Entenda a polêmica do acordo confidencial entre Ferrari e FIA

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Nos últimos dias, uma [nova]grande polêmica tomou conta do noticiário da F1: o acordo confidencial entre FIA e Ferrari relacionado à investigação sobre o motor da marca italiana.

Após desconfianças levantadas pelas rivais sobre o equipamento da Ferrari, que se mostrou o melhor durante a temporada de 2019, a FIA passou parte do último ano monitorando e averiguando se existia alguma irregularidade na unidade de potência produzida em Maranello. E a resposta não poderia ter vindo de forma mais evasiva e questionável possível.

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O comunicado do acerto foi emitido pela entidade na sexta-feira (27), último dia da pré-temporada em Barcelona, faltando cerca de 10 minutos para o fim da sessão. Nele, a FIA explicou que tinha concluído a investigação sobre o propulsor da Ferrari e chegado a um acordo com a equipe sobre um “número de compromissos técnicos que irão melhorar a monitorização de todas unidades de potência da F1 nas próximas temporadas”.

A frase que chamou a atenção de todo mundo, no entanto, foi essa: “Os detalhes do acordo ficarão entre as partes”. Ou seja, ninguém fora FIA e Ferrari, nem mesmo as outras escuderias do campeonato, saberão o que foi investigado, o que foi encontrado e quais foram as concessões feitas por ambos os lados. Esquisito, não?

Bem, as outras equipes da F1 também acharam, e sete delas divulgaram na última quarta-feira (04) um comunicado conjunto sobre a situação se dizendo “surpresas e chocadas” com o pronunciamento da FIA, abrindo a possibilidade de procurar a justiça para saber o que existe dentro do tal acordo.

“Nós anunciamos publicamente nosso compromisso compartilhado de buscar a divulgação completa e adequada sobre esta questão, para garantir que nosso esporte trate todos os concorrentes de maneira justa e igual. Fazemos isso em nome dos fãs, participantes e partes interessadas da F1”, avisa a nota, assinada por McLaren, Mercedes, Racing Point, Red Bull, Renault, Alpha Tauri e Williams. Os únicos times que não participaram foram Haas e Alfa Romeo, que utilizam os motores da Ferrari.

A resposta da FIA já veio nesta quinta-feira (05) e pode ter piorado ainda mais a situação. Ela explica que realizou profunda investigação na unidade de potência da Ferrari e apesar de “não ter ficado totalmente satisfeita” com o que encontrou, “decidiu que novas ações não iriam necessariamente resultar em uma conclusão por conta da complexibilidade da questão e a impossibilidade material de conseguir uma evidência inquestionável de quebra [do regulamento].”

Dupla da Ferrari, Leclerc e Vettel, no GP do Brasil de 2019
Dupla da Ferrari, Leclerc e Vettel, no GP do Brasil de 2019 (Foto: Ferrari)

Em outras palavras, a entidade admitiu que acredita que tinha algo errado no motor da marca italiana, pois não ficou “satisfeita” ao final do processo, mas não consegue provar. Sendo assim, ela achou melhor fazer um acordo em que a Ferrari sai livre, mas entrega o que estava fazendo e como a FIA pode fiscalizar para que ninguém mais use o mesmo artifício.

Agora, você deve estar se perguntando: mas que raios que a Ferrari fez, afinal? Vamos às explicações.

Indícios contra a Ferrari

Desde 2014, o regulamento de motores da F1 impõe um limite de fluxo de combustível aos motores. A ideia é limitar a quantidade de combustível utilizado em todos os propulsores para incentivar as fabricantes e aumentar sua eficiência de aproveitamento da energia calórica ao máximo. O motor que conseguir tirar mais energia da queima de uma mesma quantidade de combustível terá mais potência, sem ser o mais “gastão”, pois o consumo é limitado na utilização de 100 kg/h.

A fiscalização é feita por um sensor que mede a velocidade do combustível em uma passagem entre o tanque e a injeção através de um pulso ultrassônico. Se ele for mais rápido do que o esperado entre os dois pontos aferidos pelo equipamento, quer dizer que tem mais combustível entrando na câmera de combustão do que o permitido.

Mesmo com a limitação de 110 kg de combustível no tanque, esse modelo é utilizado para evitar que o carro ultrapasse o fluxo de 100 kg/h em qualquer momento. Caso contrário, o piloto poderia usar um mapeamento de motor para queimar mais combustível durante algumas voltas para ganhar vantagem e depois economizar no final. De novo, o espírito do regulamento é estimular o desenvolvimento de novas tecnologias para aumento de eficiência.

Só que a grande velocidade de reta que a Ferrari estava conseguindo em 2019 começou a levantar suspeitas. A diferença chegava, segundo o GPS oficial da categoria, a mais de 0s5 em em alguns trechos de aceleração em determinados circuitos. E se a equipe italiana estivesse conseguindo uma forma de driblar o sensor?

A explicação da escuderia era que sim, ela tinha um bom motor, mas a grande vantagem se dava também pode ter um carro com menos arrasto aerodinâmico, o que explicava a perda depois nas curvas.

A FIA já tinha suas desconfianças em 2018, quando hegou a anunciar que iria instalar um segundo sensor no carro da escuderia para apertar a fiscalização a partir do GP da Bélgica daquele ano. Só que a confusão aumentou em 19, principalmente após a Red Bull, na etapa do México, fazer um questionamento à entidade sobre alguns cenários em que o fluxo poderia ser acelerado ou combustível armazenado ou reciclado após o ponto de medição do sensor. A FIA respondeu com uma diretiva técnica avisando a todas as equipes que os três artifícios eram ilegais.

Na etapa seguinte, em Austin, Red Bull e Mercedes apontaram que a Ferrari estaria mais lenta nas retas e sugeriram que seria uma adequação do propulsor ao comunicado da FIA. Em outras palavras, acusaram a equipe de que ela estava ilegal antes da diretiva e que precisou mudar o motor por conta dos esclarecimentos da FIA. Chefe da escuderia de Maranello, Mattia Binotto explicou que a queda da vantagem dos carros do time nas retas americanas, no entanto, tinha se dado por questões aerodinâmicas e não do motor. Além disso, Charles Leclerc, por conta de um problema nos treinos livres, estava usando um equipamento mais antigo e limitado em potência.

Só que não demorou para mais um caso levantar novas suspeitas. No GP de Abu Dhabi, a FIA identificou que o carro de Leclerc estava carregando 4 kg de combustível a mais do que o time tinha comunicado. A entidade mede de forma aleatória alguns carros pesando antes da corrida os monopostos com e sem combustível. Depois da prova, passa os modelos novamente pela balança. Ela compara com que os times obrigatoriamente comunicaram que estavam levando para a corrida e consegue saber o quanto de combustível cada um utilizou. Se a conta não bater, pode ser um indício de utilização maior de fluxo em algum momento, queimando uma quantidade maior de combustível.

Boxes da Ferrari
Boxes da Ferrari (Foto: Ferrari)

A Ferrari alegou que houve um erro na comunicação à FIA . Como ela não ultrapassou o limite de 110 kg no total do tanque e nenhum dos sensores acusaram um aumento do fluxo durante a prova, a entidade não teve alternativa a não ser apenas multar a equipe em 50 mil euros pelo suposto escorregão na comunicação.

O que acontece agora?

Obviamente a situação deixou um desconforto enorme dentro da F1. Um acordo que esconde uma possível infração de uma rival, que ficou com o vice-campeonato de construtores, é algo que todo mundo vai querer entender direito.

Importante dizer, no entanto, que o procedimento da FIA, apesar de não ser muito comum, está em conformidade com o regulamento Jurídico e Disciplinar da entidade, que prevê este tipo de acordo confidencial entre partes.

O normal, seria levar o caso ao Tribunal Internacional da entidade, em que investigações poderiam até ser mantidas em sigilo, porém, os detalhes das audiências precisam ser publicados e registrados. No entanto, a FIA tem o direito de encerrar o caso através de um acordo.

O problema, como já dissemos, é convencer as outras equipes, que competiram contra a Ferrari e até a viram vencer corridas, de que não tem problema a escuderia talvez ter quebrado as regras e que o melhor é seguir adiante. Ainda mais depois de um comunicado em que a própria FIA diz que “não ficou satisfeita” com o resultado da investigação.

Novos capítulos desta história devem surgir nas próximas semanas e é esperado pressão nas entrevistas de começo de temporada para que os detalhes do inquérito sejam revelados, assim como acontece com quase todos os outros casos de investigação técnica.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.