Entenda lance polêmico de Baku e por que FIA puniu Vettel e não Hamilton

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*Com colaboração de Bruno Ferreira

Não tem jeito. Um lance envolvendo os dois pilotos com mais títulos do grid da F1 e que protagonizam em 2017 uma batalha direta e mano-a-mano pelo campeonato como o do GP do Azerbaijão só poderia dar mesmo muito o que falar. E quem acompanha automobilismo está nos últimos dois dias discutindo e tentando entender o que aconteceu entre Sebastian Vettel e Lewis Hamilton em Baku.

O inglês vinha na frente durante o safety car quando o alemão bateu na traseira de sua Mercedes. Sentindo que o adversário realizou o chamado teste de freio [brake test]para lhe pregar uma pegadinha, o ferrarista, furioso, emparelhou e jogou deliberadamente o carro em cima do rival para reclamar.

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Depois, Vettel sofreu uma penalização de stop-and-go de 10 segundos. Apesar da alegação de pilotagem perigosa, Hamilton não recebeu nenhuma punição. A FIA explicou que após checar a telemetria do carro do tricampeão, verificou que ele além de não ter feito nada de irregular, ainda procedeu da mesma forma que fez nas relargadas anteriores na prova.

Baku Hamilton Vettel toque

Mesmo com a posição da entidade, o lance gerou muita discussão. Aparentemente, é unânime entre fãs e analistas que a reação de Vettel foi injustificável e que sua penalização foi correta ou até branda perante o ato antidesportivo. Ele indiscutivelmente passou do ponto. Por outro lado, defende que Hamilton teria agido com má fé durante a relargada e que também merecia uma sanção.

O lance até pode gerar realmente opiniões divergentes, como aconteceu inclusive dentro da equipe do Projeto Motor. Porém, uma coisa que fica clara na análise das imagens de cockpit dos dois carros com gráficos de velocidade, aceleração e freio é que o inglês realmente não realizou teste de freio e que, na pior das hipóteses, se cometeu algum erro foi o da imprudência. É possível interpretar também que, na ânsia de ficar próximo do adversário naquele trecho final de circuito antes da relargada, Vettel se aproximou demais e acabou batendo na Mercedes.

Baku hamilton Vettel reclamação

O lance, no entanto, precisa ser melhor observado. O artigo que dita a regra de relargada é o “39.13” do regulamento esportivo da F1. Vamos à lei:

“Quando a direção de prova decidir que é seguro chamar o safety car aos boxes, a mensagem ‘Safety Car nesta volta’ será enviada para todas as equipes através do sistema de mensagem oficial e as luzes laranjas do carro [de segurança]se apagarão. Este será o sinal para equipes e pilotos que o carro entrará no pit lane no final daquela volta.

Neste ponto, o primeiro carro atrás do safety car deve ditar o ritmo e, se necessário, ficar a uma distância de mais de carros para trás [do safety car].

Para evitar acidentes antes que o safety car retorne aos pits, do ponto em que as luzes do carro se apagam, os pilotos devem proceder em um ritmo que não envolva aceleração errática ou freadas nem qualquer outra manobra que possa colocar em perigo outros pilotos ou impedir a relargada.

Assim que o safety car se aproximar da entrada do pit, as bandeiras amarelas e as placas de SC serão retiradas e, a não ser que seja a última volta da corrida, serão substituídas por bandeiras verdes e sinais verdes na linha [de chegada]. Estas serão mostradas até que o último carro cruze a linha.”

A defesa de Hamilton destaca o trecho que explica a incumbência do primeiro colocado deve ditar o ritmo do grupo, no segundo parágrafo. Os acusadores, do outro lado, apontam para a parte que diz que os pilotos não devem realizar aceleração errática ou freadas que coloquem os outros carros em risco.

sinalização safety car

Em outro artigo do regulamento, o “39.5”, que dita como os pilotos devem se comportar durante todo o período de safety car, a regra afirma:

“Nenhum carro deve ser pilotado de forma desnecessariamente devagar, errática ou que possa colocar os outros pilotos ou qualquer outra pessoa em perigo potencial durante qualquer momento em que o safety car for acionado. Isso se aplica a qualquer carro que esteja na pista, no pit ou no pit lane.”

O acidente aconteceu na saída da curva 15. A tomada seguinte, apenas alguns metros depois, é a última antes do início do longo trecho de aceleração plena até a linha de chegada. Por isso, com o apagar das luzes do safety car, indicando que ele se recolheria aos boxes, aquele é justamente o ponto em que o líder do pelotão precisa segurar a velocidade para ganhar distância e poder relargar em aceleração sem passar por ele ainda no traçado.

A questão é se Hamilton fez alguma manobra que pudesse surpreender e colocar em risco quem vinha atrás. Ao analisar a imagem da on board, vemos que Hamilton vem reduzindo a velocidade de forma constante desde antes da curva. Ele pisa no freio a 92 km/h alguns metros antes da tomada. Quando ele chega no centro da curva, passando pelo bico da zebra, ele está a 60 km/h e continua freando. Na saída, ele toma o toque (dá para perceber pelo tranco na cabeça) quando está a 53 km/h.

Ou seja, nota-se que Hamilton não acelerou e freou bruscamente. Ele diminuiu a velocidade para o contorno da curva, como era de se esperar, e depois não reacelerou, esperando ganhar espaço em relação ao safety car. O seu movimento é linear por muitos metros. A velocidade realmente é bastante baixa e pode até dar abertura para enquadrá-lo no artigo “39.5” sobre pilotar desnecessariamente muito devagar. Mas, de novo, pelo fato dele ter um possível motivo para isso (esperar o safety car), quase que uma espécie de álibi mesmo, o pecado do inglês aqui foi no máximo a imprudência.

Na imagem de Vettel, vemos que o alemão se aproxima da curva em uma velocidade mais alta e sempre muito próximo. A diminuição de Hamilton, dentro dos parâmetros da F1, é muito pequena para dizer que ele não teve tempo de frear. E mais, vê-se pelo gráfico que Vettel não parou em nenhum momento de bombar o acelerador, mesmo quando freava. A estratégia é para manter o motor cheio para a relargada, ainda mais em tempos de turbo. Ou seja, o tetracampeão estava tão preocupado em reagir à aceleração de Hamilton o mais rápido possível, que não prestou a atenção que a velocidade estava caindo.

Certamente, a FIA possui dados ainda mais completos da telemetria, o que a fez julgar que Hamilton não fez nada de errado. Mas apenas a análise desses dois vídeos já dá indícios de que o inglês realmente não agiu de forma irregular.

No final das contas, a impressão que fica é que Vettel realmente cometeu um erro e não soube lidar com a situação antes de explodir. Talvez, depois de quase 11 voltas consecutivas atrás do safety car, tenha surgido no alemão o clássico motorista furioso de trânsito. Falta só saber o quanto esse lance irá esquentar a relação entre os dois, que até o momento era pacífica, e como isso pode influenciar no psicológico de cada um.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Dox

    Discordo da análise sobre o comportamento do Hamilton porque os videos utilizados estão deficientes.
    O primeiro mostra o Hamilton com o pé no freio depois da tangência da curva, o que não é usual, principalmente num contorno de um arco de aproximadamente uns 60°.
    E ele é interrompido exatamente quando deveria mostrar outro leve toque no freio, o que torna furados os argumentos da FIA e do Hamilton (o video abaixo mostra isso).
    O segundo, no carro do Vettel, não tem uma coisa muito importante, que é o som do motor, já que não tem o gráfico telemétrico, mas não encontrei este trecho isolado no YouTube, mas vi aqui na corrida que baixei.
    O som dá a dimensão correta da desaceleração do Hamilton e demonstra que Vettel tirou bastante para não bater, sem sucesso.
    Vettel estava preenchendo totalmente o retrovisor do Hamilton, e ele sabia, e portanto deveria tomar mais cuidado ao escolher o momento correto para começar a reduzir, para dar a devida distância para o carro de segurança.
    Isso não deveria ser feito numa saida de curva, pois aumentaria o risco de causar uma colisão, o que acabou acontecendo, e danificando o carro do Vettel.
    Nos dois comentários de pilotos que vi até agora (Stewart e Villeneuve), ambos detectaram esse artifício intimidador do Hamilton.

  • Bruno Botelho

    Parabéns pela análise, a primeira que vi falando a verdade!

  • vinicius alexandre

    Independente de quem ta certo ou errado só sei que eu quero é treta kkkkkkkkk,é sempre bom uma rivalidade esquentando na F1 ainda mais entre pilotos de equipes diferentes,mal posso esperar pelo Gp da Áustria!!

    • Diogo Rengel Santos

      Exato. Não tome partido, pegue a pipoca e vamos ver os dois se pegando.

      Quero mais discussão verbal e batidas entre os dois. Vamos fazer o circo pegar fogo

  • Rodrigo Fonseca

    Mais um ponto pra corroborar a conduta de Hamilton: na relargada anterior, a Mercedes alertou pelo rádio que ele quase havia ultrapassado o Safety Car antes que esse entrasse nos boxes (“that was close, Lewis”), e que deveria ser mais cuidadoso. Hamilton até tira uma onda com o engenheiro dizendo que ele tinha “sensibilidade” como poucos pra fazer aquilo. Era natural que na relargada seguinte ele buscasse ser mais conservador.

  • Bravo Rezende

    Bela análise… hehe… mas fico com a opinião de Jacques Villeneuve, que já esteve lá, sempre se posiciona e conhece de perto a realidade dos fatos, tendo sido campeão em disputa com Schumacher: http://globoesporte.globo.com/motor/formula-1/noticia/villeneuve-defende-vettel-em-incidente-com-hamilton-eu-faria-o-mesmo.ghtml

  • VolksLove

    Finalmente uma análise de forma coerente com o ocorrido.