmão da República Democrática Alemã (RDA) também teve uma experiência na categoria após algum sucesso em séries menores. A EMW era versão oriental da tradicional marca e se embrenhou no Mundial bem antes de sua parente do oeste.

Para entendermos esta história, temos que viajar um pouco pela história da própria BMW e da Alemanha. A empresa iniciou sua trajetória fabricando motores para aviões a partir de 1913, após a fusão de duas companhias do setor. Com a explosão da Grande Guerra, a BMW cresceu muito graças às encomendas do exército alemão.

Só que ao final do combate, o Tratado de Versalhes, assinado em junho de 1919, impôs, entre diversas restrições impostas ao governo e empresas alemãs, que a empresa cessasse a produção de motores para aviões. Para se manter operacional, a companhia da Bavária começou a fabricar equipamentos agrícolas, itens domésticos, freios para trens e utilizou sua tecnologia de motores em motos.

Finalmente, em 1928, a BMW comprou a pequena montadora de carros Automobilwerk Eisenach, da cidade que dava nome à empresa, e começou a fabricar seu primeiro modelo, o BMW 3/15. A divisão rapidamente cresceu e gerou novos frutos para o mercado durante e década de 30, consolidando a BMW no setor e propiciando também a entrada da marca no automobilismo.  

Paralelamente, a Alemanha começou uma nova militarização, que mais uma vez promoveu a BMW a fornecedora de motores de avião para o exército. Veio a II Guerra e novamente o país saiu derrotado. Só que dessa vez, os alemães ainda terminariam divididos, com uma parte do território ao oeste administrado pelos Aliados enquanto o leste ficou sob ocupação das forças da União Soviética, onde seria formada a República Democrática Alemã, também chamada popularmente por Alemanha Oriental.

E adivinhem quem estava dentro desse território? Sim, Eisenach e uma das principais fábricas da BMW, que passaria agora ao controle da Soviet Awtowelo Company (SAG), após alguns meses sob ocupação de militares americanos. A produção de carros e motos foi reiniciada após 1945 e usando a marca BMW.

As duas companhias chegaram a entrar em um litígio sobre a marca. Apesar da sede história na Bavária estar no oeste, o pessoal de Eisenach alegava que a fábrica de carros começou lá. No final, a BMW conseguiu obrigar que seus agora concorrentes do leste mudassem de nome e fizeram toda  operação para não terem nenhuma ligação legal com a nova empresa que nasceria na Alemanha Oriental. E assim, foi criada a EMW (Eisenacher Motorenwerk, ou, em tradução livre Fábrica de Motores de Eisenach), agora independente.

O novo governo da RDA, que passou a vigorar em 1949, passou a unificar toda sua indústria automobilística em Eisenach, estimulando a engenharia local e o abastecimento de fornecedores, inclusive com acordos com a União Soviética. Desta forma, apesar de atrasada, ela rapidamente conseguiu agilizar a estruturação da companhia.

A equipe de corridas da EMW

Com princípios socialistas, a RDA logo viu a necessidade de incentivar as atividades esportivas. E o automobilismo era uma forma não só de competição, mas também forma de mostrar o que seus trabalhadores locais eram capazes na produção de carros.

Logo em 1949, a primeira corrida aconteceu no país, em Dessau. A EMW sequer tinha sido constituída totalmente e ainda era oficialmente parte da SAG, mas em um esforço do governo local de mostrar à população alguma evolução da indústria local, a companhia entrou na prova com duas inscrições, utilizando ainda antigos modelos.

Modelo da EMW em ação
Modelo da EMW em ação

Como a BMW já vinha participando de algumas competições no pré-guerra, a turma da EMW utilizou como base para iniciar seu desenvolvimento carros que já corriam antes da paralisação do automobilismo que tomou a Europa durante o grande conflito, algo que praticamente todas as montadoras fizeram para o final da década de 40.

Assim, os estudos de deram em cima do BMW 328 para o desenvolvimento do BMW 340, rebatizado depois de EMW 340/I. A evolução do modelo, no entanto, acabou resultado em um veículo praticamente novo e feito totalmente “dentro de casa”. E assim, a EMW criou uma equipe oficial a partir de 1950 e conseguiu começar a participar com seus próprios modelos na F2.

Tudo era financiado pelo estado, porém, com restrições orçamentárias para que o objetivo principal da marca, que era de abastecer o mercado interno de automóveis, não fosse desvirtuado.

O começo do programa foi bastante difícil, com diversas corridas em casa para carros da Alemanha Ocidental e questionamentos públicos sobre o investimento feito. Mas é claro que a empresa precisava de tempo para encontrar seu melhor formato de competição. E a partir da temporada de 1952, os resultados começaram a surgir. A primeira vitória veio em Sachsenring,  com Edgar Barth, ainda utilizando antigos motores BMW de 1,5 litro, batendo carros da própria BMW (sem apoio oficial), e de equipes alemãs como AFM e Veritas-Meteors. O time voltou a vencer em Halle e o programa finalmente decolou.

Dentro da Alemanha Oriental, a EMW passou finalmente e brigar por vitórias e bons resultados. Fora, os principais resultados ainda aconteciam em provas realizadas em países que formavam o bloco soviético, como na Tchecoslováquia, já que por questões políticas existiam restrições de viagens e participação em eventos no ocidente. De qualquer maneira, o novo momento causou um otimismo sobre a possibilidade de para tentar competir no oeste contra adversários fora do espectro soviético. A equipe conseguiu bons resultados na F2 internacional, como um quinto lugar na tradicional prova de Eifelrennen de 53.

Como o Mundial de Pilotos, ou F1, também estava utilizando o regulamento da F2 naquela temporada, a companhia resolveu se arriscar e se inscreveu no GP da Alemanha de 1953, com seu modelo R2 e um motor BMW redesenhado pelos engenheiros da empresa. Foi uma oportunidade única de uma equipe socialista finalmente enfrentando adversários do resto do mundo.

A experiencia, aqui, foi mais dura. Barth conseguiu classificar o carro em 24º entre os 34 competidores, à frente basicamente de outros participantes locais que também iriam participar especificamente daquela prova. Ele abandonou com um problema no motor na 12ª das 18 voltas da prova, quando era 21º.

Monoposto de F2 da EMW

Esta foi a única participação da EMW no Mundial, ainda mais por conta da volta do regulamento “F1” para 1954, o que obrigaria a marca a projetar e construir um carro totalmente novo para correr contra adversários mais poderosos em termos de capacidade de investimento e desenvolvimento.

O time, no entanto, continuou competindo pela F2 na Alemanha Oriental e até em algumas provas internacionais realizadas na Alemanha Ocidental. Em 1954, o piloto Arthur Rosenhammer conduziu o modelo da equipe ao recorde mundial de velocidade em uma distância de 16 km com a média de 229,5 km/h.

O fim do programa para pistas

Em 1957, o governo da República Democrática Alemã resolveu encerrar o desenvolvimento de novos carros de corrida. Porém, os engenheiros da EMW seguiram trabalhando com automobilismo e receberam a autorização para entrarem nas competições de rali.

Isso porque neste tipo de provas, eles poderiam adaptar modelos de rua para as especificidades da modalidade, sem necessariamente gastar dinheiro com a construção de veículos específicos de competição, como as corridas de monopostos exigiam.

O programa off-road da EMW seguiu existindo até 1991, quando a empresa foi fechada após a reunificação da Alemanha.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.